O ateísmo do Homem-Morcego | Judão

Edição mais recente do gibi do Cavaleiro das Trevas lançada nos EUA, novamente com um roteiro primoroso de Tom King, chama atenção por uma discussão quando, na verdade, deveria chamar por OUTRA, isso sim

Do judaísmo de Ben Grimm, o Coisa do Quarteto Fantástico, ao catolicismo ferrenho do mutante Noturno, passando pelo islamismo de Kamala Khan, a Miss Marvel, e até mesmo pela religião inspirada no Thor que vimos surgir no universo 2099 da Marvel, a espiritualidade sempre foi assunto presente nos gibis de super-heróis. E na última semana, a dobradinha voltou à tona por causa da edição de número 53 do gibi de linha do Batman, em uma leva que vem sendo escrita com maestria por Tom King.

“Muita gente tá dizendo que Batman #53 (escrito por mim) mostra que o Batman é ateu”, disse ele, em sua conta do Twitter. “Não é deste jeito que eu vejo o gibi. Mas eu não acho que a minha leitura disso seja a mais importante de todas. De qualquer forma, espero que vocês leiam e decidam por conta própria”.

Bom, esta pequena peça de texto já mereceria, por si só, aplausos de pé. Afinal, o King está deixando os quadrinhos serem quadrinhos, na mesma toada da nossa defesa do “deixa o cinema ser cinema” que falamos aqui. “No que você explica você destrói. Se você precisa explicar, é porque não funcionou, na verdade”, disse, durante o episódio #111 do ASTERISCO, o diretor Vicente Amorim, de Motorrad. “A graça é você dar elementos suficientes pro espectador pra ele poder, em cima disso, criar o universo imaginário dele, a partir de algumas regras que nós criamos”.

Mas o mais legal é que o King não apenas vem aprimorando o que Scott Snyder deixou pra trás em sua boa passagem pela HQ mensal do Morcegão mas subindo DEMAIS o sarrafo, caminhando inclusive para quebrar de vez uma daquelas que se tornaram regras absolutas dos gibis da DC nas últimas décadas, que era “o Batman funciona muito melhor em edições especiais do que em sua própria revista de linha”.

Em Batman #53, sim, ele discute o ateísmo do Morcegomem — ou, pra ser mais preciso, a relação que Bruce Wayne teve com a religião de seus pais e como isso mudou depois que eles morreram. Só que, vamos ser honestos, a história (que faz parte do ótimo arco Cold Days) não é sobre isso. Assim como aquela lindíssima e emocionante edição do casamento do Batman com a Mulher-Gato não era sobre o casamento. Na verdade, uma coisa tá mais do que ligada à outra. Depois de uma decepção que o fez perder a esperança de que um dia poderia (e mereceria) ser realmente feliz, o que temos aqui é o Bruce Wayne questionando a si mesmo, mais do que às pessoas ao redor, sobre o real papel do Batman.

A chamada na capa da revista, Dark Knight No More, pode te lembrar de imediato de Spider-Man No More, aquele momento tão icônico e tão repetido no qual Peter Parker resolve desistir de ser o Homem-Aranha. Não é o caso aqui. Mas Bruce Wayne está querendo repensar o Batman que ele é hoje. Se reencontrar, se reconectar com seu passado. E ter a certeza de que Batman vai ser no futuro.

Na história desta edição, não tem pancadaria, cenas de ação, nada do gênero. É só diálogo. Aliás, quase como um monólogo do Sr. Wayne. Tudo acontece dentro de uma sala, na qual Bruce, aqui apenas um cidadão comum de Gotham City convocado pela Justiça, conversa com os jurados do julgamento do caso mais recente envolvendo o Senhor Frio. O grande ponto: ele foi capturado por um Batman que parecia diferente. Mais explosivo. Menos focado.

Apenas o Bruce, obviamente, entende os motivos do porque seus pensamentos estariam distantes por baixo da máscara, ainda pensando em Selina. Mas, de qualquer forma, um Batman que leva os homens da lei e, claro, esta reunião de jurados, a pensar: não seria o Batman, esta entidade que paira de asas abertas acima do bem e do mal sobre Gotham, um dos principais responsáveis pela violência na cidade?

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É neste ponto que entra, então, a questão do ateísmo. A mim, pelo menos, parecia lógico que o maior detetive do mundo, a mente analítica mais brilhante do Universo DC, um homem da ciência focado em fatos, tivesse mesmo pouca predisposição a acreditar em Deus e/ou em deuses, ainda que ele caminhe ao lado da filha de um deus greco-romano e, desconsiderando as muitas idas e vindas cronológicas, também ao lado de um camarada (no caso, Hal Jordan) que morreu e, antes de ressuscitar, assumiu o papel do Espectro, a mão direita de um deus claramente descrito como AQUELE deus católico.

Só que Bruce perdeu a fé nesta entidade na qual seu pai acreditava piamente justamente naquela noite, no Beco do Crime, quando os disparos de um bandido tiraram a vida de Thomas e Martha Wayne. Por que este tal “deus” não os salvou? Bruce procurou respostas pelo mundo, treinou com os maiores especialistas, conheceu as mais diferentes filosofias... mas só quando voltou a Gotham mais uma vez é que encontrou a resposta. E transformou o Batman em seu próprio deus. Alguém que salvou a vida de todos naquela sala, que não poderia ser questionado, da mesma forma que Jó um dia questionou o deus católico e ouviu em retorno um “eu criei as montanhas. E você? Quem é você?”.

“Durante anos, eu depositei tudo de mim neste Batman. Porque ele era bom. Porque era bom o bastante pra me afastar de toda a dor”, explica Bruce, amargurado. E então, mesmo sem explicitar que está falando de seu outro EU, que está contando uma história bem mais pessoal do que parece, ele deixa claro que o Batman não é uma entidade.

Que é um homem ali por baixo do uniforme, um homem de carne e osso, cheio de defeitos e que também pode errar. Um homem que não é infalível, apesar de genial. Alguém que caminha ombro a ombro com alienígenas, semi-deuses e policiais espaciais, mas que ainda é apenas e tão somente um cara vestido de morcego.

É sobre ISSO que trata Batman #53. E não sobre ele ser ou não ateu.

Eu sempre defendi que Bruce Wayne era uma identidade secreta. O playboy frívolo que ele fingia ser quando, na verdade, o real Bruce era o Batman, o homem frio, calculista, que mapeava inimigos e aliados sem distinção em sua cruzada para combater o crime, sempre caminhando na linha fina entre a sanidade e a loucura de seus principais oponentes devidamente encarcerados no Asilo Arkham.

Alguém irritantemente superior, arrogante, o ápice da humanidade. Porque foi esta a imagem que a DC vendeu dele, nos gibis e nas animações, nos últimos anos. Mas nesta edição eu finalmente vi um OUTRO lado de Bruce Wayne. Um lado verdadeiramente mais humano, de coração arrebentado. Uma história de Bruce Wayne, e não do Batman, como há muito eu não lia. O início de uma incrível desconstrução.

Assim como Brian Michael Bendis me fez ter vontade, muitos anos depois, de enfim voltar a acompanhar mensalmente um gibi do Homem de Ferro, agora é real oficial: por causa do Tom King, tô querendo ser leitor de carteirinha do Morcegão que, preciso ser honesto, jamais esteve entre meus personagens favoritos (sou muito mais o Asa Noturna do que ele, vamos lá).

Da mesma forma que o próprio Bendis está fazendo agora com o Superman, temos um novo/velho Batman a caminho. Não apenas porque ele resolve voltar a usar o uniforme antigo, com o cinto de utilidades maior e mais cheio de traquitanas à mostra e a boa e velha cueca por cima das calças. Mas porque ele precisa. E o mundo ao seu redor também.