O cinema on demand | Judão
23 de março de 2016
Filmes

O cinema on demand

Serviços de streaming seguem investindo cada vez mais para conquistar os direitos dos próximos grandes filmes. O quanto isso irá mudar o cinema como um todo?

Vamos fazer um exercício. Você é um ator. Não uma celebridade, alguém que teve apenas alguns papeis principais, sim, mas sem que nenhum botasse seu nome na boca do grande público. Você então resolve contar a história de um herói, Nat Turner, um escravo que liderou uma revolta de negros contra a escravidão na Virginia, EUA, em 1831, pros cinemas. Você vai produzir, escrever o roteiro, dirigir e protagonizar com um orçamento de US$ 10 milhões e tudo em apenas VINTE E SETE DIAS, contra todas as perspectivas.

A primeira exibição pública do seu filme é no Festival de Sundance e ganha não só diversos elogios, como o prêmio de MELHOR filme dramático do festival, tanto pelo público quanto pelo GRANDE JÚRI. É então que o telefone toca e você, no WhatsApp, que tem alguém te oferecendo US$ 20 Milhões pelos direitos de distribuição do filme, propondo estreá-lo simultaneamente em 130 países, MAS diretamente nos LARES de um público em potencial de 75 milhões de pessoas – mais gente que a população INTEIRA da Itália ou do Reino Unido. Você aceitaria?

Nate Parker, o produtor, roteirista, diretor e ator de The Birth of a Nation, a grande estrela de Sundance de 2016, não. A oferta, cheia de zeros, foi feita pelo Netflix, mas ele preferiu assinar com a Fox Searchlight por US$ 17,5 milhões — o que, mesmo que esses 2,5 milhões a menos, foi o maior acordo de Sundance na HISTÓRIA, de acordo com os organizadores.

Essa história é, mais do que tudo, representativa. Mostra uma mudança de rumos na indústria do cinema – e a negativa de Nate Parker demonstra TAMBÉM que dinheiro não é a única coisa a ser levada em conta nessa equação.

Birth of a Nation

Isso tudo começa com uma história já contada algumas vezes aqui no JUDÃO: Netflix mudou a forma como séries de TV são produzidas e lançadas. Claro que a velha TV linear ainda tem seu charme, mas é inegável que a televisão mudou a partir de House of Cards. Desde o ano passado, estão tentando fazer isso com o cinema.

Por isso, Netflix – e a Amazon – estão com os olhos grandes no mercado de filmes. De acordo com o New York Times, em certo momento as duas empresas eram as maiores compradoras de Sundance, vencendo gigantes tradicionais como Fox e Universal na disputa pelos direitos de filmes – algo que influencia na escalada das ofertas e inflaciona o mercado. Só que esse não é a o único detalhe.

A questão é: embora não pareça ou as vezes ninguém se importe, o cinema não é SÓ negócios. Há a experiência, o fato de você estar num lugar neutro, sem ser interrompido pelo mundo exterior, a qualidade da tela, do som... Além de todos os desafios de quem produz, pensando, na maioria das vezes, nessa experiência, nesse lugar neutro, na qualidade (e tamanho) da tela, do som.

Só que, de início, não tem ninguém na sala de cinema, exigindo um esforço HOMÉRICO da distribuidora e do exibidor para enchê-la. Isso começa na hora de escolher qual vai ser a história, o diretor, atores e personagens, chegando aos trailers, spots de TV, pôsteres, publicidade online, parcerias e ingressos de sustentação. Pra você ter uma ideia, a Disney investiu US$ 66 milhões na promoção de Star Wars: O Despertar da Força APENAS na TV dos EUA, de acordo com o Ad Age. Mad Max: Estrada da Fúria custou pra Warner algo na ordem de US$ 32 milhões na TV de lá.

Trata-se de um jogo caro, que não é fácil e que é bem arriscado. Se algo nessa cadeia não der certo, a produção naufraga e toda a grana investida vai pro limbo. Por isso que diversas vezes um estúdio prefere apostar em nomes conhecidos, ou em roteiros mais tradicionais e adaptações. É a esperança de ~imitar sucessos de bilheteria que vieram antes.

É um trabalho tão complicado que existem até casos de produtora comprando milhares de ingressos pra dezenas de salas e elas continuando vazias... É um DEUS NOS ACUDA. ;D

Streaming é diferente. Quando você lança um filme, a sala já está cheia. Não que todo mundo que está nela vai, necessariamente, assistir à mesma coisa. Na verdade, cada um tá lá com a sua telinha, vendo o que quer. E cada filme que entra em exibição divide entre si a responsabilidade de colocar mais gente nessa sala, e manter lá quem já entrou. Não tem bilheteria, não tem audiência oficial, não tem pressão de fazer cada interessado levantar a bunda do sofá e ir para o cinema mais próximo, muito menos botar a mão no bolso para apenas ver uma coisa – que ele não sabe, ainda, se vai ser boa ou ruim.

Não à toa, Will Smith e David Ayer (o diretor de Esquadrão Suicida) estão encaminhados para fazer com que Bright, o novo projeto deles, seja lançado diretamente pelo serviço – provavelmente levando o selo “original”. É por isso que o terror independente Hush, que vem sendo elogiado e foi exibido no SXSW, teve os direitos comprados pelo Netflix. É o mesmo caso de Zinzana, um filme árabe que também rodou vários festivais acumulando elogios.

Só que é por isso, também, que The Birth of a Nation negou tudo isso.

Nate Parker em Sundance

Nate Parker em Sundance

De acordo com o THR, a gigante do streaming propôs colocar o filme em algumas salas de cinema e lançá-lo no mesmo dia no serviço, tal qual fizeram com Beasts of no Nation. Porém, Nate Parker queria mais: um lançamento em larga escala nos cinemas, longe das apenas 31 uma salas que exibiram o longa estrelado por Idris Elba no último ano.

Afinal, cinema é negócios, mas também é entretenimento, também é arte — tudo depende do prisma que você olha, de seus objetivos. Nate Parker gastou sete anos de sua vida nessa produção, provavelmente com um longo processo criativo, com um cuidado em cada detalhe, sonhando exibí-la em grandes telas e com um som fodástico. Uma IMERSÃO total naquela história tão importante. Netflix é legal? É, mas a sua TV 4K de 60 polegadas nunca será um cinema, por mais que você diga o contrário.

Já a Fox Searchlight ofereceu um grande lançamento para o filme. Você pode perguntar: “Ah, mas e o alcance, a necessidade de contar essa história para todo mundo, não só pra quem tá no cinema?”. É aí que entra uma das partes mais interessantes da proposta: a distribuidora se dispôs a promover exibições do longa em colégios e faculdades em todos os EUA. “Parecia que estávamos falando a mesma língua”, disse Parker ao THR.

Não é só isso. Além do fato de que, depois de estrear nos cinemas, nada impede que ele seja exibido também via streaming, há também a questão das premiações. A Academia de Artes Cinematográficas, aquela que cuida do Véio Careca, faz uma importante exigência para o filme ser elegível ao prêmio: ele precisa ser exibido em um CINEMA do condado de Los Angeles com cobrança de ingressos – e, dentro dos EUA, não pode haver qualquer exibição em TV, VOD, internet ou DVD antes disso.

(Se você acha exagerada a exigência para um filme de ficção ser elegível ao Oscar, é porque você não viu os critérios para os documentários de longa-metragem. O regulamento pede coisas ESTAPARFÚDIAS, como um mínimo de exibição por sete dias em Los Angeles E em Manhattan, publicidade em jornais específicos dessas cidades AND uma RESENHA publicada no New York Times ou no Los Angeles Times. Isso tudo em 2016).

Um acordo com a Fox Searchlight garante todos esses requisitos. Com uma boa campanha por parte da distribuidora (que deve estar nos termos do acordo que foi fechado), há uma chance real de aparecer na próxima edição da premiação. Um caso de sucesso não falta: foram eles que distribuíram 12 Anos de Escravidão, escolhido o Melhor Filme pela Academia em 2014.

O grande objetivo!

Pra muitos, o grande objetivo!

Netflix sabe disso. Por isso botaram Beasts of no Nation em exibição no cinema ano passado, com lançamento simultâneo — o que se enquadra nas exigências do Oscar. Porém, a ação foi realmente só pra constar, já que exibidores como Cinemark, AMC e Regal boicotaram a estratégia.

Ainda assim, a empresa não desistiu. O formato será repetido com War Machine, que não, não é um filme solo do herói Máquina de Combate, mas sim uma comédia de guerra estrelada pelo Brad Pitt, Ben Kingsley e um puta elenco que foi comprada por nada menos que US$ 30 milhões.

É fácil entender a lógica da Academia: “arte cinematográfica” é botar um filme no cinema, justamente com a tal experiência que falamos antes. Netflix, Amazon ou qualquer outro serviço de streaming nunca vão ter isso. Por mais que tenham milhões e consigam atrair grandes nomes de Hollywood, no CORE de seu BUSINESS eles ainda são uma empresa de tecnologia, que entrega um ótimo serviço para assistir a filmes, séries e documentários na sua casa, enquanto faz a ponte para comprar o que tiver de melhor disponível em conteúdo.

Não é o tipo de coisa que fará OLHINHOS BRILHAREM de um cara como Steven Spielberg. Ou Nate Parker.

O que um serviço como esses precisa entender é que “streaming” não é um MODELO DE NEGÓCIO, trata-se apenas de uma forma de entregar conteúdo. O grande mote do Netflix é ser um SERVIÇO no qual você pode assistir ao que quiser quando quiser, seja no smartphone, TV, tablet, computador… Só que você pode assistir em qualquer lugar, MENOS no cinema. Quando você pensa assim, soa até estranho, né?

Talvez a saída seja adaptar o formato, trazendo uma modalidade de assinatura do Netflix que, por um valor a mais, torne possível assistir a algumas produções deles (lançamentos, que é o que faz sentido) em cinemas selecionados, quase que como um CINECLUBE. E não precisa ser com as grandes exibidoras, não: da mesma forma que a empresa de Los Gatos gosta de negociar com estúdios independentes, poderiam negociar com redes pequenas e cinemas locais — só resta saber se esse formato funcionaria fora dos EUA.

Talvez isso não resolvesse o problema da academia — afinal, não haveria uma cobrança de ingressos tradicional, rolaria uma polêmica aí — mas diminuiria essa dor de cabeça da experiência. Sem falar que transformaria Netflix verdadeiramente em uma DISTRIBUIDORA, por mais que fosse com um formato diferente.

Isso ou entram no jogo atual, distribuindo filmes nos cinemas, com uma janela antes de jogá-lo serviço, e mudam tudo por dentro — não custa lembrar que o Netflix era, no começo, uma locadora de DVDs. :)

Reed Hastings, o CEO do Netflix, e Ted Sarandos, CCO, em Sundance

Reed Hastings, o CEO do Netflix, e Ted Sarandos, CCO, em Sundance

Agora, também podemos falar que já tá na hora da Academia repensar suas regras. No Grammy, um álbum para ser elegível precisa apenas estar disponível num sistema de streaming, por exemplo — mas o autor tem a escolha de ir lá e lançar em vinil, se assim achar que o BOLACHÃO é a melhor experiência. Nesse contexto, a Academia poderia seguir o mesmo exemplo e tirar a exigência da tela grande e deixar a decisão de onde lançar na mão de cada produtor, cineasta, executivo…

E se os membros da Academia gostarem menos de um filme pela experiência do streaming não ser boa o suficiente pra eles, ou por atrapalhar na história que foi contada, bom... é parte do risco. Não que os DVD Screeners que eles usam pra assistir a apenas uma parte dos filmes elegíveis seja melhor, mas... ;)

A balança das forças em Hollywood está mudando, mas as transformações estão bem longe de acabar. E, pra ver esse filme, você nem vai precisar pagar ingresso. ;)