Os 35 anos de The Number of The Beast | Judão

O primeiro álbum do Iron Maiden com Bruce Dickinson nos vocais completou 35 anos esta semana, ainda soando como uma espécie de arquétipo básico do disco clássico de heavy metal

Sejamos diretos: na história dos britânicos do Iron Maiden, não existe disco mais representativo do que The Number of the Beast. Ponto. Não duvido que os maidenmaníacos mais devotados discordem desta escolha, alegando que Powerslave ou, sei lá, Seventh Son of a Seventh Son representem muito melhor a sonoridade da Donzela de Ferro. Pode até ser. Mas estamos falando de um álbum que se tornou praticamente sinônimo da banda — pergunte pra quem não é fã de carteirinha sobre o Maiden e, inevitavelmente, o sujeito vai se lembrar desta capa. Ou do SIX! SIX! SIX! The Number of The Beast!

Trata-se do primeiro registro com o vocalista Bruce Dickinson, egresso do Samson para substituir Paul Di’anno, afastado por problemas envolvendo alcoolismo. E também do último com Clive Burr nas baquetas, diagnosticado mais tarde com esclerose múltipla e substituído por Nicko “Sou Feio, E Daí?” McBrain.

A partir deste álbum, os vocais agudos e quase operísticos de Dickinson estabeleceram as bases para a futura sonoridade do Maiden e para uma centena de bandas do gênero que a seguiriam fielmente. Foi o pulo que Steve Harris queria dar enquanto compositor.

E se Iron Maiden (1980) e Killers (1981) carregavam uma forte influência do punk, The Number of The Beast é 100% heavy metal tradicional, delineando o padrão de toda a discografia da banda nas décadas seguintes. Portanto: “o disco mais representativo do Iron Maiden”, sacou? ;)

Além da faixa-título, Run to the Hills e Hallowed Be Thy Name tornaram-se clássicos absolutos e presentes em quase todos os shows do atual sexteto. No fim das contas, estamos falando do álbum mais vendido do Iron Maiden, ultrapassando a marca dos 20 milhões de unidades comercializadas em todo o mundo, além daquele que representou também a primeira inclusão do Maiden no Top 40 dos Estados Unidos. Depois deste disco, “The Beast” tornou-se uma espécie de apelido obrigatório para uma série de lançamentos do grupo, incluindo a coletânea Best of The Beast.

Claro, nem tudo foram flores naquela época, porque a parada foi lançada em meio a uma boa dose de polêmica. A capa desenhada pelo colaborador de longa data Derek Riggs e o tema satânico da faixa-título, além da sempre presente utilização do mascote Eddie, causariam muito controvérsia na Terra do Tio Sam, fazendo com que o grupo fosse acusado de satanismo, com grupos religiosos quebrando o disco a marretadas em praça pública e a porra toda. Legal perceber que, no entanto, os estadunidenses convenientemente se esqueceram de tentar entender as letras de Run To The Hills, sobre o massacre dos índios na Conquista da América. ;)

Mas esquece este lance de satanismo aí. O baixista Steve Harris, líder e principal compositor do grupo, já contou um monte de vezes que a música surgiu depois de um pesadelo que ele teve, na noite em que assistiu ao filme A Profecia II. Ah, sim, é sempre importante destacar que NÃO, gente, NÃO É o Vincent Price que lê a introdução do começo, aquela que faz referência às passagens bíblicas do Apocalipse 12:12 e 13:18. Aquela é a voz do ator Barry Clayton, que topou a empreitada depois que Price recusou fazer por menos de £25,000 (em torno de US$ 30.000).

Obviamente que, claro, não faltam histórias a respeito. Durante a gravação do álbum, o produtor Martin Birch se envolveu em um acidente de carro, batendo no automóvel de um fanático religioso numa noite de domingo. Quando ele recebeu o carro de volta do mecânico, a quantia a pagar dava exatamente 666,66 libras. Assustado, Birch mandou que a conta fosse arredondada para 667. Esta tem a maior cara de lenda urbana, mas tudo bem, a gente engole mesmo assim. ;)

De qualquer maneira, The Number of The Beast é daqueles discos que não apenas entraram para a história da cultura pop mas que também conversam um bocado com ela. A imagem da capa, por exemplo, que estava originalmente pensada para ser a arte do single Purgatory, foi inspirada numa ilustração de um gibi do Doutor Estranho. Já a letra da canção Children of the Damned é baseada na trama dos filmes de terror A Aldeia dos Amaldiçoados (de 1960, que geraria o remake A Cidade dos Amaldiçoados, em 1995, de John Carpenter) e A Estirpe dos Malditos (1964).

Talvez a referência mais conhecida, no entanto, seja a da música The Prisoner, inspirada na série de TV britânica de mesmo nome (aqui no Brasil, O Prisioneiro) exibida no final da década de 60, trazendo até diálogos da seqüência de abertura. No disco Powerslave, outra canção homenagearia a mesma série: Back in the Village.

Por falar em continuação, aliás, 22 Acacia Avenue é sequência direta da música Charlotte The Harlot, de 1980, que conta a história original da prostituta que é a verdadeira encarnação da luxúria, que chega até a se envolver com a própria Besta. Ela seria mencionada ainda em Hooks In You (1990) e From Here To Eternity (1992) e, em 2011, tornou-se personagem da HQ All-Star Western, da DC Comics. A cortesã era coadjuvante das histórias nas quais Jonah Hex e Amadeus Arkham viviam aventuras numa versão Velho Oeste de Gotham City.

Mais cultura pop do que isso, impossível. ;)