O OUTRO faroeste genial do diretor de Logan | Judão

Uma década antes da última cruzada do Wolverine, James Mangold fez Os Indomáveis

Logan é um faroeste. Como se não bastassem o cenário árido, o sotaque CAIPIRESCO do Donald Pierce vivido por Boyd Holbrook e a trama à la Imperdoáveis, o diretor James Mangold ainda faz questão de deixar isso claro colocando seus personagens na frente de uma TV que exibe o clássico Os Brutos Também Amam, de 1953, especificamente na cena que não só resume, como também sintetiza, a despedida do carcaju de Hugh Jackman.

É uma sacada que só poderia vir de um verdadeiro fã desse gênero, outrora considerado “morto”. Um cara com experiência em ressuscitá-lo, conquistada com muita paixão há praticamente uma década.

Foi em 2007 que o cineasta, recém-aclamado por seu trabalho no premiadíssimo Johnny & June, viu seu projeto dos sonhos, em gestação desde 2003, enfim chegar aos cinemas: uma refilmagem homônima (pelo menos nos EUA) do pouquíssimo conhecido faroeste 3:10 to Yuma (aqui, Galante e Sanguinário), de 1957.

Estrelado por Christian Bale e Russell Crowe, Os Indomáveis, como acabou batizado no Brasil, deixou clara a capacidade de Mangold em revitalizar o arquétipo do AMERICAN WESTERN enquanto honra sua essência, uma visão crítica dos fundamentos da sociedade estadunidense, por meio de um quadro moral de tons cinzentos. Tudo isso muito antes do Professor X soltar umas F-BOMBS em 2029.

No filme, Bale é Dan Evans, um pobre ex-combatente da Guerra Civil dos EUA que perdeu uma perna no conflito e vive com sua esposa e dois filhos em uma fazenda alugada. Atingida pela seca e pelos capangas do locatário, que não vê o dinheiro do aluguel há um tempo, ela nunca esteve em pior situação – TAMPOUCO a família. Evans é visto como um fraco, um covarde, pelo seu filho mais velho (Logan Lerman, o Percy Jackson), e sua esposa já não enxerga qualquer vestígio do amor e da felicidade que eles um dia já tiveram.

Certa ocasião, depois de ter seu celeiro incendiado a mando do dono da fazenda, Dan e os meninos partem em busca das cabeças de gado que fugiram das chamas. No caminho, acabam se deparando com um roubo a uma diligência da Companhia Ferroviária, cometido pelo lendário criminoso Ben Wade (Russel Crowe) e sua gangue de foras da lei renegados, encabeçada pelo seu braço-direito, o psicótico Charlie Prince (o camaleônico Ben Foster). O pistoleiro avista o trio, chega até a trocar uma ideia com eles, mas não vê ameaça e deixa que sigam seu caminho. Levando seus cavalos, claro.

Wade e seu grupo, então, seguem em direção da cidade de Brisbee, de onde partiu a diligência, para comemorar e dividir os ganhos. Evans e seus filhos vão ao auxílio do único ESCOLTADOR que sobreviveu ao ataque, um velho pistoleiro vivido pela lenda Peter Fonda, e logo recebem a companhia de um dos figurões da ferroviária (Dallas Roberts) e mais alguns policiais, devidamente sacaneados por Charlie Prince.

Informado que Wade e todo seu dinheiro foram parar em Brisbee, o tal do figurão leva Evans, os homens da lei e o personagem ferido de Fonda à cidade. Esse último recebe atendimento do veterinário local (o sempre LEGALPACARAI Alan Tudyk) e o fazendeiro sem esperanças vai tentar negociar sua dívida com o dono das terras que ocupa. Ao levar uma negativa e ser humilhado a céu aberto, ele decide pegar uma espingarda e partir para cima do cara, mas acaba encontrando Wade, que ficou para trás se divertindo com a dona dum bar local. Movido por um senso de moral e uma falta de noção de perigo admiráveis, Evans enrola o bandidão até que os homens da ferroviária o encurralem e prendam.

Sem tempo para recorrer a outra opção, o figurão oferece uma boa grana – 200 doletas – para cada um que topar escoltar Wade até a cidade de Contention, a uma boa distância dali, onde ele será colocado no trem das 3h10 para a prisão de Yuma (quem diria, né?). Desesperado por grana, Evans topa, junto do baleado Fonda, o veterinário (!), e um dos capangas que infernizavam o fazendeiro.

Para despistar Charlie Prince e os homens de Wade e ganhar tempo para que o grupo ~disfuncional consiga levá-lo à outra cidade, Evans envolve sua família num esquema – a partir do qual o filme passa a ficar mais e mais interessante. Num tenso jantar na residência dos Evans, Wade joga todo seu charme, seu magnetismo e sua aura ~envolventemente intimidadora para cima da esposa e dos filhos do fazendeiro, reacendendo brevemente a crise matrimonial dos personagens e cativando uma admiração distorcida do seu filho mais velho.

O plano dá certo, e tem início uma jornada de gatos contra ratos, na qual os ratos estão levando um gato como prisioneiro. Wade é uma força incontrolável da natureza, um verdadeiro filho do Oeste: brutal, implacável e, ainda assim, profundamente carismático. De longe, muita areia para um grupo de capatazes improvisados e mal pagos.

Com pinta de quem se divertiu muito, Crowe o interpreta com a mesma determinação de seus melhores papeis, e um estilo ainda mais magnético que o normal. Ainda assim, há certa doçura – ou seria um “cansaço de maldade”? – que começa transparecer no personagem ao longo da jornada.

Como o objeto imovível que encontra a força imparável, Bale está do outro lado no papel de um homem quebrado, fragilizado, mas imbuído de uma nobreza, um senso de justiça, honra e uma resiliência que, ao longo do filme, apagam toda a pena que você começa sentindo por Dan Evans. E ainda a convertem em pura admiração. Esse é um homem de quem a vida tirou tudo – e ameaça tirar a única coisa que restou, sua família – disposto a se agarrar com todas as forças, talvez pela primeira vez em toda sua existência, a uma chance de acertar as coisas.

Esse sacrifício, bem como seu valor, se materializam no personagem de Logan Lerman e em sua relação com o pai. Deixado em casa antes da jornada para escoltar Wade, o garoto renega o escanteio e parte de encontro ao grupo, chegando a tempo, inclusive, de salvá-los. É um MENINOTE, ainda sem ideia de quem é ou será, mas com o fogo e a coragem de fazer o que é necessário. De uma certa forma, é ele, não só enquanto dependente, mas enquanto inspiração, que leva Evans a topar tudo para salvar sua família e, mais ainda, reconquistar sua admiração.

Dessa forma, o filme trabalha questões universais de autoaceitação, independência familiar e outros problemas que costumam, principalmente, assolar relações entre pai e filho. É algo poderoso, diferente em sua raiz do que é abordado em Logan, mas de certa forma, ANÁLOGO.

Além de não contar com a deficiência física de Dan Evans e muito menos toda a trama relacionada ao seu filho e boa parte da jornada feita para levar Wade ao trem prisional, o filme original conta com um desfecho bem mais CLASSIC HOLLYWOOD que o remake, mais feliz e romantizado. Como o próprio Mangold definiu em entrevista ao Coming Soon, em 2007: “Acho que é uma das partes mais fracas do original e uma das mais implausíveis, na realidade. Nós achamos que estávamos fazendo um comentário no que sentimos que seria um final mais realista ao que poderia realmente acontecer”.

E fizeram.

Enquanto no filme em preto e branco o desfecho se dá naquela clássica pegada RIDING INTO SUNSET, em meio a sorrisos e acenos para as pessoas amadas, o desfecho do remake, também em outro paralelo a Logan, é absolutamente devastador e infinitamente mais marcante. E basta. Mesmo que doa. Porque fica na mente; exige DIGESTÃO. Pede para ser lembrado e relembrado, muitas horas depois de encerrada a ~projeção.

Além de duas forças irresistíveis que se rendem uma à outra, Evans e Wade são como um reflexo: similar, mas diferente. Ainda assim, um poderia facilmente ser como o outro, tivesse a vida tomado outros rumos – e isso gera um respeito mútuo. Ambos são vítimas do impiedoso Oeste, que reagiram de formas diferentes aos seus ataques, mas que são, no final das contas, elos mais fracos na sua corrente.

Logan é uma obra brilhante, de profunda e RESSOANTE humanidade, que toca em diversos assuntos pertinentes ao ontem, ao hoje e o amanhã, tudo enquanto mostra o poder, a importância e a amplitude do que é FAMÍLIA. E dos laços que se constroem nela e a partir dela.

Mas antes de Logan, houve Os Indomáveis. Um filme que toca nesses mesmos pontos, duma forma diferente, mas igualmente emocionante. Um filme também estrelado por dois grandes atores. Também ARREDONDADO por um elenco secundário perfeito. Também dirigido por James Mangold.

Um filme que você TAMBÉM precisa assistir.