O melhor filme do Jason que você nunca verá nos cinemas | Judão

Mas que você pode ver aqui e agora, olha só! :D

Qual foi a última vez que você se viu com medo de Jason Vorhees, sem contar aquela final de campeonato de Mortal Kombat X, no mês passado? A chance é grande que você responda alguma data do século XX ou, pelo menos, de quando você tinha lá pelos seus 10 aninhos de idade.

Outrora um AVATAR do pavor na Cultura Pop, o gigante zumbi mascarado tornou-se, por sinal dos tempos e incompetência dos estúdios, uma piada de mau gosto nas telonas (ao lado do ainda mais estapafúrdio Freddy Krueger), passando de um alicerce histórico do horror para um tipo de tiozinho água com açúcar.

Não foi à toa que, depois de perder bastante grana com o EXECRÁVEL (pensou naquele dublador, né? :D) Chamados, a Paramount decidiu cancelar o projeto de um 13º filme da franquia Sexta-Feira 13, que até então deveria tentar tirar o gosto ruim daquele episódio meia boca de Supernatural lançado como reboot da série em 2009, para não falar dum tal Freddy vs. Jason que só serve para LOLar com a galera.

Mas eis que, enquanto a maioria dos fãs do assassino da máscara de hóquei segue aguardando cenas dos próximos capítulos – com os direitos da franquia retornando à parceria New Line/Warner Bros, depois do estúdio da Caixa d’Água ter cedido os direitos à Paramount por um ESQUEMÃO na produção de Interestelar – um cara decidiu levar a sério aquele comentário trouxa de quem não tem retórica na internet, o tal “não gostou, faz melhor”, e dirigir ele mesmo uma produção inspirada pela franquia.

E, sim: ele realmente FEZ melhor.

Com quase 54 minutos de duração, uma produção inacreditavelmente caprichada e um roteiro absolutamente redondo, Never Hike Alone é facilmente o melhor filme sobre Jason Vorhees em mais de 20 anos (e, quiçá, já feito em toda história). REALIZADO pela produtora independente Womp Stomp Films via financiamento coletivo, ele é uma homenagem mais do que digna e, ainda mais importante, REALMENTE ASSUSTADORA, a esse ícone do cinema de terror – além dum PUTA entretenimento de primeiríssima qualidade.

A começar pela sua premissa: saem os típicos colegiais burros e TESUDOS, entra um aventureiro casca grossa a la Bear Grylls que, por acaso, acaba cruzando caminhos com o homem do facão. Seu nome é Kyle McLeod (vivido pelo filhote de Charlie Hunnam e Tom Hardy, Drew Leighty), um jovem alpinista que viaja os EUA produzindo vlogs cheios de adrenalina. Num desses rolês, ele acaba se refugiando nas ruínas de um certo ACAMPAMENTO CRYSTAL LAKE, só para descobrir que as sinistras histórias de 30 anos atrás, sobre horrendos assassinatos cometidos por um tal Jason Vorhees, eram reais.

Sente só como o trailer já massageia LEGAL essa ideia. ;)

A grande sacada de Never Hike Alone não está só em focar num único personagem, fazendo você realmente gostar, se importar e sofrer com ele. Está em focar num único personagem que chega perto de ser páreo para Jason, fazendo do embate entre os dois algo muito mais interessante do que um simples Premonição à base dum MACHETE. O assassino sanguinário dá o ar da graça rapidamente no início do filme, mas só entra em ação de fato depois de uns bons minutos de expectativa, num ponto em que já sabemos que Kyle não é pouca coisa, não.

O cara é atento a armadilhas, sabe cortar sua própria lenha, fazer seu próprio acampamento, cuidar de suas próprias feridas. É um verdadeiro SURVIVALIST – o que te faz acreditar e ter esperança que, mesmo desavisado como todo bom personagem de filme de terror deve ser, ele pode sim sobreviver aos ataques de Vorhees.

E ele sobrevive, ao menos ao primeiro encontro. Quando enfim temos uma visão de Jason em ação, é fantástico ver o respeito e a admiração que o diretor do curta, Vincente Di Santi, tem pelo personagem. Jason preserva sua lentidão característica, sua austeridade e sua imposição, mas ao mesmo tempo, demonstra uma certa humanidade que faz dele um inimigo mais aceitável para um único cara. É fantástico como se enriquece o personagem quando é deixado um pouco de lado o conceito de besta sobrenatural e quase onisciente/onipresente que foi mais e mais adotado ao longo dos anos. E é mais fantástico ainda saber que o próprio Di Santi é quem vive o assassino.

Não só a atuação como Jason é perfeita, como a direção do curta é absolutamente deslumbrante (em especial se considerarmos que isto é um fucking FAN FILM). Das tomadas iniciais, que remetem diretamente à abertura de O Iluminado, à brilhante mescla do formato narrativo do found footage com o convencional (justificado pelo Vlog de Kyle e usado com perfeição para aumentar o nosso desespero nas cenas de tensão pré-Jason), fica claro que este é o trampo de alguém que manja não só dos seus Jasons, como de CINEMA – aquele, do verbo.

Isso para não falar das referências visuais explícitas a capítulos anteriores da saga, como Jason tendo sua máscara retirada, ou a típica trilha sonora que antecede qualquer ataque do bichão. Falando nelas, aliás, toda a parte ORIGINAL das músicas do filme é louvável, numa pegada oitentista bem soturna, arrepiante. Palmas para o compositor Ryan Peres-Daple.

Never Hike Alone é o trampo de alguém que manja não só dos seus Jasons, como do verbo cinema

Lançado no Kickstarter no início de 2016, inicialmente, com projeções de finalização para o final do mesmo ano, todo o projeto de Never Hike Alone acabou atrasado depois que metas de arrecadação iniciais falharam — além da equipe criativa ter decidido mudar completamente as locações das filmagens. “O time encontrou um verdadeiro acampamento abandonado no meio da reserva florestal nacional de San Bernardino, oferecendo o local perfeito para o nosso próprio Acampamento Crystal Lake”, explica a página do filme na plataforma de financiamento coletivo. “Obter acesso à locação obrigou que a equipe desse alguns passos para trás e repensasse oportunidades criativas, bem como os desafios que viriam”.

Valeu muito a pena. A locação é outro grande motivo que faz o filme funcionar – assim que aparece, deixa claro se tratar de um local onde muita coisa aconteceu no passado, hoje consumido pelo tempo.

De fato, muito mais apropriado para dar à luz o filho de Jason e as referências citadas por Di Santi para a vibe do filme, como O Abismo do Medo, 127 Horas e Perdido em Marte, do que a primeira locação. Em resumo: tudo BEM foda!

Ok, talvez nem tudo. Se nem algumas das maiores produções da história são à prova de balas, é claro que Never Hike Alone também não é. O início da trama é extremamente importante, mas com um só personagem em cena, a quantidade de exposição relegada ao pobre Drew Leighty não ajuda sua clara inexperiência como ator profissional, saindo da sua boca com um pouco de pressa demais e interpretação de menos – e, assim, deixando tudo um pouco arrastado. Felizmente, não demora para que comecem as ~tretas e a fisicalidade do cara (aí sim, ponto fortíssimo) fale por si.

Depois do terceiro ato realmente ELETRIZANTE™, que explora de forma extremamente criativa o medo e horror provocados por Jason, enquanto ainda entrega uma participação especial divertidíssima para os fãs de carteirinha da saga Sexta-Feira 13, fica difícil se ater a qualquer deslize.

Never Hike Alone é do caralho, e você precisa conferir!

Não faz muito tempo, James Wan produziu Quando as Luzes se Apagam, um longa-metragem hollywoodiano inspirado por um curta autoral que bombou na internet. Quem sabe a Warner não olha com carinho para esta maravilhosa conquista que é o Never Hike Alone e resolve presentear os fãs com algo na mesma veia, talvez envolvendo Di Santi e a galera da Womp Stomp até certo ponto?

Pra um projeto que começou mirando um vídeo de mais ou menos 20 minutos, querendo arrecadar 13 mil doletas, e acabou com um média-metragem de mais de 50, com 18 mil arrecadados, talvez não haja lá tantos limites assim. E como pesadelo é a coisa do outro cara lá, não custa nada sonharmos, né não?

Enfim, tá esperando o quê? Assiste à parada aí! :D