O amadurecer do Arctic Monkeys | Judão

Tranquility Base Hotel & Casino é criativo e experimental sem perder a personalidade da banda

Em 1964, os Beatles estouraram nos Estados Unidos. Depois de uma participação no Ed Sullivan Show, eles ganharam o mundo como aqueles “meninos do iê-iê-iê”. Dois anos e SEIS álbuns depois, eles resolveram largar o título de garotos e vieram com o Revolver, uma obra diferente daquelas mais brincalhonas de antes. O Rubber Soul, trabalho anterior, já tinha um QUÊ de mudança. Mas o Revolver foi especial. Ali eles experimentaram, falaram não só sobre ~as namoradinhas, mas também sobre a vida, aflições e sobre relacionamentos, sim, mas de um jeito lapidado. Haviam, enfim, crescido. E eu vi (e ouvi!) o mesmo acontecendo com o Arctic Monkeys e o seu sexto álbum de estúdio, Tranquility Base Hotel & Casino.

Em 2006, eles saltaram aos nossos ouvidos com I Bet You Look Good on the Dancefloor. Rasgava, contagiava, sujava como I Can See For Miles, do The Who ou Helter Skelter, dos Beatles. Eles viraram símbolo do indie e nunca pararam de impressionar. Só que lá em 2013, nos deram algo… diferente. O álbum AM trouxe uma PUTA unidade entre as músicas. Não que não houvesse uma certa uniformidade antes, mas nesse nós temos uma sintonia, conexão, quase um namoro entre as faixas. É sedutor, é mais crescido, mas ainda bem conectado SONORAMENTE com aqueles garotos de 2006.

Eis que, na última sexta-feira (11), Tranquility Base Hotel & Casino apareceu (oficialmente) com os integrantes da banda nos mostrando um novo momento artístico. Sem perder sua essência inconfundível (e é tão difícil isso!) e ainda trabalhando com muita coesão, experimentam muito com elementos de jazz, usando algumas vozes pesadas, piano e, por vezes, sons de bateria que poderiam estar em um trabalho de Miles Davis. Ainda rock, mas mais psicodélico, com reverberação, distorção e, gente, tem até TEREMIM.

Começam com as palavras “I just wanted to be one of The Strokes” (“eu só queria ser um integrante do The Strokes”). E, minha NOSSA, como isso faz sentido. Marcar o princípio de uma obra dessas falando JUSTAMENTE sobre o próprio início é tão, tão bonito. Avançam refletindo sobre o presente, tecnologia, mudanças (pessoais e sociais) e o sentimento de desorientação geral que andamos vivendo. Destaco Four Out Of Five, que diz um pouco sobre a cultura da amortização da dor, necessidade de controle e gentrificação (que ganhou um clipe BEM foda); Tranquility Base Hotel & Casino, faixa-título que conversa com medos que temos de nosso lado mais obscuro; e Science Fiction, charmosa e um pouco densa, que brinca com os conceitos e referências de ficção científica para fazer uma declaração romântica. E existe também uma BELA zoada em Trump quando cantam sobre o “líder do mundo livre que parece um lutador com um calção dourado” em Golden Trunks.

A última faixa é a minha favorita. The Ultracheese soa fresca e muito familiar ao mesmo tempo. É como se essa nova fase da banda te tirasse para dançar uma música lenta, de notas pesadas, piano presente e ritmo encantador. E te contasse, enquanto isso, uma história sobre um amor jovem que se foi, mas deixou sua marca para sempre dentro do coração de quem viveu. Um romance que, hoje, já não faria mais sentido. Mas que não deixa de ser belíssimo.

“Oh, the dawn won’t stop weighing a tonne / I’ve done some things that I shouldn’t have done / But I haven’t stopped loving you once…”

E com um uivo longo, melancólico e bonito, Arctic Monkeys conclui de um jeito apaixonante a obra mais interessante, complexa e madura que já criaram.