O mundo continua precisando de dois Capitães América, Marvel | Judão

Sam Wilson devolveu o escudo para o Steve Rogers, numa atitude bonita, mas que não é necessariamente a resposta que precisamos

SPOILER! Legado é uma palavra importante. Forte. É sobre passar para as próximas gerações a nossa mensagem, a nossa missão. E é, também, o que indica a nova fase da Marvel nos quadrinhos, como você já leu aqui no JUDÃO. Porém, de alguma forma, o significado disso se perdeu no especial Generations: Sam Wilson & Steve Rogers Captain America.

Generations é uma grande leva de especiais que se passa entre o final de Secret Empire e Marvel Legacy, com alguns dos heróis da nova geração reencontrando com as versões clássicas em momentos importantes das carreiras deles. Nesta aqui, Sam Wilson, ex-Falcão e que atualmente atende pelo título de Capitão América, voltou para o mundo do início da Segunda Guerra Mundial.

Lá, tentando não interferir muito nos rumos da história, Sam viveu uma outra vida – se alistou, lutou na guerra e serviu de inspiração para um ainda novato Steve Rogers. Mas ele também sofreu na pele a segregação daqueles tempos e, após o conflito, se tornou um pastor e lutou pela igualdade de direitos. Viveu para ver o amigo Steve voltar do gelo e ser integrado aos Vingadores, chegando aos acontecimentos mais recentes. Assim, os leitores são apresentados, de forma simplificada, à cronologia do Capitão América original.

Depois de viver uma vida inteira fora de seu tempo, Sam retorna ao seu corpo original, no atual momento da história, descobrindo, junto com os outros heróis, que nunca houve viagem temporal. Talvez tudo tenha sido uma manipulação da Kobik, o Cubo Cósmico que se tornou uma criança, mas o gibi deixa isso no ar.

Ao final, ao perceber a importância do amigo, Sam retorna o escudo de Capitão América para ele, abrindo mão do título – ele volta a assumir o nome de Falcão no novo gibi do personagem. E é aí, depois uma HQ que tenta ser carregada de significado, que a história derrapa de vez.

Veja: a Marvel está, o tempo todo, falando de Legado. E, realmente, é um conceito que combina com um herói que lutou na Segunda Guerra Mundial, superou os nazistas e nunca baixou a cabeça para aquilo que não achava certo – causando até uma Guerra Civil nos gibis. Mais forte do que ele, só mesmo o que ele representa, o que deixa para as futuras gerações. E colocar um negro assumindo seu manto, com as cores do país e com tudo o que estamos vivendo hoje, é um BAITA Legado e uma das coisas mais interessantes e importantes que a Casa das Ideias fez nos últimos anos.

O mundo tem, claramente, espaço para dois Capitães América – inclusive com um deles lutando pelos direitos dos refugiados, como Sam chegou a fazer. No entanto, ao desfazer esse arranjo, a Marvel se apequena. Dá, novamente, espaço para apenas uma só voz. Esquece que o país é, atualmente, mais do que o filho do imigrante europeu: é filho de todos os imigrantes.

“Ah, ele pode ser sempre o Falcão”. Claro que pode. Só que Sam Wilson como Capitão América tocou em pontos importantes e relevantes. Pontos que, agora em 2017, são AINDA MAIS importantes e relevantes.

No final das contas, ao menos quando falamos de Bandeirosos, o tal do “Legado” ficou só no nome.