O Nevoeiro pode ser a série que Under the Dome não foi | Judão

Com mudanças certeiras na obra de Stephen King, adaptação para a TV do conto The Mist é um drama apocalíptico pra lá de competente, sem medo de mergulhar no horror

Seja por vampiros, zumbis, símios, epidemias ou até redomas gigantes e invisíveis, o grande barato de histórias apocalípticas costuma ser acompanhar, passo a passo, a degradação física AND moral da humanidade. É claro que os elementos fantásticos servem para agitar os momentos de marasmo, além de serem um excelente CHAMARIZ, mas desde A Arca de Noé a ideia de uma narrativa sobre o fim do mundo sempre vem acompanhada de uma mensagem maior, que diz muito mais a respeito da realidade do que de qualquer tipo de ficção.

Foi em mais uma dessas histórias que Stephen King pensou quando, no final dos anos 70, visitou um supermercado com seu filho, atrás de pães para hot dog. Enquanto uma tempestade se formava do lado de fora do estabelecimento, o autor começou a imaginar uma criatura pré-histórica, similar a um pterodáctilo, presa no local. Foi só chegar em casa para começar seus trabalhos do que viria a tornar-se O Nevoeiro: uma história sobre um grupo de pessoas da cidade de Bridgton, CLARO que no Maine, preso em um supermercado em meio a uma densa e misteriosa névoa. Dentro dela, toda sorte de criatura horrenda e sanguinária, só esperando para BANQUETEAR. :D

Como de praxe, tanto a névoa quanto suas criaturas eram fascinantes pedaços LOVCRAFTIANOS da mente de King, mas era no desenrolar das relações humanas, dentro do tal supermercado, que as maiores tensões surgiam. Enquanto o leitor acompanhava a luta pela sobrevivência do artista David Drayton e seu filho, desenhava-se uma nova ordem social, movida pela insegurança, pelo medo e pela manipulação religiosa. Golpe de mestre do rei.

A história foi publicada como a primeira e principal da antologia Dark Forces, em 1980, mas voltou a dar as caras em reedições de 1985 e 2007, quando enfim chegou aos cinemas. Dirigido por Frank Darabont, O Nevoeiro adaptava com altíssima fidelidade as palavras de King às telonas, construindo um filme aterrorizante com um desfecho até mesmo superior ao da obra original. Bem cotado pela crítica, o filme não conseguiu ter AQUELE sucesso com o público, indo só razoavelmente nas bilheterias mundiais — o que é pra lá de compreensível.

Lá pro início dos anos 80, a gente, o famigerado GRANDE PÚBLICO, não tava já meio saturado de histórias apocalípticas. Fast forward para a primeira década dos anos 2000 e, convenhamos, o que não faltavam eram exemplos. Adiciona aí mais 10 anos e me diz, quais são as chances de uma série, novamente adaptando o mesmo material de King, acertar?

Surpreendentemente, altíssimas. :D

Exibida aqui no Brasil via Netflix, O Nevoeiro, a série, segura a mão quando o assunto é mexer na obra de King. Ainda assim, opera mudanças que preservam o espírito e a intencionalidade da história original, ao mesmo tempo em que conferem um senso de urgência, de atualidade, que o filme de 2007 não tinha. Mais do que isso, constroi um universo em que até os elementos fantásticos, aqueles CHAMARIZES sobre os quais escrevi lá em cima, servem diretamente ao desenvolvimento dos personagens, a todo e qualquer momento.

O resultado é um drama cativante POLVILHADO de cenas repletas do mais puro horror. Pode fazer levantar as sobrancelhas de fãs mais xiitas do escritor? Pode. Mas certamente há de cativar um público muito mais amplo e conversar muito mais diretamente com as audiências de hoje do que qualquer transposição fiel de um texto de 1980 faria, incluindo subtextos sobre racismo, homofobia e misoginia que, se não acertam em cheio sempre, ao menos despertam uma boa reflexão sobre o tema.

Relocada para a cidade de Bridgeville, ainda no Maine, a trama traz como protagonista a família Copeland, encabeçada por Kevin e Eve e completada por sua filha, Alex. Em meio a problemas pessoais realmente tensos (lidados com sutileza, mas sem perder o peso) esses integrantes acabam separados depois que um misterioso nevoeiro consome toda a região que habitam. Não demora para que geral saque que tem caroço nesse angu e, bom, as coisas comecem a dar bem errado, enquanto se desenha uma conspiração que aponta para uma operação militar super-secreta do governo dos EUA.

É uma mistura de elementos presentes no texto de King com inovações — as maiores delas sendo os personagens originais e o Modus Operandi da névoa sobrenatural. Se ela guarda seres demoníacos no livro, na telinha ela materializa os maiores terrores de quem nela acaba envolto, deixando que esse fruto do medo de cada um seja também o responsável por sua ruína, numa ótima jogada do showrunner Christian Torpe.

“Eu pensei que era incrivelmente atemporal fazer uma série sobre o que as pessoas fazem quando estão cegas pelo medo”, disse Torpe à Entertainment Weekly. “Olhamos ao nosso redor, vemos o que acontece no mundo, e todo mundo está constantemente procurando por uma pessoa a culpar, ou alguém para nos conduzir à Terra Prometida. Eles encontram pessoas para odiar, seja por conta de seu gênero, sua raça ou fé. Esses são elementos nos quais mergulhamos – como o medo impulsiona coisas como a misoginia e a homofobia”.

Para isso, o primeiro capítulo da série não tem pressa para estabelecer algumas profundas cicatrizes nos principais personagens – do tipo que devem ser abertas assim que as coisas ficarem mais complicadas. É uma experiência gratificante para o espectador acompanhar o pai de família moderno, bonzinho e liberal, ter seus valores e seus privilégios testados; a mãe, constantemente julgada e repreendida por uma sociedade machista, enfim revidar; a filha, quietinha e respeitosa, se rebelar. Isso sem falar nos demais personagens.

Se Morgan Spector, Alyssa Sutherland e Gus Birney mandam MUITO bem como pai, mãe e filha, boa parte do louvor fica também com Darren Pettie, que vive o desiludido e descontrolado xerife da cidade, Frances Conroy, como a vizinha natureba que vira messias às avessas, e Dan Butler, como um padre em crise. Ah, o jovem Russell Posner é outro que surpreende como o problemático Adrian Garff, confidente da jovem Alex Copeland.

Com apenas 10 episódios, O Nevoeiro flui tranquilamente como uma história de sobrevivência sob situações extremas polvilhada de bons personagens, ao mesmo tempo em que faz jus ao legado de Stephen King em um dos anos mais repletos de adaptações do mestre nos últimos tempos. Vale a conferida, muito embora não seja perfeita, primeiro por ter muitas de suas reviravoltas telegrafadas e segundo pelo desfecho de um personagem em específico. Falar mais incidiria em ESTRAGADEIROS. :/

Depois que Under the Dome acabou sendo aquele DESASTRE que foi, O Nevoeiro surge como uma excelente opção para quem curte uma boa história de fim de mundo nas telinhas, inspirada no grande mestre Stephen King.