O Universo Marvel segundo a HYDRA | Judão

Alterações da realidade feitas pelo Cubo Cósmico mudaram tudo aquilo que você conhecia sobre o Capitão América. Mesmo. E vai muito além de um “Hail HYDRA!”…

Pra alguns, estamos na Era da Pós-Verdade, aquela em que os fatos tem menos importância perante as nossas crenças pessoais. “Os vazamentos são reais, a notícia é fake”, uma frase recente do Donald Trump, meio que resume tudo esse pensamento em algumas palavras. E isso dá muito medo.

De alguma forma, os gibis da Marvel estão entrando nessa mesma nova era. Secret Empire vem aí, colocando um Steve Rogers integrante da HYDRA como o líder de um novo momento do país. Capitão América é a favor da liberdade e da justiça? A HYDRA é maligna? Nazista? Será? O que há de FATO e CRENÇA nisso tudo?

O roteirista Nick Spencer começou a colocar todos os “pingos nos is” com Captain America: Steve Rogers #12, publicado ontem (22) nos EUA. Resumindo: esqueça tudo que você sabe sobre o personagem, ao menos pelos próximos meses.

SPOILER! Há alguns meses o Caveira Vermelha usou a versão humana (e criança) do Cubo Cósmico, a Kobik, para manipular a realidade no entorno de Steve. A partir de então, o Bandeiroso começou a agir como um agente da HYDRA infiltrado, com lealdade apenas à organização. Aos poucos, o gibi foi entrando na cabeça do personagem, mostrando o que mudou nas memórias que ele guarda na mente.

Ficou estabelecido que Rogers e a mãe não só possuíam contato com a HYDRA desde o final dos anos 1920, como também o pequeno Steve se tornou amigo de ninguém menos que Hemult Zemo, filho do líder da organização, Heinrich Zemo, e o segundo a usar o nome de Barão Zemo. Anos depois, Steve foi escolhido pelo Projeto Renascimento para se tornar o Super Soldado, só que ele, junto com Helmut, matou ninguém menos que o Dr. Abraham Erskine – o responsável por criar o soro que é a peça-chave do programa.

A morte de Erskine acontece antes de Steve Rogers passar pelo experimento. Por isso, o próprio Zemo-filho usa um dispositivo para acessar as memórias do cientista falecido, roubando os dados técnicos e os repassando para outro integrante da HYDRA, Arnim Zola – que estava preso pelo governo dos EUA e se “voluntaria” a continuar com o Projeto Renascimento.

Steve Rogers então passa pelo experimento e se transforma em Capitão América. A vontade dele é logo lutar do lado da HYDRA, ou seja, dos alemães, só que o plano para ele é ainda maior: se infiltrar entre os Aliados e, enquanto finge ajudá-los, fornecer informações confidenciais para Helmut Zemo.

Pelo que você leu até aqui, seria fácil enquadrar Steve Rogers como um vilão padrão. No entanto, essa transformação tem mais camadas. O Bandeiroso acredita que realmente a HYDRA está certa e que a organização tem um projeto melhor para os EUA e para o mundo. Ele, por exemplo, afirma que o Bucky é um bom garoto que “sofreu lavagem cerebral como todos os outros [americanos]”, além de chamar os líderes dos Aliados de corruptos e mesquinhos, que acreditam no primeiro que demonstra coragem para fazer o que eles têm medo – ou seja, no próprio Steve Rogers.

Obviamente esse plano todo não dá certo. Ainda não foi explicado como o Capitão América foi parar no fundo do mar do ártico, mas certamente isso atrapalhou os planos de dominação mundial – e, quando ele acordou novamente, continuou mantendo a fachada da época da guerra esperando o momento certo de agir. E isso deve acontecer justamente durante Secret Empire.

“Por que, então, ele não fez isso antes?”, alguns leitores devem estar se perguntando. Bom, pra começar, Spencer e a Marvel estão mexendo em um terreno pantanoso aqui. Retcons e alterações cronológicas são comuns nas HQs, mas alterações como essas feitas pela Kobik são novidade. Ela é um personagem fixo dentro da cronologia, e por mais que ela altere o passado das pessoas, o impacto claramente começa apenas no presente. É complexo, eu sei.

Outra questão é que, na primeira vez que a Kobik usou seus poderes, as alterações eram restritas às pessoas que tiveram a própria história modificada. Por exemplo: em Pleasent Hill, durante a saga Avengers Standoff, a cronologia do Barão Zemo foi alterada – mas apenas para ele e aqueles que interagiam com ele nessa nova realidade. Para os outros, ele continuava sendo o mesmo vilão de sempre. Agora, Kobik foi além: a realidade mudou para todo mundo, como ficou claro em Captain America: Steve Rogers #12 por meio de vídeos da época da Segunda Guerra Mundial e da fala do Dr. Erik Selvig.

De qualquer forma, a intenção da Casa das Ideias não é necessariamente mudar o que foi feito lá atrás, jogando o Universo Marvel em uma realidade totalmente nova do nada. A intenção é algo mais profundo, colocando o Capitão América no centro de todo um movimento que existe na vida real dentro da sociedade americana. Tudo que ele alega e afirma é dito por muita gente do lado de cá da quarta parede. Nenhuma dessas pessoas diz que “é fã da HYDRA”, mas, por exemplo, Steve Bannon (estrategista-chefe da Casa Branca no governo Trump) disse, numa entrevista ao Hollywood Reporter no ano passado, “a escuridão é boa [...]. Dick Cheney. Darh Vader. Satã. Isso é poder. Nos ajuda tanto quanto ajuda eles”.

A Marvel também está criticando o outro lado da moeda, sim. Pleasent Hill, com vilões sofrendo lavagem cerebral, é sim uma metáfora para Guantánamo. A desilusão com o insucesso da política nos últimos anos também está presente. A recente Guerra Civil II não teve vencedores, apenas perdedores. As pessoas perderam a crença naqueles que deveriam salvá-los, mas se isolaram do resto da humanidade e conseguem até superar a própria morte.

Afinal, o que são fatos? O que importa, pra muita gente, são as crenças. Steve Rogers acredita que fará a América grande novamente. HYDRA terrorista? Capitão América um agente infiltrado? “The leaks are real, the news is fake”.

Esta é a nova ordem mundial. Vamos ver aonde ela vai nos levar, tanto no mundo real quanto na ficção.