O mundo dá voltas e Sting finalmente incorpora John Constantine. Ou algo assim. ;) | JUDAO.com.br

Inspiração original do visual do mago mais sacana dos quadrinhos, cantor adota o sobretudo e tudo (HÁ!) pra divulgar sua participação na coleção comemorativa do personagem

Tudo começou na gloriosa passagem de Alan Moore pelo gibi do Monstro do Pântano, quando apareceu pela primeira vez aquele sujeito tipicamente urbano e inglês, cínico, sacana, mal-educado, de moralidade bastante questionável e um senso de humor ácido, sempre com um cigarro na boca e trajando um sobretudo cheio de estilo apesar de surrado. E que era, claro, a cara do Sting. O que, obviamente, não foi por acaso.

“Basicamente, quando eu assumo o papel de roteirista de um gibi, eu tento trabalhar o mais próximo possível dos desenhistas”, explicou o igualmente IRASCÍVEL escritor inglês, numa entrevista pra versão impressa da revista Wizard, em 1993. “Imediatamente, então, tentei engatar uma amizade com Steve Bissette e John Totleben, perguntei o que eles queriam fazer com o Monstro do Pântano. E aí eles me mandaram um monte de materiais de referência, coisas que sempre quiseram fazer mas nunca conseguiram seguir em frente. Então, as incorporei no meu esquema, tentando costurar tudo aquilo junto”.

No meio das anotações, estava que ambos, fãs da banda The Police, queriam muito fazer um personagem que se parecesse com o Sting. “Acho que a DC tava apavorada que o Sting fosse processá-los, sei lá. Eles tentaram erradicar quaisquer traços de referências neste sentido. Mas posso dizer categoricamente que o personagem só existiu, num primeiro momento, porque os dois queriam um cara que se parecesse com o Sting”, explica o barbudo.

Mais especificamente, a dupla de artistas queria alguém que tivesse o visual do cantor e ator em filmes como Quadrophenia (1979) e Enxofre & Melaço (1982). E na real, eles já tinham ousado colocar um sujeito que se parecia BEM com Sting lá no fundo de um quadrinho, usando uma camiseta preta e vermelha, em Swamp Thing #25 (1984) — uma aparição que acabou sendo considerada, depois oficialmente, como a primeira vez que o mago deu as caras.

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O Constantine como OFICIALMENTE conhecemos só viria a surgir em Swamp Thing #37, aí já no papel de conselheiro sobrenatural do monstrengo verde. “Os místicos nos gibis em sua maioria eram mais velhos, muitos AUSTEROS, bem classe média. Não dão certo num esquema das ruas. Aí, quis fazer um feiticeiro quase operário, classe trabalhadora”. “Meu nome é John Constantine, e eu acho que poderíamos fazer um favor um pro outro. Se importa se eu fumar?”, apresentou-se ele assim, logo de primeira.

Mas, embora nesta mesma entrevista, Alan Moore diga que Sting afirmou à revista Rolling Stone que viu John Constantine, achou legal e ficou “lisonjeado” em ter um personagem que parecia com ele — e, bom, se hoje em dia você não acha lááááááá muita semelhança, deveria ver os desenhos originais — o tal do “papo” nunca foi oficialmente encontrado nos arquivos da revista.

Um dos poucos comentários do músico a respeito de sua contraparte mística foi registrado numa edição da revista especializada Musician, edição de agosto de 1991, quando Sting falava sobre os gibis do Superman e do Batman que lia quando era moleque e foi lembrado que Constantine existia. “Não sou eu. É uma criação do domínio público. Qualquer coisa pode acontecer com isso, boa ou má. Isso não me afeta. Tendo criado uma espécie de máscara ou imagem pública, você tem que conseguir colocá-la de lado e seguir sua vida. Este é o erro que as celebridades cometem, confundir isso com sua vida real. Aí fodeu tudo. Aquele personagem é outra pessoa. Não eu. E graças a Deus”.

Por mais que Gordon Matthew Thomas Sumner pareça, neste momento, meio puto da vida com a existência do Constantine, talvez ele tenha se acostumado com a relação entre os dois — tanto é que foi convidado a escrever o prefácio de Hellblazer: 30th Anniversary Celebration, edição especial comemorativa do anti-herói da DC Comics, originalmente um astro do selo Vertigo e que, pós-Novos 52, foi parar diretamente na cronologia oficial da editora, ao lado de toda a sua coleção de supers multicoloridos.

E enquanto se prepara para uma turnê chamada 44/876 ao lado do cantor jamaicano de reggae/hip-hop Shaggy, Sting ainda teve tempo de gravar um pequeno vídeo testemunhal no qual, ora ora, veste o tradicional sobretudo do “amigão” do Monstro do Pântano. “John e eu temos um relacionamento de muito tempo — e eu escrevi sobre esta relação”, diz o cantor.

O mais divertido, na verdade, é que o texto de Sting é escrito sob a perspectiva do Golden Boy, irmão gêmeo de Constantine que morreu antes de nascer mas que, em uma realidade alternativa na qual John é que faleceu antes de ver a luz do dia, vive não apenas bem e feliz como assume seu papel como mago supremo, tornando o mundo um lugar melhor, mais lindo, iluminado e feliz. Vejam vocês a ironia... ;)

É o Sting. Mas podia ser o John.

A edição comemorativa, capa dura, será lançada no dia 30 de outubro, trazendo histórias escritas por caras como Alan Moore, Neil Gaiman, Garth Ennis, Brian Azzarello, Paul Jenkins e Jamie Delano.

Só a nata pra soprar as velinhas do bolo deste cara, um dos raros casos de bissexuais tratados assim abertamente nos gibis, e que anda em alta no Arrowverse do CW, estrelando a série animada Constantine: City of Demons e agora sendo confirmado como personagem regular da próxima temporada de Legends of Tomorrow.

Mas, por mais que Constantine seja a cara do Sting, bom, não são raros os casos de autores que já escreveram o personagem que afirmam ter encontrado com ele, o John Constantine em pessoa e não a porra do cantor, na vida real.

Na mesma entrevista pra Wizard, Moore diz que tava num bar, comendo um sanduba, e aí subiu as escadas um cara que era a fuça do mago. “Usava o sobretudo, cabelo curto... Ele não parecia com o Sting, parecia com o Constantine. Me olhou bem nos olhos, sorriu e foi pro outro lado do bar”. O que o autor fez? Ficou na sua. “Achei que era o mais seguro. Só estou dizendo o que aconteceu. Que pequena história estranha”.

Delano afirmou tê-lo visto fora do British Museum, enquanto escrevia o gibi do cara. Peter Milligan disse que deu de cara com ele numa festa, em 2009, saiu correndo atrás do camarada pra conversar e ele desapareceu. E Azzarello colou num bar em Chicago e lá estava o bruxo britânico. “O negócio sobre o John é que a última coisa que você gostaria de ser é amigo dele”, disse o escritor, pro Vulture.

Mas caralho: nem se ele fosse o Sting?