O Homem-Aranha lá e de volta outra vez | JUDAO.com.br

Pode ser uma ótima notícia pra uns, uma péssima notícia pra outros, mas o fato é que o novo filme Cabeça de Teia amplifica ainda mais uma das principais características do filme anterior: mais Peter Parker e menos Homem-Aranha

Durante as entrevistas pra divulgar Homem-Aranha: De Volta ao Lar, o diretor Jon Watts repetiu um mantra que fazia bastante sentido: ele tinha se inspirado bastante em John Hughes. O grande ponto é que a real influência do cineasta de clássicos adolescentes dos anos 1980 como Curtindo a Vida Adoidado, Clube dos Cinco e Mulher Nota 1000 pode mesmo ser vista neste novo capítulo da história do Teioso, Homem-Aranha: Longe de Casa. Assim, em todas as partes MESMO.

Portanto, levando ISSO em consideração antes de ir pro cinema, saiba que esta é ainda menos uma história de super-heróis que a do primeiro filme. O foco aqui está bem mais em Peter Parker e bem menos, assim, muito menos, no seu alter-ego aracnídeo. Talvez você até reclame da proporção entre um e outro... Mas, pra mim, manda mais Peter que ainda tá pouco.

Estamos falando de um filme de conflitos humanos, focado nos relacionamentos e nas amizades de um jovem de 16 anos que pode ser claramente descrito como a cristalização do que aconteceu com o mundo depois do ocorrido em Vingadores: Guerra Infinita e Vingadores: Ultimato.

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Peter é o mais humano dos heróis, isso desde sempre, principalmente porque é mais importante que se conte uma boa história do cara debaixo da máscara do que do sujeito que se balança pelas teias. Nada mais natural que ele seja nosso guia por este epílogo pós dedos estalando — metade do planeta sumiu e, cinco anos depois, metade do planeta voltou. Isso não é pouca coisa. Como contar o que rolou com a humanidade, com quem tá aqui no chão, nas ruas, com a gente comum? Recorrendo a um ator que transborda carisma como Tom Holland e ao herói que é o mais comum entre os caras fantasiados. Ao Amigão da Vizinhança, o cara que cuida da galera do seu bairro. O vigilante mascarado cujo principal poder é o coração.

No capítulo 2, que tal dar uma TORCIDA no coração do coitado do moleque? Ouch. Este é um filme de muito Peter e também de muita MJ (quanto mais Zendaya, melhor, não dá pra reclamar disso), de muito Ned, de muita Betty e até de mais Flash Thompson, de um jeito que começa a dar um tantinho mais de camadas e profundidade ao moleque.

Homem-Aranha: Longe de Casa é uma deliciosa road trip escolar que, por um acaso, tem um garoto com superpoderes no elenco.

Assumidamente pop e autorreferente (além de, bom, fofo), Longe de Casa é praticamente uma comédia de ação (adolescente, diga-se). O humor sempre foi parte muito viva do personagem nos gibis e não ia ser agora que iam deixar isso de fora. Só que no processo de explicar a fase 3 (fazendo uso de vídeos feitos pelos próprios alunos da escola, o que é simplesmente genial em sua execução “tosca” e “caseira”) e ajudar a estabelecer claramente qual é o clima da fase 4 do universo cinematográfico da Marvel, Watts finalmente INTEGRA o Homem-Aranha ao Universo Marvel.

Não é uma integração do tipo “participação especial no filme dos Vingadores”, mas sim um posicionamento de Peter Parker de uma forma que lembra CLARAMENTE a sua contraparte dos gibis — em mais de um aspecto, inclusive. A relação com MJ e com a Tia May, o velho azar dos Parker e até ele, o Sentido Aranha, todos dão o ar de sua graça, devidamente modernizados, remodelados, mas ainda lá, no mesmo espírito Lee & Ditko (com um temperinho de Bendis). Também tá lá, digamos, uma ooooooooutra faceta da relação do mascarado com a adorada cidade de Nova York que o rodeia, na conclusão da película. Mais do que isso, por enquanto, não dá pra dizer sem estragar um par de gratas surpresas. Mas é fato: agora estamos diante de um Homem-Aranha puro e genuíno.

Coitado dele.

O Mysterio de Jake Gyllenhall é canastrão e exagerado na medida certa, trazendo um retrato que faz totalmente jus ao que a gente vê nos gibis — com duas surpresas para quem nunca leu as HQs e uma bastante interessante para os espertões que conhecem bem as tretas de Quentin Beck nos gibis e chegam no cinema achando que já sabem tudo a respeito dele e dos caminhos que a trama vai seguir. Além de uma química que claramente funciona entre ele e Peter, Mysterio ganha uma ótima atualização, do tipo que ajuda o sujeito a fazer ainda mais sentido em 2019.

Digamos que ele responde muito bem a um dos maiores inimigos globais do nosso mundo real HOJE, ajudando a pavimentar o caminho de Peter contra uma arma que sempre esteve apontada contra a sua cabeça nos gibis e que os nossos políticos e poderosos, tanto aqui quanto na Terra do Tio Sam, aprenderam a usar muito bem nos últimos anos...

Importante dizer e, mais do que isso, reforçar, que Homem-Aranha: Longe de Casa é um filme leve, sem pretensões, descontraído, quase como uma trama de desenho do Scooby-Doo, que funciona sozinho como filme do Aranha e pronto. Tipo o Homem-Formiga — e numa comparação que eu acho verdadeiramente positiva, pra ser honesto. Uma história de Peter Parker com começo, meio e fim (?), tudo com direito a uma música dos Ramones (bem menos óbvia desta vez) só pra não perder a chance. Daria numa boa pra qualquer um curtir sem ter a necessidade de ver 252 filmes diferentes da Marvel.

Mas é claro que os TARADOS pela continuidade cinematográfica do estúdio vão ficar desesperados, isso sim, pela SEGUNDA cena pós-créditos, que já dá uma importante pista sobre o caminho narrativo que a Marvel muito provavelmente vai seguir em sua próxima fase. Acaba o filme e começam as especulações, sobre potenciais vilões, sobre uma determinada sigla. Tudo bem. É justo. Mas ainda é cedo, gente, não precisa.

Por agora, vale relaxar e curtir uma aventura colorida e ensolarada, cheia de doçura e boas sacadas. Com um Homem-Aranha que muitos colegas leitores das antigas começaram a admitir que “não é feito pra mim, é pra uma nova geração”. Que bom. E chego a concordar. Mas até a página dois, eu acho. Porque, sim, este Peter Parker é um Peter pro meu filho, que hoje é apaixonado pelo personagem. Só que ainda assim eu, este quarentão que lê as revistas do Amigão da Vizinhança desde sempre, também entrei no clima. Não é o Aranhaverso? Não, não é — e a comparação é BEM injusta, eu diria. Só que é um Homem-Aranha com o coração totalmente no lugar. E este não é apenas um bom começo, mas também um ótimo caminho a seguir.