O Dark Universe precisa de Van Helsing | Judão

E eu tou falando daquele do Hugh Jackman, mesmo :D

Quando começaram os papos sobre a Universal querer estabelecer um universo compartilhado de monstros, nas telonas, a grande questão que ficou pra mim era: qual seria o elemento humano, de conexão com o público, disso tudo? Duas numa: ou personagens de apoio teriam maior destaque, ou os monstros teriam de ser humanizados, adotando uma postura anti-heróica. Pelo visto, um pouco dos dois.

Em A Múmia, Tom Cruise é nosso fio condutor pela realidade mágica do que será o Dark Universe – um personagem original, que é um humano, convenhamos, desinteressante, posicionado para ganhar nossa simpatia contra a força monstruosa da Múmia e emprestá-la a filmes futuros. Paralelamente, Russell Crowe é um Dr. Henry Jekyll (e, claro, Mr. Hyde) descaracterizado, que assume o posto de Nick Fury desse universo e ilustra como instrumentalizar monstros pra serem ~bonzinhos pode tirar boa parte da sua graça.

Tudo isso é parte daquele bode inicial o conceito do Dark Universe, mas o que mais incomoda é, na realidade, saber que a Universal tá sentada em cima da alternativa ideal para essas duas opções: Gabriel Van Helsing, o personagem vivido por Hugh Jackman em 2004, e não Abraham, o estudioso AND caçador de Vampiros criado por Bram Stoker para seu romance Drácula.

Reimaginação do original de Stoker como um arcanjo caído que tornou-se humano e esqueceu sua trajetória divina, Gabriel converge o carisma histórico de seu sobrenome com a roupagem dum personagem de ação, perfeitos para se estruturar um universo em volta sem ter de apelar a monstros do bem ou invenções originais sem graça.

Falando em universos, aliás, foi isso que Van Helsing conseguiu estabelecer, num único filme, 13 anos atrás.

Pensa comigo: que outro filme moderno já conseguiu colocar Mr. Hyde, o monstro de Frankenstein, Drácula, suas noivas and FUCKING LOBISOMENS numa história que divirta, funcione e, mais importante, faça sentido? Não tem. Numa comparação menos específica, olha o que deu com A Liga Extraordinária. D:

LINKANDO o Drácula à criatura de Victor Frankenstein e colocando Van Helsing no encalço de ambos em meio a um tipo de praga social de lobisomens, o filme poderia ser meio bobo em momentos, é claro, mas abriu (e aproveitou) várias oportunidades de ser sensacional, das atuações canastrônicas de Hugh Jackman e Richard Roxburgh (o Drácula) aos efeitos magníficos, passando pela ideia de uma organização secreta anti-monstros da Igreja Católica (muito mais compreensível que qualquer coisa parecida encabeçada pelo Dr. Henry Jekyll) e por sequências como a genial abertura em P&B, na Transilvânia.

Tudo, claro, fruto da paixão saudosista de Stephen Sommers, diretor e roteirista do filme – e cara por trás do igualmente divertidíssimo A Múmia, de 1999.

Onde eu quero chegar é: com Van Helsing, logo sabíamos que um universo existia com pessoas, monstros e sei lá mais o que, sem termos de ouvir alguém explicando e repetindo isso direto para o público, levando toda essa premissa muito mais a sério do que deveria. Mais do que isso, tínhamos um homem, um herói, a quem seguir e curtir – além de qualquer eventual monstro que surgisse por aí pra gente achar legal.

Certamente, o Dark Universe há de criar sua versão para Abraham Van Helsing em algum dado momento – isso é, claro, se os planos forem pra frente mesmo. Até rolar, fico na torcida deles se darem conta das qualidades dum filme bem menos falado e admirado do que deveria, e tentarem incorporar algum elemento dele nisso tudo. Hugh Jackman como Abraham, descendente direto de Gabriel, entrando na treta assim que um novo Drácula pintar na área (já que o filme de 2014 já caiu fora dos planos do estúdio), quem sabe?

Acho que estou viajando. Com orçamento de US$ 160 milhões, Van Helsing não deu AQUELE retorno, somando ~apenas US$ 300 milhões nas bilheterias mundiais – e a gente sabe como estúdio tá cagando pra resgatar qualquer tipo de coisa que não deu grana pra porra. Sobre o filme, aliás, a Universal até cogitou uma sequência, mas nada nunca veio a rolar. Em dado momento, Tom Cruise seria justamente o novo caçador, mas cuén – e eis ele aí como sei lá quem n’A Múmia, né? Tudo bem.

Van Helsing é um filme que merece ser assistido, principalmente se você guarda no seu coração aquele fogo por histórias divertidas, cheias de fantasia e emoção, com aquele gostinho clássico e aquela criatividade que ultrapassa em importância qualquer lógica. É infinitamente melhor que muita coisa que tem saído hoje em dia, que mais parece tentativa apressada de ganhar muitos dinheiros. E estará sempre aí, pra gente assistir e tirar gosto amargo da boca.

Fica a dica. ;)