O pop indie e cheio de vida da Alice Merton | JUDAO.com.br

Sim, é a mulher que canta No Roots. Mas também é a mulher que lançou recentemente um disco de estreia delicioso, pop do jeito que deveria ser mas igualmente pop de um jeito que você não esperaria ouvir

Neste texto aqui, a gente tinha falado sobre como a coisa do rock independente, do “faça você mesmo”, sem a ajuda do mainstream, acabou gerando um inexplicável subgênero musical que agrega coisas BEM diferentes debaixo de um mesmo chapéu: o indie. “O indie rock era algo não tão palatável para uma grande gravadora, era o som que os vovôs sentados nas poltronas de presidente das majors não entendiam e diziam que não era música”, explicou pra gente o Marcelo Costa, editor do site Scream & Yell.

Ele relembra, no entanto, que com a explosão do Nirvana no começo dos 90, muita gente que era rock alternativo, o tal do indie, foi parar no mainstream, e daí tudo se confundiu, pois a sonoridade indie virou mainstream. No fim, Marcelo defende que mais do que uma expressão que ajude a definir um tipo de som, dá pra chamar de “indie” quem mantém esse espírito de independência artística que “contamina” a música e a faz soar independente, estando numa grande gravadora ou não.

É exatamente isso que a gente sente ao ouvir Mint, o recém-lançado disco de estreia da ótima Alice Merton, que completa 26 anos agora em 2019. Se você vai na Wikipédia, por exemplo, eles categorizam o álbum como “dance-pop”. Já na biblioteca musical do All Music Guide, eles optam pelo “pop alternativo” — mas quando falam da cantora, arriscam chamar de “pop progressivo”. No fim, é até legal que estejamos diante de uma obra que é difícil de categorizar.

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Mint é uma delícia de pop. É pop pra caralho, é dançante, com uma batelada de refrões que dão vontade de cantar junto. Mas, ao mesmo tempo, tem uma aura cool, diferente, uma textura roqueira e contestadora, de quem fez tudo num estúdio improvisado na garagem. Impossível chamar APENAS de pop porque tá longe, muuuuuuito longe, daquilo que toca nas pistas de dança cheias de neon de uma Madonna, Lady Gaga, Britney Spears da vida. E sem julgamento de valores, hein?

Mas o pop da Alice soa como algo que tocaria numa pista pequena, apertada e quase caótica de um clube semidesconhecido da Rua Augusta, em São Paulo. É pop que vai buscar referências retrô, anos 80, um tantinho dos anos 90, mas sabe bem como fazê-lo e ainda sim soando mdoerno. É pop com sabor urbano, contemporâneo, com um charme diferente. E a voz pouco usual da cantora, um sotaque esquisito que não tem aquela limpeza superproduzida, também ajuda neste clima de agradável estranheza.

Tá tudo certo, ainda que não esteja.

Eu conheci de fato Dona Alice tem alguns meses, quando meu filho de 8 anos chegou cantarolando No Roots, canção lançada no fim de 2016 que ele conheceu numa aula de inglês da escola. Com uma pronúncia ainda vacilante, demorou pra gente descobrir do que se tratava. Quando finalmente veio Alice Merton no Spotify e ele disse “sim, é essa aí mesmo”, a família toda se apaixonou.

Eu, que sou do hard rock/metal; minha esposa, que é bem mais country/blues/soul; e minha filhota, que do alto dos seus 15 anos anda mais na pegada otaku das canções de abertura dos desenhos japoneses. No Roots, que fala sobre a dificuldade de encontrar suas raízes tendo nascido na Alemanha e criada se mudando para o Canadá, Estados Unidos e Inglaterra, quebrou barreiras e conquistou todo mundo aqui.

Aqui, claro, mas também em um monte de lugares, tocando loucamente nas rádios, dominando o top 10 de diversos países europeus e entrando de cabeça no Billboard Hot 100, lá na Terra do Tio Sam. Fez todo mundo ficar esperando por este álbum, ao mesmo tempo em que deixou os cínicos se perguntando: afinal, seria ela daquelas artistas do tipo one hit wonder? Acertou uma e vai se ancorar nesta faixa pro resto da vida?

Olha só, No Roots é claramente um destaque em Mint. Mas tá longe de ser o único — e é curioso que justamente outra das grandes canções da bolacha, Why So Serious, seja justamente Alice apontando o dedo e questionando esta galera que achava que esta era uma arma com uma única bala no gatilho, com um baixão meio funky vibrando num clima tipo “o que aconteceria se aquela sonoridade da Motown ganhasse uma coberturazinha eletrônica”. Funciona lindamente.

Pra deixar claro que não deve nada pra ninguém e pode trazer múltiplas influências ao seu pop, Alice abre Mint com um riff de guitarra sacana e envolvente, em Learn To Live, que tem uma pegada roqueira direta mas que desemboca logo numa vibrante sequência feita pra botar fogo na pista. É o tal do indie pop que a gente amaria ouvir no clube mas também em casa, pra servir de trilha sonora pra limpeza geral. Ou quem sabe pra embalar um dia pegando sol fora de casa. É um pop, antes de tudo, bastante iluminado, nada sombrio. Mas uma luz natural, daquela que entra pela janela.

Este é também o clima de Lash Out, um power pop cheio de energia, sincopado, de ritmo cavalgado, pra bater o pé, com ar de libertação, de quem quer gritar “chega!” e se dar ao luxo de ter um dia de fúria. É pra rasgar a fantasia. Talvez seja, aliás, o exemplar mais genuíno disso que eu tô chamando desde o começo deste texto de “pop indie”, saca? Ao mesmo tempo que é uma faixa cheia de luz e energia, ela fala de um jeito que seria muito estranho ver uma outra artista daquilo que se convencionou entender como POP, aquele, ter a coragem de fazer.

Mint ainda tem espaço pra Funny Business, pequena pérola que é um daqueles momentos meio Lily Allen — alguém com quem Alice, aliás, talvez fosse se dar muito tempo numa futura parceria, um outro alguém que corre por fora, que está no mainstream mas ao mesmo tempo não está. E também rola Homesick, um inteligente combo de piano, palminhas e uma guitarra eletrônica que dão um tom de uma canção não sobre saudades de casa, de um lugar físico, mas sim da casa que se formou no peito de uma pessoa amada cuja paixão surgiu de maneira totalmente inesperada.

Como um bom disco pop, claaaaaro, Alice não esquece daquela inevitável balada. Só que Honeymoon Heartbreak também tem esta adorável atmosfera de esquisitice, de quem curte uma dor de cotovelo não sentado num piano diante de milhares de pessoas e se esvaindo em lágrimas, mas sim meio sozinho, sentado numa calçada empoeirada, com uma garrafa de cerveja pela metade na mão, cantando pra si mesma “my homeless heart is still hoping”.

A casa, o lar que é não um lugar mas sim onde você e aqueles que ama estão, não importa onde esteja, é um tema que fica bastante presente neste disco, aliás.

Mint é pop. E ponto. É experimental na medida em que consegue ser, subverte alguns clichês aqui, entorta outros ali. Mas sem a intenção de soar genial, disruptivo, cabeça. É um pop diferente, pra quem nem sabia que podia dizer abertamente que gosta de música pop. É bem-humorado, alto astral, mas não daquele otimismo cego, babaca, quase insuportável. É um pop que versa sobre e também soa como a nossa vida: estranha, cheia de caminhos inesperados, que às vezes dá vontade de gritar. Mas que tá aí pra gente viver como dá e como a gente consegue. Um dia de cada vez. Uma música depois da outra.