O Universo Marvel que conhecemos hoje só existe por causa de Joan Lee | Judão

Esposa do Stan Lee morreu nesta quinta (6) :(

Stanley Lieber era um jovem alto e franzino, que conseguiu um emprego na Timely Publications por ser primo de Jean Goodman, esposa do chefão Martin Goodman. Em pouco tempo, Stan Lee, como ficou conhecido, se tornou editor-chefe da editora, que já tinha sucessos como Capitão América e o Tocha-Humana. E, no processo, ele passou a viver uma vida de playboy.

“Lee mudou-se para o Alamac Hotel, [...] impressionando as meninas com seu Buick conversível, seu estilo Sinatra e a conta bancária de cinco dígitos”, conta o jornalista Sean Howe no livro Marvel Comics – A História Secreta. Ele também desfilava com belas secretárias, chegando a ter três ao mesmo tempo apenas para ditar suas histórias. “Era uma sensação de poder”, definiria The Man mais recentemente.

Mas foi depois de servir na Segunda Guerra Mundial que as coisas realmente mudaram. “Quando eu era jovem, tinha uma garota que eu desenhei, um corpo e um rosto e um cabelo. Era a minha ideia de como a garota tinha que ser. A mulher perfeita”, disse Stan Lee ano passado ao THR. “E quando eu saí do Exército, alguém, um primo meu, conhecia uma mulher, uma modelo de chapéus de um lugar chamado Laden Hats. Ele disse: ‘Stan, tem essa garota muito bonita chamada Betty. Eu acho que você vai gostar dela. Ela deve gostar de você. Por que você não vai lá e a convida pra almoçar’”.

“Então eu fui pra casa dela. Betty não atendeu. Mas sim Joan, e ela era uma modelo de cabeça. Eu dei uma olhada nela – ela era a garota que eu tinha desenhado por toda minha vida. E quando eu ouvi o sotaque inglês, e eu sou maluco por sotaque inglês... Ela disse: ‘Posso ajudá-lo?’. Eu olhei pra ela, e ela achou que eu era algum maluco. ‘Eu te amo’. Eu não lembro exatamente. Enfim, eu a levei para almoçar. Eu nunca conheci Betty, a outra garota. Eu acho que eu pedi a Joan em casamento no almoço”.

Joan já era casada há um ano, mas isso não segurou nenhum dos dois. Ela se separou e eles se casaram em 5 de Dezembro de 1947, há quase 70 anos. Sete décadas.

Joan, Stan, Capitão América e Homem-Aranha festejando o aniversário da Marvel Comics

Já naquela época, os quadrinhos não eram mais os mesmos. A guerra tinha passado, os super-heróis entraram em decadência e a Timely passou a focar em outros tipos de HQs, como terror, ficção-científica e coisas assim, inclusive assumindo o nome de Atlas Comics. A partir dos anos 1950, a DC Comics voltou a fazer sucesso após recriar o Flash e, em pouco tempo, as vendas eram estratosféricas.

A lenda diz que, num certo dia de 1961, Goodman foi jogar golf com Jack Liebowitz, o chefão da DC. O concorrente se gabou do sucesso de Liga da Justiça, que, na época, vendia um pouco mais de 300 mil exemplares por mês. Não importa muito: tendo acontecido o jogo ou não, é fato que Goodman pediu que Lee criasse a versão deles de uma equipe de super-heróis.

A esta altura, Stan tinha 37 anos. Tinham se passado 20 anos, desde 1941, fazendo algo que parecia sem futuro. Ele, que tinha sonhado ainda jovem em ser escritor, achava que os quadrinhos enquanto mídia eram restritivos criativamente. Antes de chegar o pedido de Goodman, Lee estava seriamente considerando sair da empresa e seguir com seus sonhos em outro lugar.

“Antes de pedir demissão”, lhe disse Joan, como recordaria Stan Lee em suas divagações nas décadas seguinte, “por que não faz algo pelo qual sinta orgulho?”.

“Antes de pedir demissão, por que não faz algo pelo qual sinta orgulho?”

E Stan Lee foi lá e fez uma história que ele se divertiria lendo, sem se preocupar com regras pré-definidas. Nascia o Quarteto Fantástico. Nascia, com esse nome, a Marvel Comics. O resto, você sabe, é história.

Em 2014, Lee foi perguntado em uma entrevista para a Playboy gringa qual era o sucesso para um casamento tão longo. “Se casar com a garota certa! Nós nos damos bem, mesmo pensando que nós dois temos personalidades fortes. Minha esposa, que eu amo, é meio irlandesa e tem um temperamento forte. Eu lembro de que, há uns anos, nós estávamos discutindo sobre algo e ela ficou irritada. Ela então disse: “Eu vou te mostrar!”, e pegou a máquina de escrever portátil da Remington, que eu usava para escrever o Quarteto Fantástico e o Homem-Aranha e todo o resto, e a jogou contra a parede. Se despedaçou em milhões de pedaços. Eu gosto de chegar pra ela e falar: ‘Joanie, se nós tivéssemos a máquina de escrever agora, imagina por quanto poderíamos leiloá-la?'”.

Eles nunca ficaram longe um do outro. Quando The Man foi para a Califórnia comandar as iniciativas da Marvel na TV, quando o grupo já era comandado por James Galton, Joan foi junto. Ela também dublou a Madame Teia, uma personagem importante da série animada do Aranha dos anos 1990, e fez uma participação em X-Men: Apocalipse.

Joan morreu nesta quinta (06), aos 93 anos, em Los Angeles. Deixa o marido e uma filha, Joan Celia. E deixa a todos nós, fãs da Marvel, também um pouco órfãos. Afinal, se a Casa das Ideias teve tantos pais – como o próprio Stan Lee, além de Jack Kirby e Steve Ditko –, ela teve apenas uma mãe.

E isso, Joan, é algo para se ter um BAITA orgulho. Obrigado.