O trash de Maniac Cop segue vivo | Judão

Nos trash do passado ou nos cult do presente, o espírito que cativou Tarantino e Rodriguez segue mais vivo do que nunca nas telonas

Uma coisa que eu acho fascinante é quão abrangente o termo “filme trash” se tornou. Duma perspectiva PURISTA, a alcunha descreveria uma produção mais pobre que a de Filmes B, mas ainda assim com objetivos diferentes de seus ~primos camp ou exploitation. Só que pergunta pruma turma mais ESPECTADORA CASUAL o que ela pensa de filmes como Kill Bill ou Machete. A chance é muito grande que eles sejam chamados de trash. ;)

O fato é que, embora os chamados GRINDHOUSE que Quentin Tarantino e Robert Rodriguez frequentavam e amavam em seus anos de juventude não existam mais, a estética dos filmes que eles passavam – fossem eles trash, camp ou exploitation – manteve-se atual e, mais que isso, ganhou relevância e peso ao longo dos anos. O que lá nos anos 70, 80 ou 90 podia ser encarado como só mais um filme ruim, ao longo dos anos virou cult.

Hoje, mais e mais cineastas modernos recorrem a referências desses alicerces da cultura pop não só para divertir AS MASSAS, como também para transmitir mensagens mais edificantes, que muitas vezes ressoam com mais eficiência e amplitude num filme B do que em muito Árvore da Vida por aí.

Como já dissemos por aqui, Machete é um baita exemplo disso, mas não o único. Filmes independentes ácidos como Deus Abençoe a América e o mais recente Já Não Me Sinto em Casa Nesse Mundo constroem verdadeiras #CríticasSociaisFodas sobre o American e o Human Way of Life, enquanto bebem da fonte menos tecnicamente polida de produções capengas de 20 anos atrás pra criar uma moldura capaz de provocar uma sinestesia doida no espectador: uma mescla de nostalgia e fascínio que fisga DUM JEITO... :D

Além disso, por bem ou por mal, o trash nunca teve medo de ser nonsense, o que abre portas para coisas que, na tela grande, são LEGAIS PARA CARALHO. Formas mais lúdicas de se comunicar idéias, de se provocar emoções, coisas que vão desde uma mensagem de proteção ambiental por meio de monstros feitos de lixo tóxico até reflexões sobre a instabilidade na segurança pública a partir de um policial zumbi assassino.

E foi justamente esse segundo ARQUÉTIPO que me fez fez vibrar com uma notícia que, muito provavelmente, passou meio sem destaque por você, nos últimos dias: Nicolas Winding Refn, o cineasta que faz com que David Fincher pareça uma pessoa sem sombra qualquer de TOC, irá produzir um remake de Maniac Cop, com roteiro do brilhante Ed Brubaker e direção do subestimadíssimo John Hyams.

Lançado em 1988, Maniac Cop trazia um policial morto-vivo, interpretado pelo imponente Robert Z’Dar (e seu enorme queixo, fruto duma condição rara chamada querubismo), cometendo terríveis assassinatos por Nova York e envolvendo investigações, desconfiança e medo seus colegas de trabalho, em especial o TIRA vivido pelo sempre canastrônico Bruce Campbell. Era um típico plot projetado para polvilhar, entre uma morte gráfica e outra, um pouco de suspense e intriga. Mas também oferecia um pouco mais que isso.

Em meio a efeitos de qualidade questionável, atuações meia-boca e diálogos sofríveis, o filme colocava em cheque a sensação de segurança da população quando aqueles que os deveriam servir e proteger passam a ser suspeitos de atacá-los. Basicamente, o filme era um exercício para todo e qualquer espectador de como sentem-se, diariamente, as minorias.

Agora, transportemos essa reflexão pro cenário atual, até para não ficar fora de contexto, dos EUA. Trump eleito, conflitos raciais que crescem e aparecem cada vez mais desde o segundo mandato de Barack Obama e denúncias de violência policial que não param. Porra, o trash de Maniac Cop é agora! E pode, quem sabe, tomar as telonas novamente.

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Com Refn na produção, o filme já nasce, enquanto projeto, com um status de filme mais sério – ou pelo menos A SER LEVADO mais a sério. Adcione aí Brubaker escrevendo, esperamos, com sua boa afinidade tanto com histórias policiais quanto com questões políticas, e Hyams dirigindo (seus filmes de Soldado Universal são tudo que você precisa pra sacar porque o cara é foda), e podemos ter mais um exemplo de como a HIGH ART, hoje, bebe do que era lixo, ontem.

Ou pelo menos, um terror bem divertido de policial morto-vivo. :D

Eu digo o seguinte: esqueçam a parada de zumbi, afinal o terror de hoje está cada vez mais ancorado no medo do próximo, e invistam só no maníaco. Resolvam o lance da falta de queixo pós-Z’Dar com o sempre foda Michael Shannon no papel principal, invistam num protagonista que sirva à temática da insegurança frente à polícia e trabalhem a realidade: maníaco ou não, tá difícil se sentir seguro perto de quem carrega distintivo — tudo com aquele tom exagerado pra não perder a referência, claro.

Dessa forma, ainda que numa inspiração distante, o espírito de Grindhouse, e tudo que essa palavra significou pra Tarantino, Rodriguez e quem mais sentou em poltronas carcomidas para curtir filmes com premissas bestas, mas que os marcariam pra sempre, seguirá mais vivo do que nunca. Seja 10, 15, 20, ou quantos anos forem, depois. :D