O Universo Ultimate está de volta! | Judão

Menina dos olhos da Casa das Ideias no começo dos anos 2000, esta “nova” realidade se tornou um elefante branco que tinha sido destruído em Guerras Secretas, com seus principais personagens trazidos pra cronologia principal. Mas… veja só você, não é? ;)

Quem começou a consumir este gigantesco universo de super-heróis, sejam eles da Marvel ou da DC, atraído principalmente por causa dos filmes, tem um pouco de dificuldade de entender a ROCAMBOLESCA cronologia dos gibis originais, em especial aquela regrinha de ouro que, por mais que os autores de ambas prometam ter sido esquecida, ainda continua valendo firme e forte: “ninguém nunca está realmente morto nas HQs de heróis”. Porque as pessoas sempre voltam. Ou, no caso, até os UNIVERSOS voltam à vida.

É o caso do Universo Ultimate, AQUELE, a Terra-1610 que, no número final da minissérie Spider-Men II, descobrimos que voltou a existir oficialmente como parte do cânone da Casa das Ideias.

Tudo começou quando Peter Parker e Miles Morales enfim descobriram aquele que foi o principal desdobramento do encontro original entre os dois, em 2012, quando ainda pertenciam a universos diferentes: sim, existe uma versão de Miles Morales na Terra-616, que é a cronologia “oficial” da Marvel.

Mas até que eles pudessem encontrar o sujeito, muita água rolou debaixo desta ponte – incluindo o Doutor Destino conquistando poderes cósmicos e ajudando, de seu jeito torto (aka com a participação dos divinos poderes de manipulação da matéria do Homem-Molecular), a impedir que a realidade Marvel se “quebrasse”, juntando todas suas realidades em uma só.

Rolou o megacrossover Guerras Secretas e, no final, surgiu o Prime Marvel Universe — que é, basicamente, o mundinho clássico 616 só que no qual personagens de outras realidades como o Velho Logan (vindo diretamente de um futuro distópico) passaram a existir. Do Universo Ultimate, além do jovem Miles, sua família e seu universo de coadjuvantes, como o melhor amigo Ganke, vieram sujeitos como Jimmy Hudson, o filho do Wolverine (que, não, não é uma reinterpretação do Daken, mas sim um personagem totalmente novo), e a versão VILANESCA do Reed Richards.

E aí, oficialmente, não apenas o Universo Ultimate mas todas as realidades alternativas da Marvel tavam mortas, certo? Estilo Crise nas Infinitas Terras, da DC. Então... não. ;)

Porque, no finalzinho de Guerras Secretas a gente vê que o Reed original, acompanhado de sua amada Sue e de uma nova versão da Fundação Futuro, começa sua missão de viajar pelo Multiverso, “recriando” os mundos destruídos. Missão esta que, aliás, foi confirmada no recente Marvel Legacy #1 , a nova iniciativa editorial dos caras.

O que a gente não sabia é que o Universo Ultimate já teria sido recriado, né? Quem o descobriu foi o Miles 616, versão adulta, milionária e com aspirações um tanto questionáveis — afinal, aquele lugar tinha uma versão de sua esposa, que teria morrido na “nossa” realidade há muitos anos, deixando-o completamente devastado.

Então finalmente somos apresentados à mais nova versão dos Ultimates (os Vingadores daquela Terra, por aqui batizados de “Supremos”): Jessica Drew (um clone feminino de Peter Parker), Tocha Humana, Hulk, Thor, Capitão América, aquela que parece ser uma versão da Ironheart/Riri Williams e... o Homem-Aranha. Sim, ele mesmo, o Peter Parker Ultimate que, pouco antes do Universo Ultimate deixar de existir, o Miles adolescente descobriu estar vivo. E cuja morte trágica, de alguma forma, foi a principal inspiração para que Morales se tornasse o segundo Homem-Aranha.

Vamos tentar não nos focar no fato pra lá de confuso de que este Thor Ultimate, por exemplo, está aparentemente envergando o mesmo martelo que veio parar na Asgard do mundo 616, tornando-se inclusive objeto de desejo pro nosso Thor, que se tornou indigno e não consegue mais erguer o seu próprio Mjolnir, deixando o cargo de Deus do Trovão nas (ótimas) mãos de Jane Foster. Porque a parada já é confusa o bastante sem isso aí, né? ;)

Pra quem não se lembra, o Universo Ultimate foi criado pela Marvel no começo dos anos 2000 como uma forma de trazer novos leitores para os títulos clássicos da editora, fazendo reinterpretações atualizadas de suas origens. Assim sendo, para um público mais jovem, tivemos o Homem-Aranha do roteirista Brian Michael Bendis, que virou webdesigner do Clarim Diário (ao invés de fotógrafo com uma câmera analógica, bem anos 60). E para um público mais velho, uma versão mais cheia de adrenalina, violência e testosterona dos Vingadores, cortesia da prosa inspiradíssima de Mark Millar.

Pra quem acompanha o Universo Marvel nos cinemas, grande parte do que está lá é inspiração direta do que aconteceu nos primeiros anos dos gibis Ultimate. Do Nick Fury negro (e que, nas HQs, já tinha a cara do Samuel L. Jackson, o que tornou a escalação de elenco bem simples) ao Homem de Ferro mais cool e marrento, passando até pelo Gavião Arqueiro sem máscara pontuda e pelo Homem-Aranha mais “descolado” dos filmes com Andrew Garfield, tudo tinha totalmente o cheiro daquela iniciativa mais “moderna”.

Mas os anos passaram e o que era “moderno” passou a sofrer com os mesmos vícios dos outros gibis da editora. E aí que o Universo Ultimate começou a desenvolver a sua própria cronologia, que ficou tão enrolada e rocambolesca quanto a cronologia do universo original. O resultado é que, pra novos leitores, uma década depois, o Universo Ultimate tornou-se igualmente intransponível, uma porta de entrada pouco amigável.

Basicamente, a única coisa realmente boa que restou das páginas ultimate em sua reta final foi o surgimento de Miles Morales, de longe um dos novos personagens mais divertidos e carismáticos que a Marvel criou nos últimos anos, não importando de qual universo estejamos falando. Por isso mesmo, por entender seu potencial, depois de Guerras Secretas, o garoto foi “promovido” ao universo Marvel corrente e oficial. Mas agora que sua “casa” está de volta, incluindo aí alguns de seus antigos amigos que ele julgava mortos e enterrados, o futuro é um imenso ponto de interrogação.

“Eu não sei se você pode falar a respeito mas, quando escreveu Spider-Men II #5, você sabia que ia pra DC e trouxe o Universo Ultimate de volta como uma declaração de amor ao seu tempo na Marvel? Ou este sempre foi o plano?”, perguntou Alex Chung ao próprio Bendis, em sua conta do Tumblr.

Como faz com frequência, o autor não se fez de rogado e respondeu: não, a escolha não teve a ver com sua saída da Marvel e já estava nos planos. Maaaaaaaaaas... “Preciso dizer que, quando eu soube que ia sair, olhei para as escolhas que fiz neste gibi e em muitos outros e fiquei bastante satisfeito que sejam escolhas que possam ser vistas como minhas escolhas finais”. Bendis conta ainda que trouxe o Ultimate de volta porque ouviu muita gente reclamando nos últimos anos sobre como se dedicaram a estes títulos com tanto carinho por quase duas décadas e agora tudo aquilo tinha sido reduzido a pó. “Eu concordo. Não tem nada a ver com ego. Claro que tem um pouquinho nisso, mas como fã eu concordo com o sentimento. Eu espero que a Marvel entenda o que esta linha representa para muitos fãs e encontro um jeito de reintegrá-la”.

O problema não é o Universo Ultimate estar de volta. Aliás, o problema não é a Fundação Futuro restaurar qualquer que seja a realidade alternativa — a Terra-807128, aquela do futuro alternativo do Velho Logan, está novamente sendo explorada em Old Man Hawkeye, uma série prequência escrita por Ethan Sacks e que chega contando os eventos da vida de Clint Barton antes daquilo que pudemos ler no original de Mark Millar. Nada está descartado se for em prol de uma boa história e, por mais confuso que isso fique para os fanáticos por cronologia, que se dane, boas histórias são sempre boas histórias.

O problema é justamente o USO que farão do Universo Ultimate. “Fico aqui pensando se isso não significa que a Marvel acaba de encontrar o lugar certo pra colocar todos os seus personagens mais diversos, separando-os de vez do restante da Marvel tradicional”, me confessou um amigo, assim que leu Spider-Men II e depois este nosso texto aqui, sobre a Casa das Ideias optar por ficar em cima do muro.

Juro que eu não quero nem sequer PENSAR nisso. Porque olha...