O easter egg no jogo do Homem-Aranha e o machismo nosso de cada dia | JUDAO.com.br

MAIS UMA VEZ uma mulher foi colocada como vilã de uma situação apenas por ter terminado um namoro com um homem que, é claro, se beneficiou da narrativa do “nerd coitadinho”

O jogo exclusivo para PS4 do Homem-Aranha é o máximo. O MÁXIMO. Jogabilidade intuitiva, história cativante, tem o negócio todo de se balançar pelos prédios que é lindo AND muitos easter eggs fofos como a clássica aparição de Stan Lee em uma cena, o fato de ele reclamar, dizendo que tem apenas “três pelos no peito” e isso ser verdade, mas o maaais comentado nos dias que seguiram o lançamento foi o pedido de casamento feito em um letreiro de cinema que compõe o cenário.

No dia 10 de maio deste ano, Tyler Schultz enviou um tweet à desenvolvedora Insomniac Games e alguns outros nomes responsáveis pelo título e jogou a ideia: “Isso pode ser egoísta, mas estou pronto para pedir minha namorada em casamento e quero fazer um grande gesto. Vocês podem incluir um easter egg dizendo ‘Madison, quer casar comigo?’ em algum lugar do jogo?”. A empresa concordou, dizendo que ele apenas deveria esperar até 7 de setembro, como todos. Fechou? Fechou.

E tudo seria muuuuito fofinho se Tyler e Madison não tivessem TERMINADO o namoro semanas antes do lançamento do jogo… ¯\_(ツ)_/¯

Em um vídeo no YouTube, ele contou que Madison, depois de 5 anos de relacionamento, deu um pé na bunda dele pra ficar com seu irmão. Ele afirma, também, que a ex teria dito que “esse nem era o jeito que ela gostaria de ser pedida em casamento” e que, apesar da tristeza, ficou feliz por ter uma parte do jogo dedicada a um pedido seu que todo mundo pode ver. Depois disso, a diretora de arte da Insomniac, Jacinda Chew, propôs a retirada da mensagem e ele disse que gostaria de substituir por uma homenagem à sua falecida avó.

“Mas e a Madison?”, você deve estar se perguntando. Meu amigo, essa mulher tá enfrentando uma BELA onda do mais fino chorume da internet.

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Na publicação no Facebook da matéria feita pelo Kotaku, por exemplo, vários comentários mostram como essa história ganha tons horríveis. “Deveriam escrever ‘caras antes de vadias’ no letreiro do cinema”, “substituam para ‘Maddie e irmão, vão se foder!’ e ‘Maddie é uma puta’ seria um bom easter egg.” são ALGUMAS das ofensas escritas ali.

DAÍ que o repórter Cameron Kunzelman, do Houston Press, resolveu conversar com ela pra entender o seu lado. Madison Gamble disse que a relação estava desgastada há algum tempo e que aquele gesto era uma desesperada maneira de tentar consertar as coisas. “Eu nunca gostei de video games, mas sentava com ele ali porque o amava. Nossa relação se transformou em algo como ‘mãe e filho’. Eu precisava lembrá-lo sobre suas coisas, lidar com seus erros financeiros, seus acessos de violência e muito mais. Nós nunca fazíamos coisas normais como ir passear, dançar, ir à festas ou olhar as estrelas”. Maddie disse ainda que NUNCA havia traído Tyler e que não estava saindo com seu irmão, como ele havia dito. “Tyler pediu para ele ver se como eu andava depois do término, então nos aproximamos, claro. Eu não deixei Tyler pra ficar com seu irmão, nem nunca o traí”

Pouco tempo depois de ser entrevistada, ela precisou desativar suas redes sociais simplesmente porque não aguentava mais ser chamada de tudo quanto é nome.

São décadas consumindo produtos culturais que nos falam sobre homens e meninos “normais” que se apaixonam por lindas mulheres que, de alguma forma, os desprezam. Deeesde a Maria Joaquina no Carrossel até a Penny no comecinho de The Big Bang Theory. Por isso, estamos acostumadíssimos a aceitar essa narrativa sem contestações e sem a MENOR vontade de ir lá perguntar pra moça o que foi que aconteceu.

O argumento do “nerd coitado” é bem criado, bem produzido e nos faz sentir aquela dózinha do “pobre menininho que só queria amar” e, mais uma vez, temos a mulher como a maior vilã de uma GRANDE narrativa que tem como mocinho injustiçado o FAMOSO cara indefeso. O mesmo que criou o mito da friendzone. O que se utiliza da bandeira do “incompreendido”. Como se a exclusão na adolescência e outros traumas sociais fossem DESCULPA pra achar que uma mulher deve qualquer tipo de atenção afetiva ou sexual a absolutamente QUALQUER HOMEM. Como se uma situação abusiva pudesse, de alguma forma, escusar um comportamento igualmente nocivo por parte da vítima em outro contexto. E já PASSOU da hora de mostrarmos esse tipo não passa de um homem machista com o orgulho ferido como qualquer outro.