O que os bonecos fazem quando ninguém tá olhando? A Vila Sésamo não quer nem saber. | JUDAO.com.br

Empresa do Elmo e do Garibaldo mete um processinho na produtora do novo filme da Melissa McCarthy, focado no público adulto, por “abusar” da reputação dos famosos bonecos infantis

Em sua visita já histórica ao nosso ASTERISCO desta semana, Fernando Gomes, criador e intérprete do ICÔNICO Júlio do Cocoricó, revelou um desejo: apesar de ter passado décadas dedicado ao público infantil, ele queria ter a chance de contar uma história com bonecos pros adultos. Tipo o que rola no musical americano Avenue Q, de Robert Lopez e Jeff Marx, aquele que é uma parábola sobre as ansiedades de sair da infância e entrar na dura realidade das responsabilidades e boletos.

Mas enquanto não realizamos o sonho (?) de ver o Júlio saindo da fazenda e vindo pra cidade grande tentar a carreira musical e tirando umas modas de viola na porta do metrô pra sobreviver, tem filme levando os clássicos bonecos do IANQUES para uma ambientação bem mais adulta, com sexo, palavrões e bebedeira em meio à investigação de uma série de crimes. Tipo uma mistura de Uma Cilada Para Roger Rabbit com Máquina Mortífera e uma pitada, obviamente, de Muppets.

Quando saiu o primeiro trailer de Happytime Murders, estrelada por Melissa McCarthy, teve gente que amou, teve gente que odiou, teve gente que surtou. Mas quem se sentiu “ultrajada”, de fato, foi mesmo a galera de uma das maiores franquias infantis da cultura pop, a Vila Sésamo de Elmo, Garibaldo e do Come-Come, também conhecido por aí como Cookie Monster.

“O filme busca capitalizar sobre a reputação e a boa vontade do programa Vila Sésamo”, é o que argumenta o PROCESSINHO que os advogados da Sesame Workshop, organização educacional sem fins lucrativos que atua em mais de 150 países, mandaram na testa da produtora STX Productions LLC. E eles já começam pela TAGLINE do filme, aquela que outrora chamei em minha passagem pelos bastidores do cinema BR de “frase sinóptica”, que é direta e reta no pôster: “NO SESAME. ALL STREET”.

Não é como se eu precisasse te dizer isso, mas no processo — agendado para ser ouvido por um juiz ainda esta semana — a Sesame Workshop afirma que o vídeo e, portanto, o filme derivado dele, ainda a ser lançado, é “explícito, profano, misógino, violento, com sugestão de uso de drogas, sexo e até com bonecos ejaculando”.

A empresa alega ainda que, além de fazer “deliberadamente” clara sugestão à Vila Sésamo em muitos momentos de sua campanha de marketing, com uma associação direta que portanto lhes causaria muitos danos de imagem, o filme permitiria que, de alguma forma, um pai desavisado se confundisse e levasse os filhotes pra assistir por conta da presença de bonecos.

Olha só, esta coisa de “ah os pais podem levar os filhos por engano”, que é uma bobagem sem tamanho, do tipo daquela vez em que um dos nossos brilhantes legisladores resolveu levar as crias para ver o Ted nos cinemas e saiu horrorizado, querendo proibir e processar todo mundo que via pela frente. Se você é pai e decide levar suas crianças para ver um filme, ora ora, é de se esperar que, em seu papel de adulto responsável, você minimamente se informe do que diabos trata aquela produção. E quem prestar um mínimo de atenção no tal do marketing deste The Happytime Murders, por exemplo, já vai sacar que NÃO é filme pra criança, por mais que tenha bonecos fofos. PONTO. Ou você vai carregar o moleque de 3 anos de idade pra ver Akira porque “já que é desenho animado, é pra criança”. NÃO, NÃO, né?

E olha que eu ainda nem comecei a falar da informação da classificação indicativa, que tá escancarada, lá e cá, em tudo quanto é material dos filmes. Não tem desculpa.

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The Happytime Murders se passa em um mundo no qual humanos e bonecos co-existem, muito embora os seres de pano e espuma sejam considerados cidadãos de segunda classe. Quando começa uma série de crimes contra os antigos participantes do clássico programa televisivo infantil The Happytime Gang, todos bonecos, a policial vivida pela Melissa vai trabalhar em parceria com seu antigo parceiro, um ex-detetive da polícia de Los Angeles, agora investigador particular, um boneco azulado mal-educado, alcoólatra e com pouquíssimo respeito pela autoridade.

Nem precisa saber juntar 2 + 2 pra sacar que a The Happytime Gang é claramente uma paródia da Vila Sésamo. Mas... “Nós estamos muito contentes com as reações iniciais ao filme e como o trailer vem sido recebido pelo público”, afirmou, via comunicado oficial, Fred, Esc., advogado da STX Entertainment, a respeito da exibição da versão sem cortes do vídeo tanto na internet quanto antes das cópias de Deadpool 2 (nada mais apropriado, aliás). “Enquanto estamos desapontados que a Vila Sésamo não compartilha da mesma animação que a gente, estamos confiantes da nossa posição legal”. AH SIM, achamos importante dizer aqui que o tal Fred, advogado da SFX, TAMBÉM É A PORRA DE UM BONECO.

Mas o detalhe mais curioso da parada toda é que o diretor de The Happytime Murders é um senhor de nome Brian Henson — que já dirigiu genuínas fofuras como O Conto de Natal dos Muppets (1992), Os Muppets na Ilha do Tesouro (1996) e uma cacetada de episódios do recente Sid, o Cientista. E que, caso o sobrenome não tenha te entregado ainda, é FILHO de ninguém menos do que Jim Henson, o lendário criador dos Muppets e também dos bonecos todos da Vila Sésamo. Aliás, a Jim Henson Company até ajudou na produção desta sátira/paródia/como queira chamar.

Em 1969, Jim foi procurado pela equipe da produtora Joan Ganz Cooney para trabalhar neste programa de TV visionário para o público infantil numa emissora pública, a PBS (Public Broadcasting Service). Além de desenvolver os personagens e interpretar alguns deles, como o Ênio (aquele que fazia dupla com o Beto, vivido por Frank “Yoda” Oz), Henson chegou a usar a Vila Sésamo como balão de ensaio para algumas de suas criações como Caco, o Sapo, seu alter-ego e apresentador do The Muppet Show que estrearia só em 1976.

Mas assim como os direitos dos Muppets foram anos mais tarde vendidos pra Disney (talvez até nós tenhamos sido vendidos pra Disney e não saibamos ainda), os direitos sobre os personagens da Vila são de propriedade da Sesame Workshop. Até o momento, a empresa mantida por seus herdeiros é dona apenas dos bonecos da série Fraggle Rock, conhecida por aqui como “A Rocha Encantada”.

Vale lembrar ainda que os próprios Muppets foram, em 2015, estrelas de uma série de vida curta no canal ABC com total foco no público adulto, um programa metalinguístico com uma pegada de The Office, um falso documentário que registrava o dia-a-dia de um talk show comandado pela porquinha Piggy e no qual seus amigos trabalhavam em diferentes cargos, como roteiristas e produtores. Um programa que, aliás, foi alvo da ira da associação One Million Moms — aquela mesma que, quando descobrir ESTE filme, deve fazer uma barricada na frente dos principais cinemas. Mas ah, espera que não vai demorar muito...

The Happytime Murders, que tem ainda no elenco Maya Rudolph, Elizabeth Banks e Joel McHale, e tem estreia prevista nos EUA pro dia 17 de Agosto.