O Buraco Negro da Cientologia | Judão

A religião que tirou o Chef de South Park, fez Tom Cruise pular no sofá da Oprah e fodeu a vida de tanta gente

O cruzamento da Sunset Blvd. a Vermont Ave, em Los Angeles, é pontuado por quatro prédios gigantescos. Três deles são complexos hospitalares renomados, verdadeiras cidades contidas em corredores infindáveis, habitadas por pacientes e funcionários. O outro é um palácio tão formidável quanto azul, que abre os braços para a rua e esconde o restante dos edifícios do complexo. No topo dessa construção uma cruz dourada e uma palavra em letras garrafais, igualmente douradas: Cientologia. Esse é o quartel-general, ou Pacific Command Area, da igreja fundada pelo autor de ficção científica L. Ron Hubbard e um dos maiores polarizadores culturais e religiosos não apenas em Hollywood, mas em três continentes, desde a década de 1950.

A cientologia é o tema do documentário Going Clear: Scientology and the Prision of Belief, dirigido por Alex Gibney, produzido pela HBO, disponível no Netflix e responsável por uma das maiores audiências já registradas pelo canal, afinal de contas, todo mundo quer saber por que Tom Cruise despirocou, o que diabos acontece lá dentro e como alguém consegue acreditar numa religião baseada em alienígenas, invenções retiradas das páginas das ficções pulp e que cobra pesadamente daqueles que querem fazer parte dela.

O documentário em si é revelador, bem organizado, repleto de informação jornalística, contado por ex-membros da igreja e procura, claramente, informar sobre as práticas, crenças e origens da religião auto-proclamada. As entrevistas são pontuais, lúcidas e pessoais, aquele tipo de material difícil de ser questionado pela sinceridade em tela. Entretanto, um dos entrevistados falava com a mesma convicção à favor da Cientologia enquanto foi membro e porta-voz da entidade. Logo, há dois extremos em jogo: durante o radicalismo e o depois. O mais interessante, porém, são as discussões levantadas por Going Clear, tanto no livro de Lawrence Wright, vencedor do Pullitzer (que no Brasil se chama A Prisão da Fé e foi publicado pela Companhia das Letras), quanto à natureza da fé, dos limites aceitos pelas pessoas e, claro, dos absurdos envolvidos em qualquer culto ou grupo radical.

Meu primeiro contato com o conceito da Dianética – nada mais que um blábláblá de autoajuda criada por Hubbard para, assumidamente, ganhar dinheiro – foi uma reunião do Clube dos Leitores de Ficção Científica, em São Paulo. Uma pessoa, prima de um dos membros, começou a visitar as reuniões sob o pretexto de divulgar o livro Dianética e também A Reconquista, ambos escritos por L. Ron Hubbard e hoje considerados livros sagrados, o que os torna isentos de impostos nos Estados Unidos. Ouvi alguns conceitos, mas nunca aceitei os convites de visitar o “centro de estudos de dianética”. Meses depois, a mesma pessoa entrou em contato oferecendo-se para participar dos encontros do Conselho Jedi São Paulo e fazer a mesma “divulgação científica”. Bem, fui pesquisar e o que encontrei foi uma religião por trás da autoajuda e, como o objetivo do fã-clube era divertir e reunir aficionados, não tentar moldar suas mentes, rejeitei o primeiro, o segundo e o terceiro convite.

Desde esse período, nos idos de 2000, perdi o contato com o assunto. Quando mudei para Los Angeles, notei um grupo curioso de cerca de 50 pessoas que esperava por um ônibus em frente à primeira escola da minha filha. Todos vestiam as mesmas roupas – trajes formais, em tons de cinza e azul – e esperavam por algo. Certo dia, esperei para ver o que acontecia. Um ônibus encostou e todos entraram. Ele era azul e tinha uma palavra escrita na lateral, em dourado e preto: Scientology. Moro bem ao lado do quartel-general, e a coisa de 15 quarteirões do Scientology Celebrity Center, e nunca me dei conta do tamanho do envolvimento das pessoas aqui. Na Hollywood Blvd, ao lado do teatro Pantages, existe um museu em homenagem a Hubbard, assim como outras iniciativas espalhadas pela cidade que levam o nome da religião. Enfim, eles estão por todos os lados. É o equivalente local à presença da Universal em São Paulo.

Todo e qualquer sucesso da pessoa passa a ser atribuído à Igreja da Cientologia e todas as falhas acontecem por culpa do indivíduo. É a terceirização do sucesso e a internalização do fracasso

Tenho amigos envolvidos com o conceito de dianética por aqui. E fui convidado, claro. O apelo do sucesso profissional e do aprimoramento pessoal é atraente, assim como aqueles cursos de choque emocional oferecidos por gente como Lair Ribeiro e Yasushi Arita, no Brasil. Muito do contato inicial é oferecido a empreendedores, gente que quer ser melhor no que faz, ser “líder”, ou, especificamente no caso da cientologia, “se livrar da negatividade mental e ficar limpo”. O termo original é “clear”, ao qual o título do documentário se refere. Por conta do networking oferecido pela igreja, da carga pesada de conceitos e mensagens incutidas nos praticantes e também de sorte, todo e qualquer sucesso da pessoa passa a ser atribuído à Igreja da Cientologia e todas as falhas acontecem pelo indivíduo não ter se esforçado, treinado ou estar limpo o suficiente. Aliás, esse preceito está presente em diversas linhas religiosas. É a terceirização do sucesso e a internalização do fracasso.

Hubbard era maluco, manipulador e, enquanto muita gente brinca dizendo que vai abrir uma igreja e ganhar dinheiro, ele foi lá e fez. A diferença é que, em vez de alugar um salão, vestir um terno e ficar gritando feito um maluco o mais alto que pode numa esquina qualquer até alguém resolver entrar, ele usou toda a prática que tinha como novelista de ficção científica e inventou o pacote completo: mito de criação, metodologia de aplicação, estrutura clerical, instrumentos, conceitos, objetivos e, inevitavelmente, punições. É como se J.R.R. Tolkien tivesse resolvido criar o “Eruismo” baseado no Silmarillion e em O Senhor dos Anéis. A diferença é que o Professor era, de fato, genial, fez sua parte na guerra e amava a esposa ao ponto de escrever Beren e Luthien; enquanto Hubbard só fez besteira na Marinha, mentiu a torto e a direito, batia e ameaçava matar a esposa, raptou a filha e a levou para Cuba, se autodenominou Comodoro de três navios tripulados por jovens deslumbrados, manipulados, explorados e parcamente remunerados.

L Ron Hubbard na capa de A Prisão da Fé, o livro que deu origem ao documentário

L Ron Hubbard na capa de A Prisão da Fé, o livro que deu origem ao documentário

Acreditando ou não, religião deve ser respeitada, todo mundo sabe disso. O calcanhar de Aquiles da Cientologia é justamente sua criação, seu objetivo e seu homem sagrado. Nenhum dos métodos de Hubbard jamais foram aceitos pela sociedade americana de psicologia; nenhum de seus dogmas é minimamente plausível; e seus ministros, assim como o atual líder supremo da batatinha – e melhor amigo de Tom Cruise – David Miscavige, parecem discípulos de Tim Tones com aqueles uniformes de marinheiros, discurso de guru de autoajuda e a clara intenção de faturar. Os relatos sobre a “Guerra” contra a Receita Federal – que a Cientologia GANHOU, sendo oficialmente declarada como Igreja, se tornando protegida pela liberdade de religião na Constituição e isenta de impostos – é tão assustador quanto os depoimentos sobre pessoas presas, espancamentos e famílias inteiras serem destruídas por ordem da “igreja”.

Mas parte disso pode ser dito sobre a maioria das religiões, não é mesmo? Em determinados pontos nas histórias milenares, cristianismo, islamismo, judaísmo e etc. mataram, exploraram, discriminaram, oprimiram e cometeram todos os pecados que sempre denigrem. A mensagem pode até ser divina, mas o homem é falho e, até que se prove o contrário, os deuses só existem, ou não, na cabeça de cada um de nós. O poder e o acesso a fortunas, entretanto, está sempre a um passo de qualquer sacerdote.

Documentários tendem a ser unilaterais por várias razões. Nesse caso, Gibney faz questão de relacionar as pessoas que recusaram, ou nem responderam, aos pedidos de entrevista. E também pontua que Miscavige concentrou todo o poder e não fala com mais ninguém, assim como Hubbard depois que passou a ser investigado pelo governo e precisou viver os últimos anos de vida longe do mundo real. Entretanto, é muito difícil não acreditar nas palavras de Paul Haggis, um dos roteiristas mais eficazes, respeitados e relevantes de Hollywood. Haggis foi membro por quase trinta anos e “até aceitava a parada da auto-ajuda, da melhoria pessoal”, mas tomou um choque quando foi apresentado ao “material secreto”, escrito à mão por Hubbard, que revela o mito de criação, os alienígenas e as maluquices que já soavam cafonas nos anos 1950 e, hoje, bem, parecem apenas bobagem.

Xenu (lê-se zinu), um tirano galáctico, começou a congelar pessoas num planeta superpopulado e, sendo transportadas por aviões espaciais [aviões mesmo, não naves], as jogou num planeta prisão, a Terra, dentro de vulcões, há 75 milhões de anos. Depois jogou bombas atômicas em cima deles. Logo, quando um bebê humano nasce, os espíritos – ou thetans – desses alienígenas entram em nossos corpos. Eventualmente, eles precisam ser expulsos e só a Cientologia pode fazer isso para você!

Qualquer rascunho num guardanapo feito por Neil Gaiman é mais original e crível que essa bobagem. Até a ressureição fica fácil de engolir depois de algo assim. Entretanto o membro da Cientologia só descobre isso depois de já ter gasto milhares de dólares, muitos anos, e boa parte da sanidade – em alguns casos – em vez de ser apresentado à “crença” logo de cara. Nesse ponto as religiões mainstream, pelo menos, são honestas. Mesmo o pastor mequetrefe que quer encher o bolso fala sobre Deus, salvação e fé. Existe uma mensagem unificada, que atende à demanda humana por compreensão, por lógica na existência e alivia o medo da morte, permitindo uma vida menos atribulada. A Cientologia aposta no “temos superpoderes! vamos salvar o mundo!” e isso me lembra muito o discurso de alguns evangélicos radicais cujas seitas alegam que só eles serão salvos no fim dos dias. É a conveniência acima da fé.

Tom Cruise na Oprah

Falar de fé é complicado. Alguns não leem para não serem contrariados, outros simplesmente por não acharem nada de errado – Haggis mesmo confessa nunca ter lido nenhuma critica à Cientologia ao longo dos 30 anos de envolvimento e só percebeu o tamanho do problema quando suas duas filhas homossexuais foram mal tratadas – ou são radicais ao ponto de acharem que qualquer crítica, por menor que seja, é um ataque. Embora a inteligência seja nosso maior dom, o bom-senso é nossa maior arma. Apenas com a compreensão é possível encontrar formatos melhores ou corrigir erros.

É isso que Going Clear tenta mostrar. Das ameaças implícitas a John Travolta – que envolvem a criação de um arquivo negro com revelações feitas pelo ator em suas sessões de “audit”, envolvendo relatos pessoais a técnicos que anotam tudo que você fala, como se cada confissão a um padre fosse devidamente anotada e catalogada –, à organização para o divórcio de Tom Cruise e Nicole Kidman e, o mais assustador, a destruição de famílias. Quando um membro sai, todos à sua volta são orientados a se “desconectarem” da pessoa. É algo similar à excomunhão católica, a diferença é que ninguém mais pode falar com você, pois você passa a ser uma “pessoa supressiva” (Nicole Kidman ganhou essa classificação!), alguém que faz mal, que o impede de ficar “limpo”. Ver uma avó e mãe chorando a perda da filha e da neta por ter sido desconectada é de partir o coração. Especialmente vindo de uma organização que se diz disposta a salvar o mundo.

O MestreImpossível não reavaliar o filme O Mestre, de Paul Thomas Anderson. Quando assisti pela primeira vez, vi sem o filtro da religião, sem críticas e procurando compreender a obra pelo que ela apresenta. Depois de ver Going Clear, tanto O Mestre quanto Os Picaretas e tantos outros filmes que tratam sobre sociedades secretas que envolvem controle mental, evolução da pessoa ou da alma, experiências em vidas passadas e envolvam artistas deslumbrados, não há como ignorar a fonte e suas consequências.

A influência é gigantesca e maior parte vem de medos ou notícias negativas ou de Tom Cruise pirando no sofá da Oprah ou dos tabloides aproveitando a onda e relatando como Katie Holmes foi aprovada pela Cientologia para se casar com Cruise. Ou, pior, da namorada que eles arrumaram pra ele, depois de uma longa seleção entre as seguidoras mais bonitas. As histórias de abuso – há muitas delas na internet, com relatos, sites, mas nem tanta coisa no YouTube, pois a seita se mostrou bastante eficaz em vetar material – e enriquecimento declarado deveriam ser o suficiente para manter todo mundo apreensivo com o assunto. Thomas Anderson fez isso muito bem O Mestre, ao mostrar os transtornos e ilusões de Hubbard, em atuação fantástica de Philip Seymour Hoffman, enquanto Joaquin Phoenix é o sujeito iludido, desesperado, sem eira nem beira, que é violento e opressor quando necessário, em nome do seu mestre. É uma relação tão intensa que é como se todos os milhares de jovens recrutados para o trabalho semiescravo da Sea Organization (o time de “elite” que começou a carreira limpando e restaurando os navios de Hubbard e, hoje, é enviado para uma prisão chamada “The Hole” para re-doutrinação caso demonstrem dúvidas ou desejo de sair) estivessem reunidos na alma de Phoenix. Ele foi invadido por thetans!

Se o entretenimento reflete esses medos é por terem vulto e relevância. É impossível viver aqui sem esbarrar nos prédios, nos pôsteres que ainda vendem o livro Dianética ou mesmo em amigos que decidiram encontrar a solução para os problemas financeiros nesse “jeito fantástico de pensar e se aprimorar”. Existe uma Missão da Cientologia aqui do lado de casa, nem dois quarteirões e, nas noites de reunião, sempre existem duas meninas bonitas, sorridentes e empolgadas na entrada do prédio lindo e recém-construído. Quando você passa por ali, elas entregam um folheto e perguntam:

Quer saber como melhorar a sua vida e parar de sofrer?

A resposta mais óbvia pra essa pergunta sempre parece ser “Ganhe na Loteria!” mas estamos falando de uma doutrina criada por um sujeito que resolveu fazer a própria fortuna sem comprar um bilhete. O “segredo” eles não contam, afinal, leva um tempo para ficar limpo e poder entender a grande revelação.

Enquanto isso, o valor estimado de US$ 1.5 bilhões que a Cientologia tem em imóveis, doações, contas e outras fontes de renda, só aumenta. Mas tudo vale a pena, afinal, precisamos fazer o possível para sermos pessoas melhores, expulsar as almas penadas alienígenas de nossos corpos e conviver apenas com gente tão bitolada quanto a gente. Paranoia, espancamentos, exploração, opressão, desligamento da sua família e perseguição são apenas efeitos colaterais normais e aceitáveis.