O Quarteto Fantástico vai voltar aos quadrinhos da Marvel | JUDAO.com.br

Três anos depois, a primeira família das HQs da Casa das Ideias vai se reunir e ganhar em agosto um novo gibi mensal, escrito por Dan Slott e com arte de Sara Pichelli

Demorou mais do que a gente imaginava — mas, vamos ser honestos, todo mundo meio que já sabia que, uma hora ou outra, o Quarteto Fantástico ia voltar aos gibis da Marvel. “Nós sempre soubemos que o Quarteto voltaria”, confessou, em um vídeo publicado no Twitter da Marvel, o seu novo editor-chefe, C. B. Cebulski. “Só estávamos esperando o momento certo e o time criativo adequado para este retorno”.

Bom, então aconteceu: em Agosto, como parte do tal do Fresh Start da editora, o Quarteto vai se reunir mais uma vez em um novo gibi mensal, o primeiro desde Fantastic Four #645, publicado em Abril de 2015. E vai ser a formação original, Senhor Fantástico, Mulher-Invisível, Coisa e Tocha Humana, nada daquelas formações tapa-buraco tipo Homem-Aranha, Wolverine, Hulk e Motoqueiro Fantasma (já aconteceu, acredite).

O tal time criativo será curiosamente formado por dois egressos do Homem-Aranha. Nos roteiros, ninguém menos do que Dan Slott, o cara que ficou uma década escrevendo o Cabeça de Teia e que, além do Quarteto, também será o responsável pela nova fase do Homem de Ferro. E a arte ficará a cargo de Sara Pichelli, cujo traço jovem, moderno e cheio de dinamismo ficou famoso graças à sua participação, ao lado de Brian Michael Bendis, no gibi de Miles Morales.

“Dan é um grande fã do Quarteto”, afirma Cebulski. “Mas ao mesmo tempo em que ele tem esta habilidade que é uma memória quase enciclopédica de tudo que aconteceu nos gibis da Marvel, incluindo o Quarteto Fantástico desde o primeiro número, ele respeita o passado mas com foco em novas ideias, um novo olhar e uma pegada diferente com este monte de coisas que nunca vimos antes”.

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De fato, o roteirista afirma ao New York Times que o Quarteto foi um dos primeiros gibis que leu na vida, naquela fase de Stan Lee e Jack Kirby quando a equipe conheceu o Galactus, em 1965. “Minhas aventuras como leitor da Marvel começaram com aquele Reed Richards surtado, o Vigia e o Surfista Prateado. Eu quis isso durante tanto tempo”.

O roteirista planeja escrever pelo menos 55 gibis do Quarteto Fantástico, o que garantiria que ele os levaria pelo menos até a edição de número 700, por mais que seu trabalho comece numa edição “rebootada”, que se inicia mais uma vez a partir do número 1.

Olha só, você pode ser da trupe que ODEIA o Homem-Aranha do Slott. Eu juro que entendo. Ou quase. Mas pra ter certeza de que ele tem o tom certo pras HQs do Quarteto, basta ler a deliciosa passagem dele à frente do Surfista Prateado, uma viagem cósmica de ácido com a arte incrível de Mike Allred. Exploração espacial com fartas doses de pseudo-ciência? Temos sim.

Aliás, por falar em arte, Sara está tão empolgada quanto o colega de trabalho. “Mal posso esperar pra desenhar um monte de personagens, mas tem um em particular que não posso revelar ainda. Vocês vão sacar quem são os meus favoritos quando estiverem lendo a revista”, afirma ela. “O jeito que ela usa a linguagem corporal ajuda a contar muito bem uma história”, opina o editor-chefe. “O Quarteto não é um time fácil de se desenhar. O Coisa é aquele cara enorme feito de pedra, Reed pode se mover em todas as direções, o Johnny está em chamas e a Sue, mesmo quando está invisível, você precisa fazer a sua presença ser sentida nos painéis. Sara consegue fazer tudo isso”.

Cronologicamente, o time está separado desde o final do megacrossover Guerras Secretas. Enquanto Johnny e Ben foram enviados para a chamada Prime Earth, a Terra 616 reformada e com pequenos detalhes/personagens vindos de outras realidades, Reed e Sue, ao lado dos filhotes Franklin e Valeria e dos brilhantes alunos da Fundação Futuro, além do Homem-Molecular, foram dar um rolê pelo multiverso, ajudando a consertar e restaurar a realidade.

Por aqui, enquanto o lendário QG do Quarteto, o Edifício Baxter, se tornava a base de operações das Indústrias Parker (o conglomerado tecnológico de um certo Peter Parker, prestes a rivalizar com aquele de seu antigo ídolo Tony Stark), Ben e Johnny seguiram caminhos diferentes. O Tocha se tornou integrante de uma equipe dos Vingadores liderada pelo Capitão América Steve Rogers, cujo objetivo era misturar humanos, mutantes e inumanos em operações conjuntas para mostrar ao mundo que a integração é possível — e aproveitou para passar mais tempo ao lado da Família Real dos Inumanos, o que incluiu até um breve relacionamento com a Rainha Medusa (considerando que, durante algum tempo, ele foi namorado de sua irmã, Crystalis, a coisa ficou realmente complicada...).

Já o Coisa foi parar no time dos Guardiões da Galáxia mas, depois do racha ideológico de Guerra Civil II, acabou ficando novamente sozinho, tornando-se um agente independente trabalhando para a SHIELD, numa investigação envolvendo um antigo inimigo.

Recentemente, no entanto, Johnny e Ben decidiram começar a trabalhar juntos de novo — explorando o multiverso para honrar a memória de Reed e Sue, descobrir seu paradeiro e, claro, para descobrir porque seus poderes concedidos pela radiação cósmica estão desaparecendo sem a presença de seus outros dois familiares ao seu lado. Mas este novo gibi, Marvel Two-In-One, escrito por Chip Zdarsky, está garantido e deve continuar mesmo quando Fantastic Four #1 enfim chegar às lojas.

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Uma coisa que vai ser interessante de ver é o reencontro deste Quarteto com o seu arqui-inimigo, um certo Victor Von Doom. Principal responsável pela bagunça do multiverso marvete em Guerras Secretas, depois de roubar o poder dos Beyonders e agir como uma espécie de deus onipotente, quando a Terra voltou ao seu normal (ou quase isso), Victor abandonou a identidade de Doutor Destino. Com o rosto restaurado (transformado em uma espécie de clone de Vincent Cassel, fica a dica Fox), ele se tornou uma espécie de anti-herói. Chegou até a assumir, junto com Riri Williams, a identidade de Homem de Ferro por um tempo, salvando a vida de Maria Hill, da SHIELD, e também do próprio Ben Grimm.

Embora seus motivos ainda sejam bastante misteriosos, Von Doom parece estar, de verdade, tentando mudar de vida e fazer “a coisa certa”, combinando seus vastos conhecimentos científicos com suas imensas habilidades místicas. E tem mais: o ex-monarca da Latvéria é coadjuvante frequente no gibi Invincible Iron Man, escrito por Bendis, e existe uma chance de que Victor seja o pai do filho da cientista Amara Perera. Seria uma mudança ainda mais radical para o personagem, adicionando uma camada extra de complexidade a um sujeito que, anos atrás, não apenas ajudou no parto da filha de seu maior inimigo como ainda foi responsável por seu batismo: Valeria.

Quando ESTE Victor se deparar com o retorno de seu eterno nêmesis, será que vai pirar diante de Richards? Ou será que é o patriarca dos Fantásticos que vai dar uma surtada ao descobrir o tanto que Victor mudou — ainda aparentemente? Coloque nesta mistura ainda o fato de que o Reed Richards vilão, aka O Criador, egresso do Universo Ultimate, veio parar na Terra 616 tal qual o nosso querido Miles Morales, e o caldo deve engrossar PRA VALER.

Definitivamente, este é o tipo de drama com o qual Dan Slott sabe lidar MUITO bem.

Por falar em DRAMA, vale lembrar que o sumiço do Quarteto enquanto equipe se deu quando aquela tenebrosa reinterpretação cinematográfica chegou aos cinemas. Coincidência? Muita gente continua defendendo, até hoje, que não, nem a pau. O Bleeding Cool, por exemplo, defende com unhas e dentes que suas muitas fontes foram claríssimas: aquele era um momento de treta pesada entre a editora e a Fox, que detém os direitos do Quarteto nas telonas, e portanto a Marvel estaria “boicotando” a Fox, sem dar a ela uma potencial “vitrine” nas comic shops e afins.

“Não acredite em tudo que lê na internet”, cravou Axel Alonso, editor-chefe na época. A gente até falou sobre o assunto de maneira bem mais longa e detalhada aqui neste texto, explicando que, neste caso, 2 + 2 não é 4 — porque, bom, há muitos anos as vendas do Quarteto vinham performando bem abaixo do esperando. “A Marvel Comics não rasga dinheiro, precisa dar lucro independente da divisão de filmes e nunca deixaria o Quarteto Fantástico de lado se as vendas fossem realmente boas. Seja com ou sem a Fox”, nós mesmos explicamos, em 2015.

“O Quarteto Fantástico é um título e um conceito que tem muita importância histórica no Universo Marvel mas, para o leitor de hoje, não fala da mesma forma que os X-Men, os Vingadores ou mesmo os Guardiões da Galáxia”, afirmou o editor executivo da Marvel, Tom Brevoort, em entrevista pro Newsarama em Janeiro de 2016, antes mesmo da conclusão de Guerras Secretas.

Porém, todavia, contudo... Jonathan Hickman, que escreveu o Quarteto AND foi o responsável por Guerras Secretas, tem uma visão completamente diferente. “Família, futuro e exploração do desconhecido são conceitos atemporais, universais. Claro, eles podem ser nostálgicos, mas não PRECISAM ser. Este é o brilhantismo de um monte dos primeiros personagens da Marvel, criados por caras que amarraram temas que resistem ao tempo”, disse ele, também pro Newsarama. “Tem algumas exceções, claro, mas a maior parte daquilo que a Marvel tem é altamente maleável e facilmente explorável. Eu defenderia que a execução é o elemento crítico necessário para que qualquer gibi da Marvel funcione — e com o Quarteto Fantástico não é diferente”.

Só que Hickman foi além neste papo e deixou claro que, sim, era de conhecimento comum que a Marvel não estava publicando o Quarteto por discordar da Fox. “Isso me tira do sério, mas eu entendo completamente porque não é como se fosse uma coisa inesperada. A Fox precisa fazer um trabalho melhor aqui”. Para ele, a razão poderia ser até ao contrário, não necessariamente a Marvel querendo boicotar a casa da raposa, mas sim a Marvel retaliando porque a Fox não ajudou em nada. “O reboot foi um fracasso de crítica e público, o que reflete mal nas vendas de gibis da editora. Tanto é que, bom, eles ainda continuam publicando um monte de gibis dos X-Men, mesmo com a Fox controlando os direitos cinematográficos da franquia”.

A ligação entre “filme bem-sucedido nos cinemas” e “gibis que vendem obscenamente bem” também não é exatamente uma equação tão simples quanto Hickman parece acreditar, mas de qualquer forma ele encerra sua declaração, lá em agosto de 2017, com uma frase bastante curiosa, quando perguntado sobre o que precisaria acontecer pra Marvel trazer o Quarteto Fantástico de volta aos gibis: “A Disney provavelmente vai precisar comprar a Fox”.

Corta pro dia 14 de Dezembro. E sim, a Disney foi lá e comprou a Fox. E, senhoras e senhores, olhaí o Quarteto Fantástico de volta pro mundinho dos gibis.

Coincidência? Sei lá. Mas que eles salvaram dois Tochas e o Hickman podia dizer, assim, aleatoriamente, uns seis números pra gente dar uma corrida ali na lotérica, rapidão...