O fim de uma era: Abril vai deixar de publicar HQs da Disney no Brasil | JUDAO.com.br

Enquanto a boataria dá conta de que a Panini assumiria a bronca, há quem diga que o fim de uma tradição que durava 68 anos é apenas o reflexo de uma crise que assola a casa dos Civita há alguns anos

E o que eram apenas boatos, negados sem parar pelos profissionais da redação até sexta-feira (8), enfim se revelaram uma realidade: a Editora Abril vai deixar oficialmente de publicar os quadrinhos da Disney no Brasil a partir deste mês. A informação foi confirmada em e-mail enviado pelo diretor de assinaturas da empresa, Ricardo Perez, aos assinantes destas publicações.

“Como você está acostumado, sempre agimos com transparência em relação à sua assinatura de revistas e, desta vez, não é diferente”, diz ele. “Após revisão estratégica do Grupo Abril, a partir de junho de 2018 os quadrinhos Disney não serão mais publicados por nós. Esta notícia começou a circular em alguns veículos de comunicação na última semana e, em respeito ao relacionamento que temos com você, optamos por formalizá-la. Nós também estamos chateados com isso e tomando todas as providências para você não sofrer nenhum tipo de prejuízo”.

Encerrando a comunicação, a Abril ainda diz que os assinantes receberão uma carta com todos os detalhes e orientações — e que espera continuar contando com a importante presença desta galera toda entre os assinantes Abril.

Originalmente, a informação começou a circular na quinta, dia 7, graças aos caras do Planeta Gibi. Estamos falando do site que, há pelo menos 7 anos, era parceiro da Abril nos gibis da Disney, principalmente nos especiais, não apenas fornecendo material de acervo para a editora usar como guia mas também auxiliando na produção de artigos e curiosidades que serviam de suporte às publicações. Portanto, diferente do que parte do mercado teimou em fazer, não tinha como duvidar muito das fontes internas dos caras.

SE o Planeta Gibi errou em algo, foi em cravar que os seis títulos de linha (Pato Donald, Zé Carioca, Mickey, Tio Patinhas, Almanaque Disney e Disney Especial) referentes ao mês de julho seriam os últimos — porque a carta da Abril dá a entender que este mês é o canto de cisne da turma de Patópolis.

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Antes da mensagem chegar aos assinantes, os profissionais da redação infanto-juvenil da Abril não apenas não confirmavam a informação como também deixavam claro que não comentavam nada, reforçando o argumento de que estariam “em tratativas com seus parceiros comerciais”. O mesmo argumento vinha sendo usado desde Maio quando, depois de inexplicáveis atrasos dos números mais recentes, a Abril anunciou não apenas a suspensão da Biblioteca Don Rosa e da Coleção Carl Barks (respectivamente em sua 5a e 10a edições), mas também de todas as coleções especiais como Os Anos de Ouro de Mickey, Lendas Disney e O Melhor da Disney.

E, sim, também de novas assinaturas de todas as revistas mensais. Tudo sem qualquer previsão de retorno. Foi neste momento, obviamente, que se acendeu um sinal de alerta para os colecionadores.

Existe toda uma falação no mercado sobre quem poderia assumir estas publicações a partir de agora — e obviamente que todas as especulações recaem sobre as costas da Panini, que sabiamente evita comentar alguma coisa. O nome da editora é meio óbvio: estamos falando do grande nome dos gibis no Brasil atualmente, responsável por tudo que é Marvel, DC e também pela Turma da Mônica, que só fez expandir desde que foi parar nas mãos do capítulo brasileiro da poderosa companhia italiana. Além disso, o fato de que é a própria Panini que publica Mickey e seus parças no mercado europeu só ajuda a colocar ainda mais lenha nesta fogueira.

Vale lembrar ainda que, em 2016, a Panini colocou no mercado nacional o livro ilustrado das versões Gogos dos personagens Disney, uma espécie de “rasteira” numa Editora Abril que fazia questão de centralizar as versões álbum + figurinhas das criações da tropa do tio Walt, de Duck Tales aos Tsum Tsum e passando por tudo que é Pixar, para evitar que os italianos, especialistas neste tipo de colecionável, ganhassem espaço aqui também.

A notícia não deixa de ser triste, todavia, já que o trabalho que a Abril fazia com a Disney era primoroso, atendendo de um lado aos colecionadores mais exigentes, com edições de luxo e um trabalho minucioso de pesquisa, mas sem deixar de lado as revistinhas populares pra um público de entrada, custando lá seus R$ 4,90 ao mês.

E, lembremos, a primeiríssima revista publicada pela Editora Abril como um todo, como gigante do mercado editorial nacional, lá em julho de 1950, foi justamente a do Pato Donald, cuja capa inaugural foi esta aí ao lado com o Zé Carioca. Tamos falando de um trabalho que durou ininterruptos 68 anos, de uma revista que está no número 2481. Pensa nisso.

Também foi com o Pato Donald da Abril, só que aí no número 22 lá de 1952, que surgiria o clássico “formatinho”, geralmente 13 x 21 cm, inspirado na revista italiana Topolino, do Mickey. Menor e mais econômico do que o chamado formato americano (20 x 26 cm), o formatinho acabou se tornando padrão no nosso mercado durante muuuuitos anos. Toda uma geração de leitores (este que vos escreve incluído) só foi conhecer as versões brasileiras de seus gibis Marvel e DC no final da década de 90, com as tais revistas Premium e, mais tarde, com a migração para o domínio paninesco.

Cravar que a razão dos cancelamentos se deve a este terremoto que atinge o mercado editorial nos últimos anos, desde que as coisas começaram a ficar muito mais digitais e o comportamento do consumidor claramente mudou é, de fato, muito fácil. A gente já falou sobre isso algumas vezes aqui no JUDAO.com.br, seja no mundinho dos gibis, da música ou do cinema.

Isso deve ter influência? Provavelmente sim, ainda mais em se tratando de um gigante editorial que, como acontece com quase toda empresa tradicionalíssima, tem dificuldades em se adaptar aos novos tempos. Mas no caso ESPECÍFICO da Abril, o buraco é ainda mais embaixo. Porque estamos falando de uma empresa que, em 2017, registrou prejuízo consolidado de R$ 331,6 milhões, de acordo com o balanço divulgado em abril de 2018. Estamos falando de um valor 140% maior do que os mais de R$ 130 milhões apurados lá em 2016.

Já não é de hoje que a Abril passa por dificuldades das mais diversas e opta por um enxugamento de suas operações. Basta lembrar, por exemplo, do encerramento da Playboy brasileira, sobre o qual comentamos aqui , abrindo mão na mesma época também da Men’s Health e da Women’s Health. A Capricho, num movimento acertadíssimo, deixou de ter versão impressa e se focou só no site. E há alguns anos, a Abril transferiu o comando de parte de seus títulos para a Editora Caras, incluindo Recreio, Manequim, Vida Simples, Aventuras na História, Tititi e a Contigo.

Frequentes têm sido também os cortes na equipe, fazendo com que uma mudança anunciada nos bastidores há mais de 1 ano enfim se concretizasse: depois da desocupação de muitos andares, a Editora Abril está de mudança do histórico e gigantesco edifício em Pinheiros para uma localização bem mais modesta, o America Business Park, lá no Morumbi.

É toda esta movimentação, isso sim, que faz com que as fontes ouvidas pela reportagem do JUDAO.com.br fiquem receosas quanto ao futuro do departamento de publicações infanto-juvenis da editora, que segundo alguns pode acabar sendo total e completamente extinto.

E, mais do que um Pato Donald ou Mickey Mouse, que podem tranquilamente conseguir uma nova casa por aqui em breve, a treta é a quantidade de bons jornalistas e profissionais lendários do mundo das HQs que, no fim do mês, podem acabar desempregados em um mercado cada vez mais complicado...