O fim dos nudes na Playboy | Judão

Deu no New York Times: depois do site, Playboy vai tirar as mulheres peladas da revista — lá nos EUA, pelo menos.

Ser Playmate, lá nos EUA, sempre foi tipo uma profissão. Começou há 62 anos, quando Hugh Hefner criou a Playboy e teve ninguém menos que Marilyn Monroe como capa da primeira edição, que nem data teve, caso não rolasse uma segunda. Mas ela foi a primeira (e única) “Sweetheart”. O termo Playmate só começou a ser usado na segunda edição, com Margie Harrison se tornando a primeira “Playmate of the Month”.

Todos os anos, milhares de mulheres enviam suas fotos pra revista, que também realiza seleções em diversas cidades dos EUA. As escolhidas como Playmate do Mês aparecem nas páginas centrais da revista AND no pôster, além de ter todas as suas informações — medidas, o que gosta, não gosta, essa coisas — divulgadas. Elas ganham US$ 25.000 por isso. No fim de cada ano, uma das doze Playmates é nomeada Playmate do Ano, ganhando mais US$100.000, um carro e/ou uma moto. TAL QUAL uma Miss, ela vive com esse título durante todo o outro ano — e aparece em um novo ensaio lá pro meio do ano.

Por exemplo, a Playmate do Ano de 2015 é Dani Mathers, que foi a do mês de Maio de 2014. Ela ganhou um ano de lease de um MINI Cooper S 2015 conversível por isso. :D

Nem sempre a Playmate do mês aparece na capa da revista, porém. Até porque a ideia lá fora não é essa. Dani só teve uma capa pra chamar de sua quando foi eleita da Playmate do ano. No mês em que saiu pela primeira vez, nem citada foi. A edição, especial de Viagem, trazia uma coelhinha no bico de um avião e os destaques: uma reportagem sobre CRIMES CIBERNÉTICOS na Rússia, a mais difícil corrida de cavalos do Mundo, um conto de ficção e as clássicas entrevistas e 20P que, em Maio de 2014, era com Kate Mara.

Celebridade na capa, no recheio e sem roupa é uma combinação bastante rara nos EUA. Colocando a “mulher pelada” como parte de todo um conteúdo e, bom, por saberem brincar de cultura pop como americanos que são, eles CRIAM as celebridades, como Pamela Anderson, Anna Nicole Smith; mas, colocam Olivia Munn, Jessica Alba e Anna Faris na capa sem mostrar ~nada no recheio

Dani Mathers

Dani Mathers

Lembro de quando comprei minha primeira Playboy, tremendo de nervoso de o cara da banca não querer vender — o que jamais acontecia, uma vez que se tratava de uma espécie de CONTRATO dos caras: ele já tinha estado no meu lugar, afinal. Tirava uma gaveta do meu criado mudo, guardava a revista lá, pra que nem minha mãe, nem meu pai, vissem. Pra ~ver, só sozinho em casa. Ou nas madrugadas de férias, com uma lanterna.

Hoje qualquer um tem acesso a qualquer um pelado. O meu eu adolescente de hoje em dia pode estar vendo pornografia enquanto almoça com a família, na tela do celular, pokerface. O que eu penso ser mais bizarro nessa história é que ele pode estar vendo um outro eu adolescente pelado, o que na minha época de colégio era quase inconcebível.

As meninas que querem posar peladas não precisam mais da Playboy. Já não existe mais tanto glamour assim. E tá cada vez mais complicado uma Playmate ganhar qualquer tipo de fama a partir do fato de ser uma Playmate, seja do mês, seja do ano, seja do século. Não há mais interesse, não há mais relevância — e ganhar “um ano de lease” de um carro chega a ser mancada. :D

“Você está agora a um click de distância de qualquer ato sexual de graça”

Nos EUA, a Playboy percebeu / resolveu que precisava se reinventar, se quisesse manter suas operações. As restrições de conteúdo adulto da AppStore e redes sociais já praticamente forçaram a uma mudança de foco. Aí, em Agosto de 2014, a nudez foi abolida do seu site oficial, ficando relegada a um site 100% dedicado a ela, o PlayboyPlus, que agrega os ensaios de todas as Playboys ao redor do mundo e, claro, é fechado a assinantes. “Aquela batalha foi vencida. Você está agora a um clique de distância de qualquer ato sexual de graça” afirmou Scott Flanders, CEO da empresa.

Isso fez com que a média de idade dos usuários caísse de 47 anos para pouco mais de 30 e que os acessos quadruplicassem de cerca de 4 Milhões de usuários únicos ao mês pra 16 Milhões. Coincidência?

Além disso, a maioria do dinheiro da companhia vem do licenciamento de produtos de banho, perfumes, roupas, bebidas, joias e tudo que tenha aquele coelhinho. Só pra você ter uma ideia: 40% desse negócio está na China, onde não existe Playboy, a revista. Coincidência?

Agora a Playboy se prepara para a sua maior mudança em 62 anos de história: o fim da nudez na revista.

Cory Jones, o principal editor da revista, apresentou a ideia a Hugh Hefner, dentro da Playboy Mansion, no mês passado. E o fundador, ainda com os créditos de editor-chefe, no alto de seus 89 anos, concordou com a ideia, que chega às bancas a partir de Março do ano que vem.

Em 1975, eram vendidas cerca de 5.6 Milhões de revistas. Só a edição de Novembro de 72 vendeu SETE MILHÕES de revistas. Hoje, o número não passa de 800.000. É um outro sinal dos tempos: quase ninguém mais compra revista hoje em dia, seja lá do que for. Ainda há todo um glamour de se ver na capa de uma, mas existe a chance de que só você e mais meia dúzia de pessoas o façam. Imagina então no caso de revistas de mulher pelada? São cerca de US$ 3 Milhões de prejuízo, todo ano, nos EUA.

Por que continuar então? “É a nossa fachada da 5a Avenida”, disse Flanders.

Playboy

No Brasil, a Playboy perde relevância a cada dia que passa simplesmente porque não sabe se posicionar no mundo de hoje. Começa com um site que não existe de fato — são alguns conteúdos da revista replicados dentro do site da VIP; o foco continua sendo em mulher pelada e, pelo que dá pra perceber da capa de Outubro, usam um expediente bastante conhecido nas internets, que se importa mais com o título e o click que ele gera do que, necessariamente, o conteúdo (que pode ou não ser bom, pode ou não ter gente pelada).

Fica difícil imaginar, portanto, uma revista como a Playboy sem o que a fez famosa de fato. Mas os planos já estão definidos: um estilo mais moderno, Playmates em ensaios menos produzidos (leia-se “menos airbrush”) e com mais roupa, “um pouco mais acessíveis, um pouco mais íntimos”, uma coluna de sexo assinada por uma mulher entusiasta do assunto, artistas visuais na maioria das páginas e, claro, jornalismo investigativo, entrevistas e histórias de ficção. “A diferença entre a gente e a Vice é que nós vamos atrás do cara que tem um trabalho”, disse Jones.

É a oficialização do “comprei a Playboy pra ler as matérias”

Podemos discutir a necessidade do fim da nudez, já que pelo que estão planejando, ela caberia tranquilamente — mais ou menos como é com a Trip aqui no Brasil, que vive muito bem com esse monte de gente pelada online (até o momento, pelo menos, em que não tenta se misturar, né). Claro que tem a ver com esse negócio de “AI NOSSA GENTE PELADA QUE HORROR”, com o Mundo cada vez mais conservador. E se 40% dos negócios estão num lugar onde a revista nem existe justamente por conta disso... Coincidência? ;)

Vai dar certo? Ninguém sabe. Não dá sequer pra saber o que “dar certo” significa nesse caso. Não creio que as vendas da revista aumentem (estamos em 2015, não é só “qualquer ato sexual imaginável” que tá disponível em um click pra qualquer um). Mas pode ser que os chineses e quaisquer outros investidores que tenham medo de um corpo sem roupa curtam a ideia e os lucros da empresa aumentem. O que Hugh Hefner fez, pro bem e pro mal, tá feito. “Não me leve a mal. O meu eu de 12 anos está muito desapontado com o eu atual. Mas é a coisa certa a se fazer”, disse Jones.

Que o futuro seja mais interessante, brilhante... mais futuro, mesmo. A Playboy não se importa tanto com isso, mas quem é que de fato se importa com a Playboy hoje em dia?

¯\_(ツ)_/¯