O melhor de Tarantino está em suas trilhas | Judão

Ele veio, ele deixou sua marca. Um cinema pop, violento, um grind neo-exploitation cheio de referências que logo se tornou referência por si. E a assinatura de suas obras são as trilhas sonoras incríveis que emolduram seus filmes. Conheça a pira de Tarantino por trilhas indies e originais.

Podemos dizer que, pra alguns diretores, a trilha sonora de seus filmes tem tanta importância quanto um enquadramento perfeito, uma fotografia fodástica ou diálogos avassaladores, passando a ser a cobertura perfeita para a cena ou sequência perfeitas. É o caso de diretores como Jim Jarmusch, Cameron Crowe, Steve Soderbergh, Clint Eastwood e, certamente, o mais emblemático deles, Quentin Tarantino.

Seus fãs não teriam o mesmo apego emocional a filmes como Cães de Aluguel se não ouvissem Stuck in the Middle with You em suas cenas mais marcantes. Da mesma forma, Pulp Fiction não seria Pulp Fiction sem Misirlou. Essas canções, escolhidas a dedo e com uma carga emocional tão íntima de Tarantino, acabaram virando a própria alma, a identidade de seus filmes.

Bem, antes de qualquer coisa é preciso saber que, dependendo do filme, o cinema faz uso de várias linguagens diferentes de trilhas sonoras. Existem as grandiosas e épicas de John Williams e Hans Zimmer, existem as sofisticadas e incidentais como as de Mancini e Morricone, por exemplo. Ambos os estilos estão ligados às películas de forma tão orgânica que nem faz muito sentido ouví-las isoladamente, embora muita gente curta fazer isso; e existem as trilhas sonoras que estão mais para playlists do que qualquer outra coisa, feitas de músicas que já existem, embora pouca gente as conheça, e que ganham vida própria assim que o filme cai nas graças do público, o que acaba gerando até um subproduto deste filme que é justamente o comércio de trilhas sonoras, essas sim, perfeitas para ouvir de forma independente, apesar de estarem intrinsecamente ligadas ao filme, para sempre.

Dizem as más línguas em Hollywood que diretor lá é tudo obcecado por cultura pop, cheio de TOCs, nerds em último grau, muitos deles inclusive cultivam a fama de serem verdadeiras enciclopédias em vários quesitos e música é um deles. Tarantino é um nerd musical, coleciona centenas de discos de vinil e CDs desde a infância e usa seus filmes para expressar essa paixão.

Na brochura explicativa que acompanha a Tarantino Connection, uma coleção de CDs só com canções de seus filmes, o diretor meio que descreve, talvez de uma forma simples e pouco surpreendente, o método que usa para escolher tais canções: “Uma das coisas que faço quando eu estou começando um filme, ou quando estou escrevendo um filme ou quando eu tenho uma ideia para um filme, é escarafunchar minha coleção de discos. Então começo a colocar músicas aleatórias para tocar, tentando encontrar a personalidade do filme, o espírito do filme. Então, ‘boom’, eventualmente encontro uma, duas ou três canções, ou uma música que inspire uma cena ou sequência em particular: ‘Oh, esta será uma grande canção para créditos de abertura’. Foi assim que cheguei à trilha do ‘rei da surf music’ Dick Dale, para os créditos de abertura de Pulp Fiction, por exemplo” diz.

“Ter Misirlou como créditos iniciais é algo tão intenso. Isso meio que diz: ‘você está assistindo a um baita de um filme, apenas sente e assista'”, conclui. Tarantino ainda descreve o processo de escolher a canção certa para cada tomada como algo tão cinematográfico quanto estar em um set gravando.

Quase todas as suas trilhas são escolhidas desse modo visceral e emocional, mas, em Bastardos Inglórios, Django Livre e Os Oito Odiados, Tarantino resolveu finalmente experimentar trilhas incidentais e canções originais, permeadas por uma ou outra canção pop em meio à trama. Em Bastardos, a cena que mais se fixou no córtex do público foi a de Shoshanna tocando fogo em um cinema cheio de nazistas ao som de Cat People, de David Bowie, por exemplo.

Quem ficou responsável pelas trilhas dos três filmes, no entanto, foi o grande compositor de trilhas para western Ennio Morricone (que foi parceiro de Bowie em muitas canções, inclusive). Morricone, mesmo tendo sido responsável por trilhas de clássicos como Os Intocáveis e Por Um Punhado de Dólares, nunca havia ganhado um Oscar, o que acabou conquistando com Tarantino.

Mas o convívio dos dois não foi nada pacífico. Depois de Django Livre, Morricone declarou ao Hollywood Reporter que “nunca mais” voltaria a trabalhar com Quentin. A justificativa para tanta mágoa é que, segundo Morricone, Tarantino utilizava a sua música incoerentemente nos filmes e “não se pode trabalhar com alguém assim”. O diretor também respondeu à provocação, frustrado com compositores. “Eu odeio isso, eu odeio dar esse tipo de poder a alguém em um filme meu”, queixou-se na época à revista NME. Bem, talvez a trilha de Os Oito Odiados tenha carregado um pouco dessa rusga e por isso mesmo pareceu tão propícia, o que, ironicamente acabou dando o Oscar aos dois.

Quase sempre puxando para o rock, mas com muito blues, black music, folk, surf music, hip hop e incidentais western, as trilhas de Tarantino são tão características e diferentes que por si só que já se tornaram um estilo. Taranta tem o dom de escolher a trilha sonora perfeita para cada narrativa e o mais incrível é que o seu segredo está sempre em surpreender o espectador. Dificilmente será uma trilha condizente com a ação da cena, mas cara, ela magicamente funciona.

Ele sabia disso quando colocou a melodia dançante e hipponga do Steelers Wheel em uma das cenas mais violentas de Cães de Aluguel, ou quando escolheu Across the 10th Street, de Bob Womack, uma canção que nem fez tanto sucesso nos anos 70 (apesar de também ter sido composta para um filme homônimo em 72), mas ficou matadora na sequência de abertura de Jackie Brown. Ou até mesmo quando escolheu Bang Bang (My Baby Shoot Me Down) de Nancy Sinatra para uma cena onde uma noiva grávida é baleada e abandonada em uma igreja perdida no deserto.

Parece que não faz sentido algum, mas Tarantino cria sentido. Ele é um mestre. Quando se trata de entender o potencial cinematográfico de uma canção, Tarantino há muito tempo provou que ele sabe muito bem o que está fazendo.

Arte da capa: Diego Patiño