Ô, Scarlett Johansson... Me ajuda a te ajudar, amiga! | JUDAO.com.br

Depois de uma resposta péssima ao ser questionada sobre ser um homem trans no cinema, a atriz mostra cada vez mais que, assim como a maioria Hollywood, não está nem aí para representatividade REAL.

Todo mundo sabe que representatividade é importante pra caralho, isso tá cada vez mais óbvio e claro, mas Hollywood ainda tropeça nessa história. Falta vontade, mesmo. E nessa brincadeira vemos coisas como personagens femininas que servem só de enfeite, representação fetichizada OU demonizada de pessoas LGBTQ+, estereótipos racistas e tudo mais.

Em 2017, nós acompanhamos uma discussão grande envolver Scarlett Johansson. Ela foi escolhida para interpretar Major Motoko na adaptação de Ghost in the Shell. No mangá original, essa protagonista é, assim como as outras pessoas da história, japonesa — caso CLÁSSICO de whitewashing, que é o nome que damos para a prática de substituir e apagar outras etnias com pessoas caucasianas.

No meio dessa polêmica, Scarlett resolveu se pronunciar. Em entrevista à Marie Claire, ela afirmou que nunca pensou “em interpretar uma pessoa de outra raça. Diversidade é importante em Hollywood, e eu jamais gostaria de fazer algo que fosse ofensivo.” E completou: “Ter uma franquia com uma protagonista feminina liderando tudo é uma oportunidade tão rara”. De um jeito BEM genérico, ela resolveu usar o feminismo para tentar aplacar esse problema e mostrar que PELO MENOS era uma mulher ali. E isso foi feio.

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Nessa semana, conhecemos o mais novo projeto da atriz: ela será Dante “Tex” Gill, no filme Rub & Tug. Dante existiu de verdade, era um homem transsexual que faleceu em 2003 e estava envolvido em alguns crimes de prostituição nos anos 80. E aí temos um novo problema: Scarlett Johansson não é um homem trans. Ontem, quando perguntada sobre MAIS UM personagem que ela topa fazer E que apaga uma identidade, ela disparou por meio de seu representante: “Diga para que eles peçam um comentário para os agentes de Jeffrey Tambor, Jared Leto, e Felicity Huffman.”

Ela se referiu a três artistas que interpretaram mulheres trans. Jeffrey fazia Maura Pfefferman em Transparent (e foi demitido por ter abusado sexualmente de colegas de elenco); Leto foi Rayon em Clube de Compras Dallas (inclusive ganhou um Oscar em 2014 pela atuação); e Huffman, que é uma mulher cisgênero, deu vida à Bree no filme Transamérica, pelo qual foi indicada a um Oscar de melhor atriz em 2005. Como se, apontando essas três pessoas, ela se excluísse do problema. Ou como se estivesse sendo “perseguida”.

É desanimador. Basicamente porque parece que nunca teremos algum progresso palpável enquanto existirem tantas pessoas dispostas a boicotar tanta luta pra ver mais diversidade no audiovisual. Nós queremos ver japoneses interpretando japoneses e conseguindo fama. Homens trans no papel de homens trans dando entrevistas e ganhando dinheiro. Artistas plenamente CAPAZES de atuar bem que só não têm notoriedade porque na indústria do entretenimento parece não existir lugar pra representação REAL de pessoas que fogem ao padrão branco-magro-hétero. E ao aceitar esse tipo de trabalho e falar belas GROSELHAS como essas, Scarlett só mostra como alguém consegue negligenciar lutas de minorias para o bem da própria carreira.

ATUALIZADO!

Depois de tanto chamarem a atenção de Scarlett para o problema de se aceitar esse personagem, ela resolveu que não vai mais participar do projeto. Em uma declaração para o Out.com, publicada na tarde de 13 de Julho, a atriz afirmou que aprendeu “muito com a comunidade desde que dei minha primeira declaração sobre o papel e percebi como fui insensível. Eu admiro e amo a comunidade trans e sou grata pela continuidade da conversa sobre inclusão em Hollywood.”

Ela ainda citou que, segundo o Instituto GLAAD, a representação LGBTQ+ caiu em 40% nos produtos audiovisuais em 2017 e NENHUM grande lançamento mostrava um personagem trans. Ela afirmou ainda que adoraria ter interpretado o personagem, mas que agora compreende o porquê da importância de se ter um ator trans interpretando Dante. No final, deixa aquela mensagem ~edificante: “Nós [ela e sua produtora] procuramos trabalhar com todas as comunidades para trazer esses assuntos necessários e histórias relevantes para espectadores do mundo todo.”

Aí sim você me ajuda a te ajudar, Scarlett! É muito bom ver algo assim acontecer, especialmente porque ela é uma atriz beeem conhecida e muitos vão escutar sua mensagem. E a gente espera que não tenha sido apenas uma maneira de gerenciar essa crise de imagem, que ela tenha aprendido de verdade e possa ser uma aliada de verdade na luta de se construir uma indústria cinematográfica mais inclusiva. :)