Novo disco do Bon Jovi não é novidade, mas é rock | Judão

This House is Not For Sale pode não ser a coisa mais original do mundo, pode ser o que uns e outros chamam de “rock de tiozinho”, mas restaura um bocado de dignidade à banda

No final do ano passado, quando o 13o disco de inéditas de sua banda ainda estava programado para março de 2016, o vocalista Jon Bon Jovi afirmou, em uma coletiva de imprensa em Kuala Lampur, que a casa referenciada no título This House is Not For Sale é, na verdade, a própria banda. “Este álbum é sobre a nossa integridade, que não está à venda. Integridade importa e estamos em um estágio de nossas carreiras que não temos mais nada para aprovar”, disse ele.

Que bom, Jon. Ficamos felizes. Mas que aqueles últimos três discos de MERDA que você lançou soam nitidamente como alguém tentando definitivamente provar alguma coisa pra alguém, ah, isso eles parecem. Embora musicalmente diferentes entre si, Lost Highway (2007), The Circle (2009) e What About Now (2013) têm algo em comum. A trinca é uma tentativa, frustradíssima, de fazer o Bon Jovi “fugir” do verdadeiro blockbuster que foi Crush, disco lançado em 2000 que trazia o hit absoluto It’s My Life (o refrão está tocando na sua cabeça neste exato momento, confesse).

Depois dele, parece que Jon e seus CONFRADES ficaram um tanto incomodados com seu bem-sucedido flerte pop, o mesmo que os apresentou a uma nova geração de fãs, e resolveram “ousar”. Tentaram ser mais “sérios” aqui, um pouco mais country ali, embarcando numas misturas esquisitas... Tudo resultando em um fracasso miserável e retumbante.

This House is Not For Sale é um disco que dá para dizer que é histórico para o Bon Jovi. É o primeiro a sair por uma nova gravadora, depois do encerramento de uma relação de mais de 30 anos com a Mercury Records (selo da Universal). É o primeiro a creditar o baixista Hugh McDonald como integrante oficial do grupo, por mais que o cara já bata cartão com eles desde 1994. E é o primeiro registro com Phil X, novo guitarrista que chega para assumir a LACUNA deixada pela saída daquele que se considerava a cara-metade de Jon, o ótimo Richie Sambora.

Só que também é o primeiro álbum efetivamente ROQUEIRO dos caras em quase dez anos. ROCK mesmo, de verdade, assim em caixa alta, rock com jeito de rock e não aquela parada insípida, frouxa, sem pimenta ou uma pitadinha de sal, que andaram soltando no mercado.

Mas, antes de tudo, vejam, é importante ir com calma aqui. Dizer a expressão “é o primeiro disco de rock do Bon Jovi em dez anos” não implica necessariamente dizer que “a fase Slippery When Wet (1986) e New Jersey (1988) está de volta”. Mas tá muito longe disso, segura a empolgação. Este não é um registro hard rock, glam metal ou nada semelhante. Eu diria que está mais para “rock adulto contemporâneo”, aquele que atende pela famigerada sigla AOR. Mais Journey, Foreigner, sabe? “Rock de tiozinho”, conforme dizem maldosamente alguns, jogando do jeito mais seguro. É, talvez até seja um pouco.

O ponto é que aqui está também uma força, uma energia, uma intensidade que fazia falta ouvir na produção dos músicos há um bom tempo. Escute as ótimas Knockout e Rollercoaster, por exemplo. Ambas são radiofônicas pra caralho, óbvio, e mostram que o compositor anda fazendo a lição de casa e sabe bem o que muitas bandas contemporâneas tão tocando por aí. Mas inevitável pensar em como ela cairia como uma luva nos shows ao vivo, fazendo você entrar no clima e pular sem parar.

Bons refrões, bastante melodia, rockão de arena, pra gente cantar junto. É rock, mas não do tipo pra bater cabeça com laquê na Sunset Strip dos anos 80. Também é pop, do tipo que garantiria a presença da banda nas rádios (?), mas talvez não daquele que você se lembra da MTV dos anos 2000. No fim das contas, é de fato uma proposta comercialmente bastante arriscada, goste você ou não, porque não tá muito querendo agradar nenhum dos dois públicos assim, de maneira tão certeira. Jon estava certo quando disse que não tinha mais nada pra provar do alto de seus 50 e poucos anos. Foi lá e simplesmente fez.

“These four walls have got us a story to tell”, abre dizendo a faixa-título, já seguida de um coralzinho que vai se repetir ao longo do refrão e que, por mais que as letras não sejam lá o forte aqui, vai ser impossível você não se pegar cantando junto já na segunda audição. Depois do primeiro recado em uma obra bastante pessoal, ele não perde tempo e manda mais um: Living With the Ghost é linda, com uma sonoridade meio etérea amplificada pelos teclados e cujo tema é bastante claro. “I wrote each word, you gave the toast”, diz o vocalista. “But we were fire and gasoline. I ain’t living with the ghost”. Tá meio óbvio aê que ele tá se referindo ao Sambora, o cara que saiu da banda pelos “problemas pessoais” que, hoje sabemos, foram as ausências dos shows causadas por conta de sua luta contra a dependência química.

Mesmo as baladas, praticamente uma especialidade do Bon Jovi, melhoraram um bocado se comparadas às experiências melosas dos álbuns anteriores. Labor of Love, por exemplo, tem uma faceta sombria, até, com umas palhetadas tristes que evocam imediatamente Wicked Game, de Chris Isaak. E impossível deixar de mencionar a emocional e emocionante Scars On My Guitar, uma declaração de amor de Jon à sua própria guitarra, que sempre esteve lá para ele quando precisou colocar algo pra fora. “She heard my every word when I was pouring out my heart, so I thank my lucky stars for every crack, scratch and scar on this guitar”, canta ele numa pegada country, se declarando para o instrumento ao qual se refere, como BB King, no feminino, como uma espécie de amante secreta.

Existe uma ÚLTIMA pergunta que, obviamente, fica no ar. Sambora faz falta?

Sendo honestíssimo, faz bastante. Isso não dá pra negar. Sambora é um cara subestimado pra caralho, tem uma coisa diferente e especial no jeito de tocar, um groove diferente, um suingue que enche seu trabalho daquela emoção que faz falta aos virtuosos fritadores e suas velozes / múltiplas escalas matemáticas por minuto (sim, estou falando mesmo DAQUELE sueco mala sem alça).

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Sambora e Jon

This House is Not For Sale é um bom disco de rock. Eficiente, eu acrescentaria. Não ótimo, brilhante, sensacional. Mas bom. Só que sem as guitarras como protagonistas. Phil X é um guitarrista competente, tudo bem, basta ouvir o que ele faz ao longo de The Devil’s in The Temple. Mas com a sonoridade repleta de blues e soul do guitarrista original, impossível pensar nas muitas camadas sonoras que as canções ganhariam. Born Again Tomorrow, por exemplo, é daquelas canções com bom potencial mas com alguma coisa faltando pra decolar. É um dos momentos do disco que deixam a gente pensando: “imagina a força do Sambora para dar mais corpo aqui?”.

Resumidamente, este não é o melhor representante da discografia do Bon Jovi. Tampouco o mais original ou mais criativo. Mas dá pra dizer que ele entra na coleção de um jeito bastante digno, sem fazer a galera passar vergonha. Em um álbum que gira essencialmente em torno de temas de mudança e novos começos, faz sentido que este seja o Bon Jovi sendo o melhor Bon Jovi que o Bon Jovi consegue ser nos dias de hoje.