O ano em que as minorias abandonaram o cinema de nicho | Judão

Numa era em que a principal reclamação de quem consome cultura pop são as intermináveis continuações, prequências e spin-offs de uma obra, a abertura de novas perspectivas em formatos já estabelecidos podem ser uma pista de sucesso para o cinema de bilheteria em 2017

Domingo, fim de tarde, você tá procurando algo pra ver no Netflix... mais uma vez. Depois de virar do avesso cada uma das diferentes abas você entra numa área estranhamente específica e claramente racial dentro de um gênero – como as comédias formadas por elencos inteiramente negros ou os romances musicais de Bollywood na área de comédias românticas.

A falta de representatividade na indústria do entretenimento forçou diversas minorias raciais a criarem seus próprios nichos na esperança de conseguirem papeis ligados, sabe-se lá por que, a arquétipos caucasianos no imaginário mainstream. Muitas vezes, claro, o produto resultante de alguns desses trabalhos tem qualidade questionável, principalmente quando há tantas restrições orçamentárias quanto se possa imaginar em filmes e séries direcionados a uma fatia específica de mercado.

Pode parecer um exercício manipulativo dizer que algumas raças não conseguem determinados papeis EXCLUSIVAMENTE devido a cor de suas peles e, dependendo da extensão da bolha de aceitação e representatividade do seu feed do Facebook, você pode até tentar refutar levantando as inúmeras histórias com fortes personagens negros em papeis coadjuvantes atualmente. A verdade, entretanto, é que mesmo produtos “progressistas” como Handmaid’s Tale e Big Little Lies falham com seus personagens que representam minorias. A primeira perdendo a chance de ressaltar o papel do preconceito numa sociedade em que mulheres são subjugadas a papeis sexuais, ao recusarem questionamentos como: Aias brancas têm mais regalias que aias de outras raças? Não existem homens que recusam mulheres não-brancas para gerarem seus descendentes? Homens trans seriam obrigados a retrocederem suas transições para gerarem filhos para um Estado totalitário religioso? Ao passo que a série de Reeze Witherspoon centraliza a ação em três protagonistas brancas e reduz sua principal coadjuvante negra a um estereótipo de raça: Zoe Kravitz vivendo uma mulher ~exótica~ e sensual.

Se dados os argumentos, ainda lhe parecer frágil o raciocínio, tente pensar em algumas mocinhas em comédias românticas de grande estúdio e responda: quantas delas não são brancas? E em filmes de ação, quantas vezes você viu rolarem os créditos finais e descobriu um negro encabeçando a direção de um blockbuster?

A desconcertante diversidade dos casais de Nicholas Sparks

Numa era em que a principal reclamação de quem consome cultura pop são as intermináveis continuações, prequências e spin-offs de uma obra – que frequentemente sequer são pensadas como produções fechadas, já que pontas soltas se tornam oportunidades para sequências – a abertura de novas perspectivas em formatos já estabelecidos podem ser uma pista de sucesso para o cinema de bilheteria em 2017.

Há oito anos, por exemplo, estreava Se Beber, Não Case!, marco do retorno das comédias baseadas em encontros de amigos. Grande bilheteria, um boost na carreira dos atores e sequências que rapidamente perderam o frescor inicial acabaram por enterrar o formato por algum tempo. Esse ano, uma improvável candidata à temporada de verão nos EUA foi responsável por trazer de volta o gênero. Fazendo parada em cada um dos clichês do formato, mas diferenciando-os com os detalhes próprios de um grupo específico, Girls Trip alcançou a marca dos mais de 130 milhões de dólares na bilheteria americana (num enxuto orçamento de 19 milhões) trazendo um elenco principal formado inteiramente por mulheres negras.

Outro filme que acerta em cheio ao renovar um gênero lotado de tropos marcantes no imaginário coletivo é Doentes de Amor. Da corridinha do homem até o aeroporto ao perceber que acaba de perder a mulher dos sonhos à workaholic que anulou sua vida amorosa, há pouco terreno para inovação em comédias românticas. A novidade da produção roteirizada pelo casal Emily Gordon e Kumail Nanjiani em parceria com o diretor Michael Showalter mora no conflito que impede o casal inter-racial de concretizar uma relação. Ao invés de explorar dificuldades de aceitação que uma família americana teria ao ser apresentada a um genro de origem muçulmana, centralizam o dilema na diferença cultural imposta pelos casamentos arranjados da tradição paquistanesa DELE. Tomando temas de difícil discussão – lembremos que este é um filme sobre perceber que está apaixonado por sua ex enquanto ela está em coma – Doentes de Amor adentra temas como antissemitismo e racismo sem transformar nenhuma dessas questões num fardo ou assunto moralizante, ponto de vista já explorado à exaustão em dramas inter-raciais como Adivinha Quem Vem Pra Jantar (1967) e Loving (2016).

Se há dificuldade em puxar na memória casais não-caucasianos em papeis centrais numa trama, representações de minorias em gêneros como o terror são mais raras ainda. Cronometre o tempo que uma minoria racial demora em encontrar um fantasma, serial killer ou maldição milenar e as surpresas surgirão apenas pra quem desconhece o formato; vem daí todo o alvoroço construído por Corra!. Outro dos fenômenos de bilheteria do ano, o longa de Jordan Peele toma um medo específico da população negra e o extrapola para fins narrativos: o receio em se ver isolado num ambiente com pessoas de maioria branca – seja numa entrevista de emprego, abordagem policial ou uma casa no lago com os pais democratas de sua namorada branca, a sensação de não-pertencimento a um lugar nunca pareceu tão palpável quanto em Corra!.

Perceba que em nenhum dos filmes citados, seus diretores e roteiristas partem para reinvenções da roda ou criação de conceitos completamente novos no entretenimento de massa, mas na diferenciação de QUEM enxerga situações ordinárias já muito exploradas. Se a criatividade dos homens brancos de Hollywood tirou férias, talvez seja a hora de deixar outras raças mostrarem suas perspectivas sobre temas comuns – como a vida de solteiro (Insecure), a vida em família (Jane The VirgIn) ou a saída do armário de uma mulher (Masters of None) – e se chocarem ao notar as muitas particularidades que certos grupos demonstram na vida cotidiana.