O fim de uma era: Margaret Weis está se aposentando dos RPGs | Judão

Criadora do clássico Dragonlance licencia jogos de sua empresa para a recém-inaugurada Magic Vacuum e vai se dedicar aos livros e projetos cinematográficos

Se você é fã de cinema, esta notícia deveria ser encarada como alguma coisa na linha de “Martin Scorsese revela que não vai mais dirigir filmes”. Já se a sua parada são gibis, o equivalente poderia ser “Neil Gaiman não vai mais escrever quadrinhos”. O ponto é que a escritora norte-americana Margaret Weis, responsável pela lendária ambientação de Dragonlance, anunciou oficialmente a aposentadoria do mundo dos RPGs.

A notícia veio como “efeito colateral” da divulgação a respeito da parceria entre sua empresa, a MWP (Margaret Weis Productions), e a recém-inaugurada Magic Vacuum Design Studio. A nova companhia, fundada justamente pelo designer de jogos Cam Banks, ex-funcionário que já trabalhou em uma série de projetos com a própria MWP e ao lado de Margaret em pessoa, vai ficar responsável pelo lançamento dos jogos que usam os sistemas proprietários Cortex e Cortex Plus.

Desde 2005, a MWP vem lançando RPGs não apenas inspirados no universo de Dragonlance, mas também em filmes/séries de TV como Serenity/Firefly, Supernatural, Battlestar Galactica, Smallville e Leverage. Cada um destes títulos terá que ser, obviamente, negociado com os respectivos licenciadores; já se sabe, por exemplo, que Leverage e Serenity/Firefly não estão diretamente incluídos no acordo com a Magic Vacuum e devem sair de linha.

mw_01

Além disso, o estúdio de Cam Banks ficará responsável pelo desenvolvimento de um novo livro de regras para Cortex, a ser lançado via financiamento coletivo em 2017. “Eu não poderia estar mais orgulhosa em confiar o futuro do Cortex ao Cam”, afirmou Margaret, em comunicado oficial. “Tenho completa confiança de que nossas expectativas não serão apenas atingidas, mas sim ultrapassadas”. Cam completa o anúncio ao lembrar que passou a maior parte de seu período de formação como designer de jogos trabalhando para a Margaret. “Ninguém conhece o Cortex Plus como eu, por exemplo. Sei que posso ajudar a entregar os mundos, regras e histórias que os fãs estão esperando”.

Agora, Margaret Weis vai se dedicar ao cinema e à literatura.

Desta forma, a MWP e a própria Margaret vão se focar plenamente em seus projetos tanto para o mundo da literatura quanto no cinema. Quando o assunto é “livro”, ela promete para março de 2017 a primeira obra de uma nova série ambientada no mundo de Dragon Brigade, que vendo sendo escrito desde 2011 em parceria com Robert Krammes. O livro Spymaster promete misturar intrigas políticas e pirataria em um universo de aventura no qual existe um ódio ancestral entre os impérios Rosian e Freyan – e, no meio de ambos, alguém ligado a um dragão que não apenas saqueia as embarcações dos dois, mas ainda organiza uma espécie de império do crime no mundo de Aeronne.

A autora ainda está diretamente envolvida com a adaptação para os cinemas de Star of the Guardians, série de sete livros que ela começou a publicar lá em 1990. Descrita como uma mistura de Battlestar Galactica e Game of Thrones, a trilogia original mostra a luta do jovem Dion Starfire para chegar ao trono, após de descobrir a sua verdadeira linhagem. Depois, seriam lançados ainda um livro a respeito do casal de militares Sagan e Maigrey (Ghost Legion) e outra trilogia, focada no time de mercenários Mag Force 7. Os direitos são da australiana Opal Films International, fundada em 2015 e especializada em co-produções com a China, em parceria com a Filmscope Entertainment. Até o momento, o roteiro já foi finalizado e está sendo usado como ferramenta de vendas para negociar com investidores – junto, é claro, com este trailer-conceito.

Hoje com 68 anos, Margaret Edith Weis descobriu sua vocação ainda na faculdade de literatura e escrita criativa, na Universidade do Missouri, quando leu as primeiras cópias da obra de Tolkien (quem mais?), em 1966. Ao longo dos anos 70 e parte dos anos 80, ela escreveu uma série de livros infantis, mas a grande virada em sua carreira aconteceria apenas em 1983, quando tentou uma vaga como editora de jogos na TSR (Tactical Studies Rules Inc.), a empresa que lançou o clássico Dungeons & Dragons e, anos mais tarde, seria comprada pela Wizards of the Coast.

O acordo acabou não acontecendo mas a empresa gostou tanto de Margaret que a contratou como editora, só que da área de literatura. Uma de suas primeiras missões seria coordenar, ao lado do colega que depois se tornaria colaborador para toda uma vida, Tracy Hickman, o lançamento do chamado Project Overlord. O tal projeto deveria incluir um livro e três módulos derivados para AD&D (Advanced Dungeons & Dragons). Eles planejaram tudo, contrataram um escritor mas, na hora H, o sujeito deu pra trás. Aí, como a dupla já estava tão imersa na parada, acabaram eles mesmos escrevendo a bagaça, com base em um conceito criado por Tracy e sua esposa Laura. O resultado foi justamente a primeira trilogia de Dragonlance, as chamadas Crônicas de Dragonlance (Dragões do Crepúsculo do Outono, Dragões da Noite de Inverno e Dragões do Alvorecer da Primavera).

Um dos mais conhecidos universos do mundo do RPG, Dragonlance se passa em Krynn, uma terra que sofreu uma espécie de terrível apocalipse que quase a destruiu por completo, fazendo com que fosse considerada “abandonada pelos deuses”. É neste clima que surgem os chamados Dragonianos, seres que são uma mistura de humano e dragão, comandados pelos Senhores Dracônicos da Rainha das Trevas. E é justamente aí que se reencontra um grupo de aventureiros que vai ajudar numa rebelião contra as forças do mal responsáveis pela guerra que espalha o terror entre humanos, elfos, anões, minotauros e demais raças de fantasia que você deve conhecer bem.

mw_05É claro que a história ainda tem a participação das tais Dragonlances do título, armas ancestrais forjadas para (está preparado?) matar dragões.

No total, foram publicados 21 livros de ficção de Dragonlance (que venderam cerca de 25 milhões de cópias em todo o mundo), além das mais de 50 publicações com aventuras, expansões e suplementos para jogar em plena Krynn.

Em 2002, a Wizards of the Coast liberou os direitos para que a Sovereign Press, empresa de Margaret com o marido Don Perrin, publicasse livros de RPG de Dragonlance usando a licença aberta d20 – mas, no entanto, a linha de livros ainda pertenceria à Wizards. Em 2004, quando o casal se separou, ela fundou a Margaret Weis Productions, que usou a base do sistema Sovereign Stone para criar o seu Cortex. Dois anos depois, a licença para publicar os jogos de Dragonlance cairia em suas mãos, como era de direito.

Mãe de dois filhos – um deles Lizz Weis, ao lado de quem escreveu os romances sobrenaturais Warrior Angel e Fallen Angel – e orgulhosa sobrevivente de um câncer de mama, atualmente Margaret vive em um celeiro convertido em casa no sul do Wisconsin, ao lado de três cachorros. Uma coisa que ela garante que NÃO faz quando não está trabalhando? Ler livros de fantasia. ;)