O elfo negro Drizzt Do’Urden vai ganhar uma nova trilogia de livros | Judão

O escritor R.A. Salvatore retoma a trajetória de sua criação, um dos personagens mais icônicos da mitologia de Dungeons & Dragons, a partir de Timeless, a ser lançado em breve

Embora a grande graça de Dungeons & Dragons enquanto RPG seja que os jogadores criem seus próprios personagens e desenvolvam suas histórias junto com os amiguinhos à base de muita pizza barata e fria, existem alguns personagens prontos que são absolutamente mitológicos, que todo bom grupo espera encontrar em alguma aventura da vida.

Um deles é o mago Elminster, aquele que é praticamente o Gandalf de D&D. O outro, um hit dos livros inspirados no universo da franquia, tinha tudo para ser um vilão, mas acabou se tornando o seu mais improvável e honrado herói: Drizzt Do’Urden. Aquele mesmo que acaba de ter confirmado o lançamento de um novo livro, Timeless, que vai abrir uma nova trilogia de aventuras. Tudo cortesia de seu criador original, R. A. Salvatore.

“Eu não estava preparado para dizer adeus para Drizzt e sua turma”, afirmou Salvatore, em entrevista ao Nerdist. “Depois de todos estes anos, parecia que ainda faltava contar uma dúzia de novas histórias. Estes personagens se tornaram a minha família”. O autor diz que está satisfeito em trabalhar mais uma vez com a Wizards of the Coast [dona da franquia original de D&D] e também com a Harper Voyager, selo de ficção científica e fantasia da editora Harper Collins que será responsável pela publicação dos livros. “Eu ainda gosto muito de escrever estes personagens e estou bastante interessado em saber onde eles vão me levar a seguir”.

Drizzt surgiu meio no calor do momento: o escritor tinha enviado para sua editora na área de romances da TSR, Mary Kirchoff, um primeiro manuscrito de A Estilha de Cristal (The Crystal Shard), livro original da trilogia Vale do Vento Gélido (Icewind Dale) que se passa na clássica ambientação de Forgotten Realms. A caminho de uma reunião de marketing a respeito da publicação, que seria a primeira da bem-sucedida carreira de Salvatore, Kirchoff ligou pra ele e avisou que um dos personagens que o camarada tinha criado não tinha liberação de ser usado, que precisava ser substituído.

De imediato, ele então disse que o trocaria por um elfo negro. A editora não curtiu muito a ideia, lembrando que a espécie não costumava ser das favoritas dos jogadores... Mas o escritor garantiu que tudo bem, que ele seria apenas um sidekick do bárbaro Wulfgar, protagonista do livro. “E como ele vai se chamar?”, questionou Mary. “Drizzt Do’Urden”, ele replicou. “E você pode soletrar isso?”, perguntou ela do outro lado da linha. “Nem a pau”, retrucou.

Embora não saiba de onde veio a inspiração (“Gary Gygax fez um excelente trabalho criando os elfos negros, acho que isso ficou na minha cabeça”), Salvatore acertou na mosca no que ele descreve como uma mistura do ladrão/espião Daryth de Darkwalker on Moonshae (romance de Forgotten Realms escrito por Donald Niles e publicado em 1987) e do Aragorn de Senhor dos Anéis. “Ele é o clássico herói romântico – incompreendido, preso a um código de ideais mesmo quando as coisas dão errado e sem receber qualquer crédito por suas ações na maior parte do tempo”, explicou ele na versão impressa da revista Dragon, em 1998.

No fim, o personagem se tornou a maior de suas criações, assumindo o papel principal e espalhando-se ao longo de nada menos do que 33 livros desde 1988, formando uma coleção batizada de A Lenda de Drizz – cronologia da qual a nova trilogia fará parte, aliás.

Drizzt é um drow, variação da espécie dos elfos que tem a pele escura e cabelos brancos, seres das trevas geralmente maléficos e que, ao contrário de seus irmãos, vivem nas profundezas. No entanto, o espadachim é um elfo negro atípico, lutando contra o estereótipo clássico de sua raça, preferindo fazer uso da paz e do poder da amizade ao invés de se deixar envolver pelo ódio e pela violência inerentes aos seus iguais.

Tanto é que ele amaldiçoa sua herança e abandona a cidade drow de Menzoberranzan, parte de uma vasta rede subterrânea de cavernas e túneis interconectados que atendem pelo nome de Underdark. Sua história começa a ser contada em Pátria, primeiro livro da Trilogia do Elfo Negro, que é quando descobrimos que ele é o terceiro filho de Matron Malice, a líder da casa Do’Urden. Sua postura rebelde, no entanto, vem de Zaknafein, seu pai, um armeiro que odeia secretamente a sociedade drow e ensina as artes da luta para o filho, além de incentivar seu código moral tão afiado quanto sua espada.

Por se tratar de um elfo negro, ainda que um exilado que virou as costas para a tradição de crueldade que corre em seu sangue, Drizzt é alvo da desconfiança de praticamente todo mundo que cruza seu caminho no mundo exterior, o que é a desculpa perfeita para Salvatore tratar de maneira sutil do tema preconceito.

Sucesso literário do universo de D&D, diversas vezes figurando na tradicional lista de mais vendidos do New York Times, claro que Drizzt Do’Urden se tornaria personagem recorrente também nos livros de RPG da casa. Mas sua presença iria além e logo o elfo negro apareceria em diversos jogos de videogame (incluindo aqueles da franquia Baldur’s Gate) e histórias em quadrinhos (desde 2005, a Devil’s Due Publishing vem publicando as adaptações de seus livros), entre outros. Até bonequinho o sujeito virou.

A história de Timeless começa séculos atrás, na cidade de Menzoberranzan, quando um jovem mestre de armas ganhou uma reputação muito além do que imaginou, quando os grandes nobres o observavam e uma mulher poderosa decidiu tomá-lo como seu, negociando com algumas das maiores casas rivais. Mais eis que este prêmio acabou sendo tomado por outra pessoa...

Sim, estamos falando da mãe e do pai de Drizzt, mas também do mercenário Jarlaxle Baenre, que se tornou um dos melhores amigos de Zaknafein – e também o seu maior traidor. Portanto, o livro é uma espécie de prelúdio, uma visão sobre Underdark sob o ponto de vista de Zaknafein e Jarlaxle, enquanto o herói Drizzt é treinado pelo Grão-Mestre Kane, monge humano do Monastério da Rosa Amarela.

Aqui no Brasil, de materiais estrelados por Drizzt Do’Urden, apenas a trilogia do Vale do Vento Gélido tinha sido oficialmente lançada, pela Devir – até que, na metade do ano passado, a Jambô lançou Pátria, para começar a contar a história do elfo em português seguindo a ordem cronológica e não necessariamente a ordem de lançamento. O segundo volume, Exílio, saiu no final do ano, em novembro.

Timeless chega às lojas gringas no dia 18 de Setembro.