O filho do rei | Judão
8 de setembro de 2017
Joe Hill

O filho do rei

Além de suas próprias obras, Stephen King deixou mais um legado para o mundo da literatura — e ele tem nome, sobrenome e uma bibliografia de responsa

Imagine uma versão mais jovem de Stephen King; tão criativamente assustadora quanto, mas dotada de um humor ácido único e bem menos PROFICIENTE, além de também bem menos prolixa que o original. Imaginou? Pois nem precisava. Essa versão já existe e atende pelo nome de Joe Hill – filho do meio do lendário escritor do Maine.

Nascido Joseph Hillstrom King, em 4 de Junho de 1972, na cidade de Hermon, Joe acabaria involuntariamente mergulhado numa família de escritores. Além de seu pai, Stephen, e sua mãe, Tabitha, seu irmão mais novo, Owen, logo enveredaria pelo mesmo caminho. Quais eram as chances dele não fazer o mesmo? :D

Já em 1997 ele publicou seu primeiro trabalho, o conto The Lady Rests, sob o nome que viria a consagrá-lo em alguns anos, Joe Hill – não só uma abreviação do seu nome AND seu nome do meio, mas uma homenagem a um ativista trabalhista que fez história no início do século XX. “Eu decidi aos 18 anos que não iria escrever como Joseph King. Eu poderia ser publicado só porque tinha um pai famoso. Não queria ter sucesso dessa forma, porque eu não acredito que seria um sucesso verdadeiro”, explicou ao Buzzfeed, em 2015.

A decisão teve um preço: até a publicação de seu primeiro conto, Joe amargou inúmeras rejeições de editoras nos EUA, Inglaterra e Canadá. À época, ele escrevia sobre divórcios, frustrações de trabalho, paternidade e a vida no subúrbio, tentando ao máximo afastar-se da linha de trabalho do seu pai, mas ao mesmo tempo mergulhado em temas que, aos 20 e poucos anos de idade, ele estava bem longe de dominar.

E então veio o horror. :D

Se dando conta que Joe Hill poderia muito bem escrever obras do mesmo gênero que consagrou Stephen King, o então garoto começou a aplicar sua criatividade (e sua bagagem de ávido leitor da revista Fangoria) em histórias de monstros, recheadas de menções ao paranormal e às mais bem descritas cenas de puro medo. Com diversos contos finalmente publicados até meados de 2005, veio a oportunidade de, enfim, colocar na rua seu primeiro livro: a elogiadíssima coleção de contos Fantasmas do Século XX.

Lançado no Reino Unido e nos EUA, entre 2005 e 2007, e munido de 16 histórias presentes em ambas as versões, além de outras quatro regionais (uma exclusiva dos EUA, outras três da Terra da Rainha), Fantasmas do Século XX marcou o ponto de virada da carreira de Hill. Premiado com o Bram Stoker Award, da Associação de Autores de Horror do EUA, como Melhor Coleção de Ficção — além do British Fantasy Award em duas categorias — o livro garantiu ao autor um destaque até então inédito em convenções e eventos. Bom para ele, mas péssimo para o seu ~disfarce, já que, em 2006, a Variety deu o furo: Hill era, na realidade, um King.

A descoberta aconteceu, veja só, graças ao primeiro romance do cara. Intitulado A Estrada da Noite (em inglês, Heart-Shaped Box — é, pensou na música do Nirvana também? :D), ele nem havia sido lançado oficialmente quando a Warner Bros., representada pelo executivo Kevin McCormick e o produtor Akiva Goldsman, garantiu seus direitos de adaptação às telonas. Nem os engravatados sabiam do parentesco de Hill, mas devem ter comemorado quando a Variety noticiou a compra AND a herança genética do autor. Quando enfim chegou às prateleiras do mundo, o livro rapidamente provou-se um sucesso, esgotando suas primeiras tiragens em pouquíssimos dias.

Sangrento e sombrio, porém dinâmico e atual, A Estrada da Noite conta a história de um roqueiro veterano que acumula diversas TRAQUITANAS como um hobbie doentio. Um dia, lhe é oferecido um casaco supostamente assombrado, que apetece PRA CACETE o cara. Ele compra, mas daí pra frente só rola merda e, bom, uma boa sorte de descobertas macabras. Embalado em boas críticas do The New York Times (publicação na qual chegou a figurar em oitavo entre os Best Sellers da época) e da revista Time, o livro garantiu a Hill, mais uma vez, o Bram Stoker Award; agora, por Melhor Primeiro Romance. A porta para um mundo de sucesso estava de vez aberta. Ou não.

Boas críticas, livro best seller e Melhor Primeiro Romance no Bram Stoker Award: parecia tudo perfeito. Parecia.

Depois de A Estrada da Noite, Hill mergulhou em um período sombrio, tanto em sua carreira quanto em sua vida pessoal. Incapaz de finalizar um novo livro (ele começou e abandonou três ao longo de dois anos), o cara teve de desenvolver um método para lá de bizarro para conseguir, enfim, parir um novo romance. Alugou uma casa isolada de sua família, para a qual viajava diariamente em sua motocicleta. Lá, tinha apenas uma mesa, cadeira, seu computador e um exemplar de The Big Bounce, um romance policial escrito por Elmore Leonard em 1960.

“Eu começava meu dia copiando duas páginas de The Big Bounce. Eu copiava frase atrás de frase, tentando pegar o ritmo de volta. Qual é o som da boa escrita? Como soa um bom diálogo, como se move uma história? Eu fazia duas páginas disso e as últimas duas frases eram minhas, de fato”, relatou Hill, ainda em 2015. “Eu estava escrevendo The Big Bounce, mas escrevendo a minha versão de The Big Bounce. Então, eu trocava de documentos e começava a escrever O Pacto“.

O Pacto viria a nascer, sim, e virar até um filme com o Harry Potter (aquele mesmo no qual você tá pensando – e do qual a gente volta a falar logo mais), mas só depois de umas 40 ou 50 páginas do que Hill chamaria de The Bigger Bounce terem sido escritas AND abandonadas. Bom, se funcionou, não vamos questionar. :D

Lançado em 2010, O Pacto solidificou a reputação de Hill como um dos grandes autores de sua geração, com um misto de fantasia, romance policial, ficção gótica e puro horror, além de um senso de humor sombrio delicioso. Além disso, mergulhou o cara em uma revisita a obras anteriores, como um livro nunca lançado, chamado The Fear Tree, e o conto The Surrealist’s Glass, que serviram de inspiração para diversas situações insólitas pelas quais o protagonista de O Pacto, Ig, passa. Um trampo extremamente bem executado, mas que não costuma inspirar muita alegria no coração do cara, não.

Isso porque, enquanto divulgava o livro pelo mundo, Hill passava por um divórcio e lutava contra uma crescente e preocupante paranoia. “Fico muito feliz que seja um livro divertido. Fico muito feliz que as pessoas gostem. Mas eu não gosto de olhar para ele, porque eu não gosto de quem eu era quando o escrevi”, afirma Hill. “Eu estava muito paranoico e muito depressivo e extremamente infeliz e cheio de ideias loucas. Eu ligava para o meu pai falando cada uma delas e ele pacientemente ouvia. Era a única pessoa que me ouvia. E ele falava e explicava porque minha mais recente ideia sobre ser perseguido era irracional”.


Depois de ser aconselhado pelo próprio Stephen King AND seus amigos a procurar ajuda profissional – e relutar muito, acreditando que isso poderia minar sua criatividade – Hill finalmente passou a consultar um psiquiatra, apresentando melhoras que o levaram a, finalmente, retomar seu trabalho como escritor. “O que eu descobri é que buscar ajuda não me fez menos criativo. O que me fazia menos criativo era ser uma pessoa depressiva e louca”, ele diz.

Com dicas preciosas de colegas como Neil Gaiman, Hill aproveitou o período de mudanças para mergulhar em novos métodos de trabalho, passando a escrever mais à mão e abandonando ferramentas digitais aos poucos. Embalado nesse novo horizonte, trouxe ao mundo seu terceiro trabalho, NOS4A2 (lido e lançado no Brasil como Nosferatu), em 2013.

Até então o maior trabalho de Hill, com 720 páginas, NOS4A2 conta a história de uma mulher que luta para salvar seu filho das garras de um serial killer sobrenatural, determinado a matá-lo. É uma narrativa tensa, porém vívida e repleta de ação que, como o título pode sugerir, moderniza o mito VAMPÍRICO. Além disso, como um bom King que é, Hill a usa para criar conexões e easter eggs com outros trabalhos, como os livros O Pacto e A Estrada da Noite, mas também com seu trabalho nos quadrinhos, na elogiadíssima série Locke & Key, assinada com o ilustrador Gabriel Rodríguez e publicada pela IDW Publishing.

Em 2016, Hill lançou seu quarto livro, Mestre das Chamas, uma ficção científica pós-apocalíptica que navega entre o existencialismo e o terror, na qual um esporo infecta pessoas, causando combustão espontânea. Confesso que não sei muito sobre o livro, mas lá no sempre excelente Birth.Movies.Death., a galera chegou a compará-lo com o brilhante A Dança da Morte, só para manter a parada na família King. Use a informação como preferir. :D

Com só 45 anos, Joe Hill tem tudo para manter o legado de Stephen King brilhantemente representado por uns bons 40 anos ainda, mesmo que produza livros a 1/16 da velocidade de seu incansável pai. Não deve ser ele quem vai tirar a coroa de adaptações Hollywoodianas do Rei, mas certamente podemos apostar num futuro de alegrias para os fãs de horror, seja nos livros, nas telonas ou nas telinhas.

Falando nisso, aliás, depois de O Pacto chegar como uma competente primeira adaptação aos cinemas, em 2014, aqui sob o título de Amaldiçoado (sério, se você não viu, acho que vale assistir), Locke & Key deve virar série do Hulu muito em breve – e sob a batuta de Andy Muschietti, o mesmo por trás do excelente It: A Coisa.

O negócio corre na família, mesmo, hein? :D