O melhor que os gibis da Marvel têm a oferecer acaba de chegar ao Brasil | Judão

O primeiro encadernado do Visão escrito por Tom King é daqueles exemplos absolutamente sublimes de que ainda existe material de muita qualidade nas duas grandes editoras dos EUA

Pra quem presta atenção, a equação se tornou bastante simples, na verdade: ao mesmo tempo em que aumentam exponencialmente os elogios aos filmes da Marvel, parece diminuir a paciência dos fãs das antigas com o material atualmente publicado nos gibis. E isso não vale só pra Casa das Ideias, é bom que se diga. A DC também é alvo do “ai hoje em dia só tem porcaria nestas duas grandes, no meu tempo é que era melhor”, devidamente complementado pelo hoje igualmente inevitável “gibi americano, hoje, só da Image mesmo”.

Bom, tenho duas ressalvas aí: a primeira é que, da mesma forma que a gente defende com relação ao Netflix, nem tudo que a Marvel produz nos cinemas é impecável e à prova de balas — Vingadores 2 tá aí que não nos deixa mentir. Tá liberado dizer que não gostou, tá bom, minha gente? E sim, a Image está com um line-up de gibis maravilhoso hoje em dia, praticamente irrepreensível. Mas dizer que não tem NADA de bom sendo publicado nos gibis de linha da Marvel e da DC atualmente é de uma miopia sem tamanho.

Nem vou entrar aqui no mérito dos gibis autorais que ambas as editoras publicam sob outros selos. Vou ficar apenas com os super-heróis de sempre. Porque a gente já falou aqui algumas vezes, por exemplo, da Kamala Khan escrita por G. Willow Wilson, da Thor de Jason Aaron, do Pantera Negra de Ta-Nehisi Coates, do Arqueiro Verde de Benjamin Percy e do Senhor Milagre de Tom King.

Aliás, é sobre este último que eu queria demais falar. Não o Senhor Milagre, mas sim Tom King. Cuja última obra pra Marvel antes de se tornar um DC boy enfim chega ao Brasil, no primeiro encadernado Pouco Pior Que Um Homem. E nesta reinterpretação simplesmente magnífica para o sintozoide Visão, o que King nos oferece é, de muuuuuito longe, não só um dos materiais mais maravilhosos produzidos pela Marvel nos últimos anos como, arrisco dizer, uma dos roteiros mais incríveis produzidos pela indústria americana de gibis nos últimos anos. SIMPLES ASSIM.

Uma HQ com liberdade total pro autor e que está totalmente integrada à atual cronologia da editora. Não é realidade alternativa nem porra nenhuma do gênero. Aconteceu. É real.

Esqueça a sua história padrão de heróis. Aqui, o lance tá bem longe de aventuras cósmicas e aquele combo ao qual cê tá mais do que acostumado — aliás, sim, tem isso aqui, mas tratado como pano de fundo. Como o “emprego” do Visão. Falcão e Homem de Ferro não são coadjuvantes que ajudam a salvar o mundo. São apenas colegas de trabalho. O tom aqui é uma mistura de sitcom sombria com uma ficção científica mundana, que parece tão distante mas ao mesmo tempo é tão assustadora e real, que lembra um pouco os trabalhos de caras como Philip K. Dick.

Sim. Tudo isso num gibi de série da Marvel. Sacou o tipo de obra que você podia perder com esta dose de preconceito babaca?

A história se desenrola depois que o Visão resolve criar uma família para si mesmo. É, isso aí. Uma esposa e dois filhos gêmeos, um menino e uma menina, tão robóticos quanto ele. Vale lembrar que, alguns anos atrás, quando se casou com a Feiticeira Escarlate, ele chegou a formar um núcleo similar, com direito a filhos que eram produto do poder de manipulação da realidade de Wanda. Mas agora era a hora de ter aquilo que todos os seus parceiros de Vingadores tinham: uma identidade civil. Um lar para poder voltar depois de salvar repetidamente o mundo. Um lar para tentar entender a humanidade e, mais do que isso, tentar soar humano.

Visão, a esposa Virginia e as crias adolescentes Vin e Vivian (Viv), então vão morar num pequeno subúrbio próximo de Washington, já que o herói também se torna o representante do time na Casa Branca. Só que eles não estão disfarçados. Eles estão lá com suas aparências reais, sem mentir para ninguém. Rapidamente, se tornam celebridades na vizinhança, na escola. Porque, afinal, todos têm superpoderes e o patriarca da família é amigo do Capitão América, tem um souvenier do Pantera Negra e outro do Surfista Prateado na sala de casa... Começam rapidamente as selfies, as brincadeiras, que rapidamente evoluem para os apelidos pouco elogiosos...

E então também começa o medo. De que algo possa dar errado, de que as “máquinas” possam se revoltar, dar um bug, tudo dar errado, a casa explodir, os filhotes do Exterminador do Futuro querendo dar cabo de cada um dos vizinhos e suas pequenas casinhas com cercas e vida perfeitas. E então vem o preconceito. “Você é normal?”, pergunta uma colega de classe para Vin. E ele mal entende exatamente qual é este conceito de “normalidade”. E logo pergunta pra irmã: “eu sou normal?”. Ninguém sabe muito bem a resposta. Mas, pelo menos, o que seu pai lhes pediu é que tentem parecer normais. Não usem os poderes para trapacear nos esportes. Não voem na hora de brincar. E não usem sua imensa capacidade analítica para devorar os livros e seus milhares de dados sem entender, principalmente, o tal do CONTEXTO.

O Visão é uma máquina analítica, que tenta entender a sociedade ao seu redor do jeito mais matemático e exato possível, quase como formulando uma equação. Mas não é o que acontece com seu núcleo familiar. Graças a uma inesperada aparição do Ceifador (vilão que é irmão de Simon Williams, o Magnum, justamente a inspiração para os padrões cerebrais do Visão, cortesia de seu criador, o Ultron), que diz que eles são apenas uma imitação de humanidade e não merecem ser uma família, aos poucos, Virginia, Vin e Viv começam a manifestar emoções inesperadas.

A mãe descobre a raiva, o ódio, a mentira. E sente que algo está fora do lugar inclusive dentro de si, em especial quando olha para a pequena árvore que é o principal adorno de sua sala, um presente de ninguém menos do que Wanda, o grande amor de seu marido. O filho descobre a inadequação, o quanto é ruim se sentir deslocado, deixado de lado na escola. E a filha descobre o quanto pode ser ao mesmo tempo prazeroso e doloroso se afeiçoar a alguém tão diferente de você, que te aceita mas que vive numa sociedade que, não, não te aceita como você é.

A história, que tem direito a uma única cena de combate até o momento, bastante desengonçada e, por que não dizer, “humana”, já seria interessante por si só com esta apresentação, certo? Pois a coisa fica ainda melhor quando Tom King recorre ao recurso inteligentíssimo do narrador. Aí, de fato, ele transforma o fluxo da história em algo que tem uma baita cara de série de TV, contrapondo o que está acontecendo na cena com o que o narrador informa que os personagens estão pensando, fazendo ou querendo fazer. E quando ele resolve narrar algo que aparentemente não tem qualquer relação com o que está acontecendo, quase como um professor de ciências exatas explicando a diferente entre P e NP (um dos momentos mais incríveis da história, aliás), você logo começa a sacar que, sim, aquilo tem total motivo de estar ali e está longe de soar deslocado.

É impossível ler os quadros do narrador sem fazer, na cabeça, uma voz pomposa como a de um Morgan Freeman, por exemplo, para dar o peso e o volume que o texto merece (embora, em dado momento, a voz mude para a da Helen Mirren, e você vai entender exatamente o motivo).

Você sente a dor dos Visões, sente empatia por eles, se compadece, ao mesmo tempo em que, enquanto ser humano, sente uma pitadinha de pavor quando percebe que esta ou aquela conversa podem gerar um tipo de compreensão equivocada sobre como nós agimos ou reagimos. Você fica com o coração cheio de amor pelo protagonista quando ele chega às últimas consequências para salvar a filha. Mas chega, inclusive, a ter um pouco de raiva dele mais pra frente, quando percebe que ele simplesmente não está entendendo o que acontece com sua família.

Sabe o que eu queria? Assim, mas MUITO? Que a Marvel pegasse o Paul Bettany pra transformar isso efetivamente em série. De preferência, com o Noah Hawley de Legion como showrunner. Cancela até Agents of SHIELD, se for preciso, pra fazer acontecer.

Por isso, eu até abriria mão, ainda que temporariamente, daquele tão sonhada série do Gavião Arqueiro inspirada na fase do Matt Fraction — que, aliás, é outra coisa simplesmente genial que você deveria ler o quanto antes. Porque ambas são a cristalização do lado mais humano e cheio de falhas dos super-heróis. Que são como nós. Só que com roupas multicoloridas. E, às vezes, alguns circuitos a mais.