O elo perdido de Star Trek | Judão

Primeiro trailer mostra que Star Trek: Discovery é uma grande introdução para a série clássica, mas que terá também que lidar com alguns problemas de uma cronologia bem fechada

Por mais otimista que fosse Gene Roddenberry quando começou com Star Trek, a série clássica, ele nunca imaginaria que, passados 50 anos, ainda estaríamos aqui, comentando e assistindo ao legado deixado por ele. Por isso, ainda bem no começo, nem todos os detalhes estavam completamente alinhados. As coisas foram simplesmente surgindo.

Quando os fãs se deram conta, existia uma mitologia. Uma Federação dos Planetas Unidos estava criada, reunindo não só todos os povos da Terra em um só governo, na chamada Terra Unida, mas outras três espécies alienígenas: andorianos, vulcanos e tellataritas. E ela mantinha uma Frota Estelar, uma organização que aceita qualquer espécie e busca desbravar o universo, audaciosamente indo onde ninguém jamais esteve.

Naquele momento, tudo isso era suporte para se contar uma história, que durou inicialmente três temporadas, mas que, de alguma forma, conseguiu sobreviver e chegar até nós. No entanto, num momento no qual parecemos tão distantes de conseguir criar a Terra Unida visualizada por Roddenberry, é hora de olhar um pouco mais para as fundações desse universo – ao menos, é o que indica o primeiro trailer de Star Trek: Discovery, a nova série da franquia, que saiu esta semana.

Ou melhor, DOIS primeiros trailers. Um para o mercado americano, onde a série será exibida no CBS All Access. Outro pra Netflix, que exibirá para o resto do mundo

Como você pode ver, são três grandes mensagens aí no trailer: que teremos a exploração do desconhecido, que a diversidade continuará presente da Frota, e que a falta de entendimento do próximo continuará como a grande fonte de conflitos – seja entre um Vulcano e uma humana, seja entre membros da Federação e os Klingons.

Os vídeos são centrados em duas personagens. Uma delas, a Primeira Oficial Michael Burnham, interpretada por Sonequa Martin-Green, é uma terráquea com alguma ascendência vulcano, já que ela não tem orelhas pontudas, que, pelo que já vimos, ajudará a explorar as diferenças entre raças tão diferentes, entre a emoção e a razão. Além disso, essa mensagem enigmática que ela recebe vem do embaixador Sarek, ninguém menos que o pai do Spock.

A outra é Phillipa Georgiu, interpretada pela Michelle Yeoh, que é a Capitã da nave... USS Shenzhou, a NCC-1227. Sim, foi dito há algum tempo que a USS Discovery seria a grande estrela da série que leva seu nome, mas não é essa a nave estelar que aparece no trailer – e, se aparece, foi bem de relance. A Shenzhou é claramente uma nave mais antiga em relação à Série Clássica, lembrando um pouco a classe NX da série Enterprise, que conta o surgimento da Federação e se passa no século XXII.

E isso, bom, me faz levantar umas questões sobre Discovery.

Se lá atrás, nos anos 1960, Roddenberry estava criando do zero e o contexto era maleável, hoje não é mais assim. Star Trek tem uma cronologia intrincada, com algumas contradições mas também com muita coisa conectada.

Veja: falaram diversas vezes que Discovery se passa dez anos antes da série clássica. Assim sendo, com TOS começando em 2265, a nova série se passaria em 2255. Mas aí não encaixa com o que vimos no trailer. De acordo com o canon, a USS Enterprise que todo mundo conhece, a NCC-1701, começou a operar no começo dos anos 2250. O episódio The Cage tem seus flashbacks acontecendo em 2254, mostrando não só Christopher Pike como Capitão da Enterprise como também Spock como Oficial de Ciências. Os dois ficaram juntos nessa nave estelar por ONZE anos, até 2265, quando James Tiberius Kirk assumiu o comando e começou com a famosa missão de cinco anos.

Ou seja, se Discovery se passa em 2255, a Enterprise – uma nave muito mais avançada com que a Shenzhou ou mesmo do que vimos da Discovery no primeiro teaser – já está por aí, pelo espaço, assim como o Spock. Nem os uniformes batem com os da Frota no episódio The Cage.

Vendo o trailer com atenção, vemos que é dito claramente que são “dez anos antes de Kirk”, “dez anos antes de Spock” e “dez anos antes da Enterprise”. Se levarmos em consideração daquilo que acontece PRIMEIRO (que é a construção da nave), Discovery se passa no começo dos anos 2240.

Isso faz mais sentido. Até porque se, se você comparar os CALL SIGNS, NCC-1031 (Discovery), NCC-1227 (Shenzhou) e NCC-1701 (Enterprise) possuem uma grande separação entre eles.

Ainda assim, é estranho ver tecnologias que lembram aquelas da série Enterprise, que termina em 2155. É como se você embarcasse hoje num avião com tecnologia que lembra aquela das aeronaves usadas pelo Barão Vermelho, ainda durante a Primeira Guerra Mundial, como asas duplas e coisas assim.

Outro probleminha cronológico fica por conta dos Klingons. Lá na série clássica, os aliens tinham um visual mais ~simples, que era permitido pela tecnologia e maquiagem da época. Quando a franquia foi para os cinemas, no final dos anos 1970, os clássicos vilões retornaram com um visual mais intimidador. Por muitos anos, essa mudança passou sem explicação – até que, novamente na série Enterprise, explicaram que rolou um vírus no Império Klingon, forjado a partir de manipulações genéticas feitas de forma indiscriminada com DNA humano para criar “superseres”. Não demorou a descobrirem uma cura para a doença, mas as mudanças físicas – deixando os aliens mais parecidos com os terráqueos – continuou por algumas gerações, sendo convenientemente superadas no período entre TOS e Jornada nas Estrelas – O Filme.

Só que Discovery se passa EXATAMENTE nesse período dos Klingons sem RUGAS na testa. Então como estamos com os vilões com esse visual todo dos filmes aí no trailer? Sabendo que a produção sabe dessa questão cronológica tanto quanto qualquer fã, talvez estes caras sejam uma facção independente do império, que vive isolada e não passou por toda a treta vista em Enterprise.

Seja como for, o relacionamento entre a Federação e o Império Klingon será uns dos desafios de Star Trek: Discovery. Uma das coisas escritas no canon da franquia é que, seja em 2245 ou 2255, uma verdadeira Guerra Fria acontecia entre as duas organizações. Na época da série clássica, era uma metáfora da Guerra Fria entre EUA e União Soviética. Em Discovery, pode representar muitas das questões do mundo atual.

São muitas perguntas, com respostas que farão qualquer Trekker sorrir – ou, pra quem apenas quer curtir uma boa série, que podem gerar bons enredos. Vamos ver.

Star Trek: Discovery tem estreia prevista para ainda esse ano.