Obrigado por existir, Homem-Aranha 2 | Judão

Treze anos depois, continua sendo um dos melhores filmes de super-herói de todos os tempos!

Muito antes de Mulher-Maravilha SACRAMENTAR o que pode ser chamado de FILME DE SUPER-HERÓI, ou de Homem-Aranha: De Volta ao Lar acertar ao ser um filme sobre Peter Parker, um cara IRREFREAVELMENTE criativo chamado Sam Raimi brindou o mundo com Homem-Aranha 2 – o até então filme de super-herói definitivo. E sobre Peter Parker. :D

Sim, o Homem-Aranha de Raimi é virtualmente mudo e, quando fala, consegue ser quase ou mais tímido e socialmente INAPTO que o próprio Parker. Além disso, não faltam “coincidências” e conveniências ao roteiro do filme, tentando garantir determinados embates entre o herói e o vilão da vez, Doutor Octopus. Ainda assim, Homem-Aranha 2 conta uma história focada em seus personagens, seus arcos e seu amadurecimento ao mesmo tempo em que tem PLENA FÉ em tudo isso – o que faz dele um filme, até hoje, digno dos mais altos louvores.

Inspirada mais diretamente pelo arco Homem-Aranha Nunca Mais dos quadrinhos, a trama gira em torno das aflições de Parker para, já na faculdade e em plena atividade como Homem-Aranha, equilibrar sua vida pessoal à vida de super-herói. Entram no balaio tretas das mais pesadas, como a situação financeira de Tia May e a conturbada relação entre ele, Mary Jane Watson e Harry Osborn, até questões mais triviais, como manter um emprego e conseguir pagar o aluguel duma pensão pra lá de LIXOSA.

É em meio a tudo isso que surge a oportunidade de, para um trabalho DETERMINANTE de faculdade, Peter conhecer um de seus grandes ídolos da ciência: o cientista Otto Octavius, responsável por um experimento de energia alternativa financiado pela Oscorp, agora dirigida por Harry. Figura carismática e inteligentíssima, Octavius recebe Peter em sua casa com grande prazer, apresentando-o à sua esposa e dando conselhos de vida sobre, veja só, poder e responsabilidade – mas com um porém.

De forma genial, Homem-Aranha 2 explora o conceito central do herói segundo o prisma de seu alter-ego civil. Agora, o poder não é do Teioso, mas sim de Parker: sua inteligência. E passa a ser sua responsabilidade não negligenciá-la em detrimento de seus poderes (e seu heroísmo INTRÍNSECO).

Assim, Peter racionaliza esses ensinamentos e, em uma sequência de sonho emocionante com o saudoso Cliff Robertson, os usa para justificar o abandono de sua responsabilidade como Homem-Aranha, passando a viver de forma plena apenas como um genial estudante universitário, amigo prestativo e apaixonado admirador de Mary Jane Watson.

Tudo isso é, claro, uma ferramenta narrativa para reforçar o poder, a influência e importância duma figura heroica como o Homem-Aranha, na sociedade. Quando o experimento de Octavius dá errado e ele se vê refém de sua própria criação, surge o vilão Doutor Octopus, e Peter acaba mais uma vez impulsionado a agir contra essa grave ameaça, tendo de enfim fazer o salto definitivo de sua vida comum, tornando-se, tal qual Tony Stark e Homem de Ferro, um só com o Homem-Aranha.

Raimi é brilhante — e vou repetir pra que fique bem registrado: Raimi é FUCKING brilhante. Como tal, ele representa a crise de identidade de Parker de diversas formas: primeiro, ao fazer com que as teias biológicas de sua versão do herói passem a falhar tais quais os lançadores da SAUDOSA animação dos anos 90. Depois, ao fazer com que a miopia de Peter retorne gradativamente, como se seus poderes ficassem à mercê de seu psicológico e, assim como seu espírito heroico, pudessem ser reprimidos.

É a partir dessas DICAS VISUAIS que ele constrói o que, hoje, podemos chamar de ~cena da trincheira de 2004. Quando Mary Jane é raptada pelo Doutor Octopus, Peter sente de vez a água bater na bunda. Vai à rua e tenta enxergar, mas não consegue. Ele tá de óculos, e aquilo de nada serve pra quem é, e sempre será, o Homem-Aranha. Lentamente, ele tira o APARATO facial e derruba no chão. It’s Spidey time. E PUTAQUEPARIU! :D

É um momento climático levado a sério, sem medo de ser brega e sem a necessidade de enfiar uma piadinha. É a real, na real, e acontece depois de um dos discursos mais lindos que meus ouvidos nerds já ouviram, em que a maravilhosa Rosemary Harris, como Tia May, diz COM TODAS AS LETRAS por que precisamos de heróis.

As palavras de May ecoam pela cena do salto de Peter em seu heroísmo, mas também em outro pico emocional do filme, a mais do que icônica cena do trem, quando Nova York metaforicamente toma o Homem-Aranha em suas mãos e o abraça como seu herói. É uma daquelas típicas cenas em que se criam paralelos com Cristo e tudo mais, mas funciona, clichê e tudo, porque Raimi, os atores e toda a equipe acreditam naquilo. E te fazem acreditar.

Claro, hoje tudo rolaria diferente, já que NÃO DÁ pra imaginar que ninguém teria gravado o Homem-Aranha sem máscara lutando com um POLVO HUMANO ROBÓTICO. Mas nada que um FUNÇÃO > APAGAR não resolvesse. Ainda é uma das maiores cenas do cinema mainstream de todos os tempos. E ponto.

Se tudo isso já não bastasse pra explicar como, 13 anos depois, ainda falamos e falaremos muito desse filme (e, olha, BASTA), Homem-Aranha 2 ainda é um raro filme de super-herói, sobre o herói, em que o vilão é construído de forma perfeita.

É um filme sobre Peter Parker? Com certeza. Mas é também a história de origem do Doutor Octopus. E que história!

Raimi pega aquele que é para muitos o melhor vilão do Aranha (e, para outros, um personagem bem meia-boca) e o transforma numa vítima de sua própria ambição. Um homem bom, simpático e admirável (vivido com MAESTRIA por Alfred Molina), que acaba corrompido e levado a extremos questionáveis. Seu destino na história, atrelado ao desfecho de todo o filme, é igualmente heroico e trágico, e a sensação que fica é de que aquele ali era realmente um personagem, uma pessoa, um ANTAGONISTA. E não só um cumpridor de função. Beijos, Marvel Studios.

Além disso, é incrível como os personagens que rondam Parker, por mais que sirvam para fortalecer e enriquecer sua jornada – central para o filme – também passam por seus próprios conflitos. Tia May enfim faz as pazes com a morte de Ben, seguindo com sua vida ao deixar a casa onde morou por anos. Harry enfim cede à obsessão pela morte de seu pai, se direcionando a um caminho tragicamente similar. E Mary Jane, depois de muita sofrência, enfim entende e aceita seu amor por Peter. E pelo Homem-Aranha.

Falando em Mary Jane, aliás, tai um dos grandes problemas da empreitada de Raimi à frente dos filmes do Aranha, é verdade. Kirsten Dunst é uma excelente atriz, assim como Tobey Maguire é... funcional. Só que, seja pela falta de talento do cineasta em diálogos românticos (sério, se liga no papo entre pombinhos que o Bruce Campbell tem logo no começo de Evil Dead e me diz se não é BIZARRO), seja pela falta de química dos caras, fica difícil não dar ao menos uma revirada de olho nas cenas em que eles discutem se VAI OU RACHA. Mesmo assim, há humanidade ali. Há coração. E fica mais fácil entender porque a Mary Jane chora tanto quando você, como espectador, faz um esforço pra tentar pegar o lado dela das coisas.

Na real, passa até a render umas embargadas. Sério. :’(

É, também, maravilhoso retornar a uma época em que compositores tinham espaço e prestígio para trabalharem em músicas temas que não apenas respiravam, mas sim DITAVAM a respiração dos filmes. A música de Homem-Aranha 2, a cargo do grande Danny Elfman, conta uma história por si só, mesclando notas que navegam por toda a mitologia e identidade do herói de forma pulsante, emocionante, em picos que surgem tais quais os saltos do Teioso por entre os prédios de Nova York. É magnífico. E Raimi sabe disso a ponto de colocá-la em todos os grandes momentos do filme, provocando fortes arrepios nos mais fortes e arrancando lágrimas dos mais fracos. É o lance de se arriscar para emocionar que o Every Frame a Painting explica que falta (E MUITO) ao MCU.

Há quem diga que Homem-Aranha 2, ao menos em ALGUM aspecto, já tornou-se um filme datado. E pra isso eu é que reviro os olhos até ver meu próprio cérebro. Absolutamente tudo que foi feito em outro tempo é datado, o que faz com que essa análise seja CUÉN. Um filme como Blade Runner, lento e silencioso, não existiria se feito hoje (e isso há de se comprovar com Blade Runner 2049, escreva o que falo). Logo, seu estilo é DATADO. Da mesma forma, Homem-Aranha 2 não existiria se feito hoje, mas isso não pode ser um argumento contrário ao filme.

O que muitos chamam de datado, na realidade, pode ser apontado como um momento em que a mágica do filme não consegue fazer com que sua idade aparente seja esquecida. E isso é real sobre Homem-Aranha 2 assim como é real sobre Superman ou, sei lá, CIDADÃO KANE.

Só que Homem-Aranha 2 é um filme que conta sua história de forma coesa e direta e completa e maravilhosa desde sua primeira cena, em que Parker observa um outdoor de Mary Jane, a representação de seus sonhos, só para ser freado por seu chefe numa pizzaria, a representação de seus desafios. A ideia de termos tido, em algum momento neste mundo corporativista, uma história dessa sensibilidade e liberdade artística, é simplesmente memorável – e essa competência ofusca qualquer tipo de estética obsoleta.

Aliás, falando em estética, vale frisar: Homem-Aranha 2, tal qual Homem de Ferro 3 para o Shane Black, é PLENAMENTE um filme do Sam Raimi. E Raimi se vale de movimentos e ângulos de câmeras, além de construções de cenas, de ESTILÍSTICA setentista e oitentista. O cara é uma referência do TRASH, gente. É óbvio que isso vai rolar. Mas datado é colocar Evanescence na trilha sonora porque é modismo de época, não fazer uso de estilística visual antiga. :D

Termos tido um FILMÃO DA PORRA DESSES, BICHO, nas mãos de Sam Raimi, um cara capaz de navegar entre gêneros totalmente antagônicos como quem boia numa piscina sem ondas (pense comigo: cena de terror do Octopus CHACINANDO médicos, praticamente seguida de piadinhas com a vida patética de Parker), é razão pra se agradecer diariamente à MADAME TEIA.

Por isso, caso faça um tempo desde que você assistiu a Homem-Aranha 2 pela última vez – ou até caso a atuação genial de Andrew Garfield nos filmes medíocres que saíram nos últimos anos tenha ofuscado a memória desse clássico moderno do cinema – faça-se um favor: assista-o novamente.

E agradeça, mesmo, por ele existir. <3