O toque de Midas da Blumhouse Productions | Judão

Saiba porque a produtora de filmes de terror de baixo orçamento de Jason Blum, responsável por Fragmentado e Get Out, vem sendo chamada de “Pixar do Horror”

Há quase 10 anos, mais exatamente em 14 de Outubro de 2007, estreava na edição do ScreamFest daquele ano Atividade Paranormal. Depois de exibido em alguns outros festivais e ganhar uma tremenda força no boca a boca, o found footage de Oren Peli — que custou parcos 15 mil dólares –, chegou às mãos de ninguém menos que Steven Spielberg, que, impressionado ao assistí-lo, sugeriu a famosa mudança em seu final e assim a Paramount/DreamWorks adquiriram os direitos de distribuição por 350 mil dólares.

Lançado nos cinemas em Setembro de 2009, o filme arrecadou cerca de 108 milhões de doletas nas bilheterias domésticas e outros quase 200 milhões no resto do mundo, se tornando simplesmente o FILME MAIS RENTÁVEL DA HISTÓRIA DO CINEMA com base no retorno sobre o investimento.

Quase uma década depois, responda rápido: quantas e quantas vezes você leu em algum pôster “Dos mesmos produtores de Atividade Paranormal”?

Um desses produtores era um tal de Jason Blum, cuja carreira cinematográfica oficialmente começou em 1995, ao descolar financiamento para seu primeiro longa, Tempo de Decisão, depois de receber uma carta de um conhecido da família elogiando o roteiro, a qual, marketeiro que era, anexou nas cópias que enviou para os estúdios de Hollywood, que rodou até chegar à Trimark Pictures, futura Lionsgate, e receber o sinal verde.

Ah, esse conhecido da família se chamava Steve Martin.

Após trabalhar para os irmãos Weinstein como produtor executivo e, mais tarde, como produtor independente para a Warner Bros., em 2000 ele resolveu abrir sua própria produtora, a Blumhouse Productions, cujo modelo de negócios é bastante simples: produzir filmes de forma independente, com baixo (e até micro) orçamento, pautado em conteúdos originais, e lançá-los por meio do sistema dos grandes estúdios, responsáveis por sua distribuição.

Com Atividade Paranormal faturando alguns caminhões de grana, Blum se ligou que o melhor jeito de fazer dinheiro gastando pouco era com filmes de terror, e passou a produzí-los a toque de caixa, pensando no público mainstream que lotava as salas, apostando em fórmulas certeiras e de sustos fáceis, em um movimento parecido com o que a New Line e a própria Lionsgate fizeram há algumas décadas.

Vinte e nove longas depois, a companhia de Blum se tornou famosa pelos seus hits de bilheteria e sua política de negócios — não gastar mais que 5 milhões em novos projetos e orçamentos e até 10 milhões se for uma sequência de uma propriedade de sucesso previamente estabelecida, o que aconteceu com Atividade Paranormal, por exemplo. Além disso, possuem um interessante acordo de 10 anos com a Universal/Comcast para distribuição de seus filmes no cinema.

“Há uma expectativa muito grande quando você vê o logo do Jason [Blum] na frente dos filmes”, explicou Nick Carpou, chefe de distribuição doméstica da Universal para a Variety. “Geralmente significa que você irá se divertir, provavelmente ficará assustado e há um forte aspecto subversivo neles”.

A Blumhouse construiu sua reputação caminhando pela tênue linha de produzir algumas verdadeiras PÉROLAS do horror independente moderno, como Sobrenatural, Uma Noite de Crime, A Entidade, The Bay, O Espelho, Creep, Amizade Desfeita e Hush – A Morte Ouve, e algumas das maiores PORCARIAS que estes olhos que a terra há de comer viram ultimamente, como A Forca, Ouija – O Jogo dos Espíritos, Jessabelle – O Passado Nunca Morre, Renascida do Inferno, A Última Premonição e tantas outros bombas.

Apesar da maioria esmagadora ter sido economicamente rentável, muito devido ao baixo custo de produção, uma vez que Blum sempre trabalhou na sua margem de segurança (exceto com o musical-bomba Jem e As Hologramas, que naufragou nas bilheterias faturando pouco mais de US$ 2 Milhões), até o começo do ano só a primeira e terceira parte de Atividade Paranormal tinham batido a marca de 100 milhões de dólares em bilheterias nos EUA, sendo que Atividade Paranormal 3 era a maior bilheteria internacional da produtora, com 209 milhões de verdinhas arrecadados.

Isso até Fragmentado e, um mês depois, Get Out, tomarem os cinemas americanos de assalto e dar uma virada de jogo impressionante para a Blumhouse, atraindo as atenções do mercado que, em suas previsões, começou a chamá-la de “Pixar do Horror”.

Foi em 2015 que Blum resolveu apostar num outro found footage de baixo orçamento, dessa vez de um diretor que andava tropeçando há um tempinho, um tal de M. Night Shyamalan. Resultado? A Visita, elogiado por crítica e público e que faturou 98 milhões de dólares no mundo todo (o orçamento foi daqueles 5 milhõezinhos padrão, mesmo para um cara do calibre de Shyamalan), que recebeu a pecha de “a volta ao gênero do diretor de O Sexto Sentido”, e a deixa para uma nova parceria entre os dois.

“O bom de trabalhar com Jason é que ele tem uma cabeça parecida com a minha, e se você apresentar seu projeto e ele gostar, vai atrás de fazer acontecer” contou o próprio Shyamalan sobre a relação com Blum durante sua vinda ao Brasil essa semana para divulgar Fragmentado. “Ele é um cara louco”, brinca.

Só nos EUA, Fragmentado somou impressionantes 136 Milhões de dólares (sendo expressivos 40 milhões só na estreia), afundando sem piedade Resident Evil 6: O Capítulo Final, mesmo com sua já estabelecida e bilionária franquia que embolsou pífios US$ 26 Milhões, metade do que gastou pra ser produzido, o retorno de Samara às telas em O Chamado 3, com seus vexatórios US$ 27 Milhões arrecadados, perante um orçamento de US$ 25 Milhões, e o aguardadíssimo A Cura, dirigido por um peso pesado como Gore Verbinsky, que gastou 40 milhões de dólares para minguar um faturamento de US$ 12 milhões em todo o mundo.

Jason Bluum e Daniel Kaluuya

Fragmentado totalizou, até agora, US$ 248 milhões ao redor do mundo, alcançado o status de filme de terror mais rentável da década, destronando Invocação do Mal, de 2013, que faturou US$ 318 milhões, custando US$ 20 Mi, mais que o dobro da produção da Blumhouse.

Tudo isso é motivo de sobra para Blum estourar sua melhor champa, certo? Bom, só que imagine então a felicidade do sujeito quando, um mês depois, Get Out abocanhou 33 milhões de dólares no fim de semana de estreia, desbancando LEGO Batman: O Filme do topo da bilheteria ianque?

O horror de Jordan Peele, comediante do programa Key & Peele do Comedy Central, recebeu impressionantes 99% de aprovação do Rotten Tomatoes e em tempos de #BlackLivesMatter e o governo racista/xenófobo de Donald Trump, arrebatou a plateia, sendo a SEGUNDA maior bilheteria doméstica da história da produtora — mais um do portfólio a ultrapassar os US$ 100 milhões de bilheteria e o OITAVO filme fazer SEIS VEZES mais que seu valor de produção só na estreia. E custando, adivinha quanto? Cinco milhões, claro!

Praticamente dominar o gênero com uma penca de filmes rentáveis e construir um nome sólido no mercado por conta de sua estratégia de baixo-risco e alto-retorno colocou a Blumhouse em rota de comparação com a Pixar, ou mesmo a Marvel Studios, dada sua devidas proporções.

Get Out é a segunda maior bilheteria da Blumhouse Productions (até agora) e o primeiro dirigido por um negro a ultrapassar os US$ 100 Milhões

Segundo Scott Mendelson escreveu em seu artigo para a Forbes, “Pixar e Marvel são o que são porque basicamente podem fazer qualquer coisa e vendê-las por conta de seus sucessos anteriores”, com o jornalista se mostrando curioso em ver se ela está “no limiar de atingir um status quo semelhante”. Para Jeff Block, CEO e Analista Sênior da Exibithor Relations Co., empresa que consolida os resultados das bilheterias americanas e presta serviços de informação e inteligência para a indústria do entretenimento, que cunhou para a CASA DE BLUM o termo “Pixar do horror” que eu usei lá em cima, “quando um filme da Blumhouse é lançado, você espera qualidade. Assim como a Pixar, uma boa história por lá é o mais importante”.

Para o fã de horror, Blum ainda tem algumas cartas muitíssimo interessantes nas mangas pra colocar nos cinemas entre esse ano e o próximo, como The Belko Experiment, de James Gunn, que estreou no último final de semana em apenas 1.341 salas de cinema nos EUA e faturou mais de US$ 4 milhões, praticamente pagando seu custo; Amityville: O Despertar, revitalização da franquia da mais famosa casa mal-assombrada do mundo; as sequências de Amizade Desfeita, Uma Noite de Crime, Sobrenatural e Creep; e o esperadíssimo reboot de Halloween, escrito por David Gordon Green e Danny McBride (a dupla de Segurando as Pontas e É o Fim), com produção executiva de ninguém menos que o próprio John Carpenter (e o melhor de tudo, sem NENHUM envolvimento de Rob Zombie).

Agora você já sabe: toda vez que você se deparar com qualquer peça promocional de marketing contendo a frase “dos mesmos produtores de Atividade Paranormal e Sobrenatural” saiba que ali, independente de sua qualidade, tem o toque de Midas de Jason Blum.