O Homem-Aranha que o mundo precisava, na hora que o mundo precisava | Judão

Miles Morales mudou muito das dinâmicas do herói, trazendo um novo ar para as HQs do Aranha

Lançado em 2000, o Universo Ultimate foi criado para, de alguma forma, recriar os personagens da Marvel Comics sem as amarras da continuidade de seu universo principal e trazê-los para mais próximo dos jovens leitores de então. O selo já acabou, em grande parte vítima de seu próprio experimentalismo, mas há um detalhe nele maior do que qualquer outro, que sobreviveu a este fim e é, hoje, um dos grandes marcos recentes da Casa das Ideias: Miles Morales, o Homem-Aranha.

O Escalador de Paredes foi uma das iniciativas iniciais dentro do Universo Ultimate, mas ele não era, lá em 2000, o Miles. Na época, o roteirista Brian Michael Bendis e os artistas Mark Bagley e Stuart Immonen mergulharam de cabeça naquilo que havia sido criado por Stan Lee e Steve Ditko nos anos 1960, trazendo uma nova versão do Peter Parker, ainda no colegial como nas HQs originais, mas reciclando diversos outros conceitos.

Nesta versão, Parker tem 15 anos e a sua origem é contada em sete edições – contra as 11 páginas que resolveram toda a questão em Amazing Fantasy #15. Envergonhado, nerd e aficionado em ciências, ele acaba picado por uma aranha contaminada com uma droga chamada OZ, da Oscorp, e ganha superpoderes. Apesar de tudo isso ganhar contornos da época, como celulares, computadores e internet, o resultado final é mais ou menos aquele Homem-Aranha que você conhece.

Foi assim até 2011, sempre com Bendis escrevendo. O roteirista, junto com os editores e Axel Alonso, o editor-chefe, resolveram que era hora de matar Peter Parker como parte da saga Death of Spider-Man – e aí surgia a oportunidade perfeita para fazer uma recriação mais profunda do herói, agora com arte da Sara Pichelli.

Desde 2008 havia uma conversa, nos bastidores, sobre um novo Homem-Aranha Ultimate. Se você reparar bem, o Barack Obama foi eleito presidente dos EUA nesta época. “Percebemos que estávamos à beira da eleição do primeiro presidente negro dos EUA e reconhecemos que, talvez, fosse hora de dar uma boa olhada em nossos ícones”, disse Alonso em entrevista ao site Latin Rapper há alguns anos. “Desde Stan e Jack [Kirby], a Marvel sempre teve orgulho da diversidade de seus personagens. Estamos na vanguarda da diversidade cultural nos quadrinhos de super-heróis”.

Outra inspiração foi o ator Donald Glover – que, no episódio Anthropology 101 da série Community, em 2010, vestiu um pijama do Aracnídeo. “Eu o vi de uniforme e pensei ‘eu leria esse gibi'”, disse, tempos depois, Bendis em entrevista ao USA Today.

Miles surge pela primeira vez em Ultimate Fallout #4, de 2011, parte de uma série que lida justamente com os desdobramentos da morte de Peter Parker. E o novo Aranha era tão jovem quanto seu antecessor: 13 anos, nascido no Brooklyn de um pai negro e uma mãe porto-riquenha, ele ganha poderes após o tio – que é o vilão Gatuno – roubar uma das aranhas contaminadas com Oz, que por sua vez acabam picando o garoto.

De certa forma, Miles tem uma personalidade parecida com a de Peter Parker – inteligente, inexperiente e tudo mais. Porém, sua ascendência o faz mais próximo dos jovens de hoje, tanto quanto o Peter Parker dos anos 1960 estava próximo da garotada de então.

Quando criado por Lee e Ditko em 1962, o Homem-Aranha era um fiel retrato da realidade: um jovem de família da classe operária do Queens. Naquela época, de acordo com o Censo de 1960, 91% da população do borough era de brancos, a maioria de descendentes de imigrantes da Europa entre final do século XIX e a primeira metade do século XX, quando a forme e as guerras devastaram a região.

Já Miles Morales nasceu no Brooklin, uma região de Nova York que tem, de acordo com o censo de 2010, apenas 35% de sua população formada por brancos de origem não hispânica. Cerca de 34% são negros, quase 20% são latinos enquanto 12% são de outras etnias ou com múltiplas ascendências, que é justamente o caso do novo Homem-Aranha.

Miles Morales hispânico e negro faz tanto sentido quanto Peter Parker ser branco

Essa mudança foi PIVOTAL para fazer com que o Homem-Aranha tivesse, novamente, um sentido no mundo. As dificuldades que Miles enfrenta, as conquistas, preconceitos e tabus ecoam nos leitores de hoje como ecoava o trabalho de Lee, Ditko e John Romita na década de 1960. Tudo isso passou a refletir nas HQs escritas por Bendis, que pode trazer conflitos que não faziam sentido para Peter Parker, mas se encaixam como uma luva no Miles.

O fantasma do cancelamento do Universo Ultimate, que foi se esgotando, começou a rondar poucos anos depois da introdução de Miles Morales – mas isso nunca colocou o personagem em risco. Demonstrando o quanto maior ele havia se tornado em relação ao selo no qual surgiu, o personagem, agora um pouco mais velho, sobreviveu ao fim do Ultiverso na saga Secret Wars, de 2015.

A partir de 2016, este Homem-Aranha ganhou um novo gibi, Spider-Man, dentro da cronologia tradicional da Casa das Ideias. Agora ele divide espaço com outro Homem-Aranha, mas não o Peter Parker que ele substituiu no Ultiverso, mas sim a versão original dele, aquela criada nos anos 1960. Tudo isso veio com um papel de protagonismo, já que Miles teve destaque no crossover Civil War II e é um dos protagonistas de um dos enredos paralelos de Secret Empire, saga que está rolando neste momento.

Uma clara demonstração de que a tradição pode (e deve) continuar, mas que o verdadeiro legado está em manter a tocha acesa ao devolver para o mundo, com novas ideias, o que ele nos deu.