Os 3 Mundos é uma peça que inova, mas não exatamente do jeito que precisávamos | Judão

Mudar só a forma sem investir TAMBÉM no conteúdo não é o suficiente, né?

Gabriel Bá e Fabio Moon são quadrinistas incríveis. Daytripper é uma das minhas obras favoritas, 10 Pãezinhos é uma das coisas mais incríveis que já li. E quando a ideia de ver aquela profundidade toda traduzida no teatro apareceu, confesso, o hype bateu FORTE. Mas, quem diria, profundidade é a coisa que MENOS aparece por ali.

Os 3 Mundos acontece em uma sociedade pós-apocalíptica que foi completamente destruída por guerras e conflitos. A personagem principal, Lachesis, lidera o Grupo da Serpente, que usa as práticas e ensinamentos do Kung Fu pra tentar ver algum sentido em continuar vivendo. E em busca de um membro novo pra essa família, esse pessoal um dia sai das ruínas das estações de metrô onde mora e acaba indo parar no Mundo das Máscaras, um lugar regido pelo ditador Acônito e composto por muitos súditos sem identidade, usando a mesma roupa e a mesma máscara.

Logo no começo do espetáculo, a plateia toma um susto muito bom: ação toda no palco rola entre duas telas fininhas que recebem projeções. Ali, compõe-se desde a ilustração do ambiente até os movimentos dos atores em cena. O cenário emoldura o que acontece e faz com que você se sinta DENTRO de uma história em quadrinhos. Pessoalmente, nunca tinha visto aquilo e foi simplesmente INCRÍVEL. É o sonho de qualquer fã de HQs. Desde os primeiros minutos de espetáculo isso pareceu encantar todo mundo, que assistia a tudo com olhos vidrados. Parecia uma promessa de casamento perfeito entre as linguagens

Mas enquanto a forma se mostrava muito inovadora e bem pensada, o conteúdo… nem tanto.

Hoje em dia praticamente todos os grandes portais e grupos de mídia do Brasil cobram pra que você possa ler seus conteúdos. O JUDAO.com.br continua produzindo conteúdo de graça pra todos, de forma independente, em diversas mídias, e vai fazer isso pra sempre. Mas não tá fácil pra ninguém.

Nunca o JUDAO.com.br foi tão lido em toda sua história, mas anúncios estão desaparecendo, o Facebook não deixa ninguém sair de lá e nós dependemos cada dia mais dos nossos leitores, ouvintes e espectadores pra financiar a produção de todo esse conteúdo sobre cultura pop que é bem raro na internet Brasileira. Se todo mundo que gosta, compartilha e/ou comenta contribuir, o nosso futuro estará garantido. Vamo?

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O argumento partiu de Paula Picarelli, que também é protagonista, depois de viver por um tempo imersa em um culto. Ela chamou os irmãos pra criar o texto e é a primeiríssima vez que eles fazem algo pro teatro. Só que como toda primeira vez, certas coisas acabaram não dando muito certo/

A história tem objetivo claro: falar sobre como fanatismos são perigosos, jogos de poder são nocivos e que, sem identidade individual, jamais podemos formar coletivo. Mas o desenrolar dos conflitos acabaram ficando confusos. Quem já leu obras de Moon e Bá sabe que a linearidade não precisa estar ali sempre, e tudo bem. Mas usar a EXATA mesma dose desse recurso no teatro foi algo estranho. Alguns momentos ficaram jogados ali no meio, sem muito sentido. Alguns diálogos perderam-se neles mesmos. Ficou esquisito, ruim de compreender.

Veja bem, é importante, MUITO importante abordar esses temas, especialmente no nosso contexto atual. Mas, curiosamente, nada de muito novo foi posto ali em termos de narrativa. Existe sim uma reflexão sobre nós mesmos sermos sedentos por poder, precisarmos controlar nossos impulsos por controle, sobre todos nós não sermos completamente bons ou maus – e daí a inserção com a cultura oriental, provavelmente. Mas as consequências dos atos daqueles personagens e as conclusões finais são piegas e batidas demais.

A direção dos atores, por conta desses problemas, se perde. Paula manda bem, mas todos os detalhes de sua atuação ficam diluídos na confusão da história. O grande vilão do Mundo das Máscaras, Acônito (Thiago Amaral), se destaca. Ele tem um PUTA trabalho de voz que realmente impressiona e uma presença grande, mas isso também vira apenas mais alguma coisa em uma pilha. Nada parece encaixar direitinho.

É um pouco broxante não ver uma GRANDE coisa rolando com os nomes “Moon e Bá” envolvidos, confesso. Ficou faltando aquela pitada sombria de verdade, um elemento maior de identificação, aquela sensação de imersão pessoal que, geralmente, sentimos com esses autores.

A impressão que fica é que essa história, há alguns anos, teria sido muito mais fresca. Mas AGORA, em 2018, ela precisava de mais elementos, uma nova maneira de nos conduzir. Dessa vez ficou bagunçado demais. E uma boa estrutura e forma inovadora, no final das contas, não sustentam sozinhas um espetáculo todo. ¯\_(ツ)_/¯

Os 3 Mundos está em cartaz no Teatro Sesi e fica até 16 de Dezembro de 2018, com apresentações às quintas, sextas e sábados, às 20h, e domingos, 19h. Entrada gratuita com reservas feitas pelo site sesisp.org.br/meu-sesi