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Foi num dia 17 de Fevereiro que o Espírito Que Anda chegou a este mundo, que nunca mais foi o mesmo


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Diz-se que Action Comics #1, de 1938, é um marco da mitologia humana. Foi quando o Superman foi introduzido, o primeiro herói das HQs com força descomunal e que queria proteger os fracos e os oprimidos. Marcou tanto o início de uma grande era que a primeira parte de seu nome começou a ser usada para classificar todos aqueles que vieram depois e seguiam os mesmos moldes. Era o surgimento dos super-heróis.

Mas tem um senhor de exatos 80 anos que pode significar um pouco de água nesse chope do Superman.

Desde o final do século XIX as tiras de quadrinhos eram um sucesso nos jornais dos EUA. No começo do século seguinte, com a criação dos syndicates, as tiras se popularizaram ainda mais, com títulos de sucesso sendo publicados em diversos jornais pelo país. A empresa mais popular na distribuição de material para jornais, a King Features Syndicate, já tinha o Popeye e o Flash Gordon. Em 1934 surgiu um novo sucesso, o Mandrake, criado por Lee Falk.

O Mandrake é, basicamente, um mágico que possui uma técnica de hipnose extremamente rápida, além de outros poderes – e passa a usar isso para enfrentar vilões dos mais diversos tipos. A King Features gostou tanto do resultado que pediu para Falk criar um novo personagem do mesmo estilo.

Falk já era fascinado pelo Zorro, herói mascarado que combatia o crime na Califórnia durante o período no qual a região era parte do México e que foi criado para os pulps (livros mais baratos) em 1919. Outra inspiração foram os deuses gregos, Tarzan e Mowgli, esse último o protagonista da série de histórias O Livro da Selva – e que, depois, seria adaptado para o cinema pela Disney com o nome de Mogli.

Com tudo isso no liquidificador, nascia o Fantasma, que teve a primeira tira publicada em 17 de fevereiro de 1936.

Nas duas semanas seguintes, Falk continuou escrevendo e desenhando, como parte da apresentação da ideia para a King Features. Depois, a arte foi assumida por Ray Moore, enquanto Falk continuou escrevendo as histórias até a sua morte, em 1999.

A primeira tira

A primeira tira

A história do nosso herói começa nas selvas de Bangalla (Bengal na primeira história), um fictício país da África (originalmente, na Ásia). Lá existe a lenda do Espírito Que Anda, um homem que nunca morre e que possui poderes sobrenaturais para combater o crime e proteger os inocentes.

Na prática, o Fantasma não era nenhum super-humano. Ele era apenas um homem comum, Christopher “Kit” Walker, o 21º descendente numa linhagem de protetores de Bangalla iniciada em 1525 pelo náufrago também chamado Christopher Walker, que jurou acabar com a pirataria, a crueldade e a injustiça. A partir de então, o posto de Fantasma passou a ser hereditário, criando essa lenda de que o herói era imortal. Por 20 gerações, os Walkers viveram na Caverna da Caveira e vestiram uma roupa roxa baseada em um deus demônio.

Nas décadas seguintes, Falk foi se aprofundando nas origens do personagem – estabelecendo, por exemplo, que ele foi aos 12 anos estudar nos EUA, no Missouri, terra de sua mãe. Lá ele aprendeu diversos esportes, conhecendo o futuro amor de sua vida (Diana Palmer) e tudo mais, mas teve que voltar para Bengalla assim que soube que o pai estava morrendo. O manto do Fantasma o esperava.

The-PhantomAlgumas características se tornaram marcantes para o herói. Ele, por exemplo, usa duas armas de fogo, mas nunca para machucar seus oponentes, sim para desarmá-los. Além disso, o herói possui dois anéis: um formado por quatro sabres, que ele usa na mão esquerda (“perto do coração”) e com o qual marca aqueles que estão sob a sua proteção; e o outro com o desenho de uma caveira, que fica na mão direita e deixa a famosa cicatriz no rosto dos seus inimigos.

Não demorou muito para que aquela combinação de elementos fizesse o Fantasma ser um sucesso. O início da Segunda Guerra Mundial, em 1939, foi o empurrão que faltava para o personagem (e para diversos outros). Em pouco tempo o Fantasma não apenas estava socando Nazistas, como suas tiras eram publicadas em quase todo o mundo. Pra você ter uma deia, na Noruega “Phantom” era a senha secreta da resistência à invasão alemã, tamanha a força do personagem.

No Brasil, o Fantasma chegou ainda em 1936, publicado pelo suplemento A Gazetinha, do paulistano A Gazeta. Uma curiosidade é que, por limitações gráficas da época, o Fantasma tinha o uniforme VERMELHO por aqui.

Depois do final da Segunda Guerra Mundial, os super-heróis como um todo perderam espaço no imaginário popular, algo que só seria recuperado no final dos anos 50. Ainda assim, o Fantasma sobreviveu a tudo isso e continuou firme e forte no FILÃO das tiras. Mesmo a atual crise dos jornais impressos não abalou o personagem, que é pulicado até hoje – e suas tiras podem ser lidas online.

Além dos jornais

O Fantasma é, mesmo hoje, mais identificado com as tiras dos jornais, mas isso nunca o impediu de alcançar outras mídias. Já em 1936 a Whitman Publishing Company publicou a primeira adaptação do personagem, na forma de um pulp ilustrado. Nos anos 1940, as aventuras anteriores do personagem nas tiras passaram a ser compiladas em gibis mensais, publicados inicialmente pela Ace Comics.

Na mesma época, o Fantasma fez a sua estreia na tela grande, por meio de um seriado lançado em 1943 pela Columbia. A produção, que teve 15 episódios lançados nos cinemas, fugia bastante da fonte original, inclusive dando um novo nome (Geoffrey Prescott) para o protagonista.

Já em 1961 surgiu uma nova oportunidade live-action para o herói, agora na TV. Naquele ano foi produzido um piloto de uma série que teria Roger Creed no papel principal, mas o orçamento era extremamente apertado e nenhuma emissora se interessou pelo resultado final.

Depois de mais algumas décadas de hiato, o Fantasma reapareceu na TV em 1986, na série animada Defensores da Terra. O conceito era bem interessante: reunir na mesma equipe os famosos heróis da King Features Syndicate: Flash Gordon, Mandrake (e seu assistente Lothar) e, claro, o Fantasma, além de seus respectivos herdeiros. A série inovou de diversas formas, principalmente ao introduzir um irmão maligno para o Kit Walker da vez (chamado Kurt Walker) e uma filha para o personagem, chamada Jedda, que, quando pensa que o pai está morto, chega a assumir o manto do Fantasma por um curto período.

Outro detalhe da animação é que o Fantasma tinha, de alguma forma, poderes sobrenaturais, além de um anel que podia atirar laser nos inimigos (!).

Defensores
O sucesso da série fez com que a Marvel convocasse ninguém menos que o Stan Lee para escrever uma minissérie em quadrinhos com os Defensores da Terra, publicada em 1987. Pouco depois, em 1988, o Fantasma foi licenciado para a DC Comics, que publicou uma minissérie e uma HQ mensal entre 1988 e 1990. Sim, o Fantasma é um dos poucos personagens que pode falar que já passou pelas DUAS grandes editoras de quadrinhos dos EUA.

Pouco depois, em 1994, estreou a série animada Phantom 2040, que, como o nome indica, trazia uma encarnação futura do Fantasma, o 24º. Nessa versão, o jovem Kit Walker vivia com a tia Heloise em Metropia (o novo nome de Nova York), quando descobre todo o legado da família e se vê obrigado a usar o manto do Fantasma Que Anda. Foram produzidas duas temporadas, com um total de 35 episódios, e a série foi muito elogiada na época pelos enredos elaborados e por um elenco de dubladores com uma performance mais madura, algo incomum até então.

Outra curiosidade é que essa série motivou uma nova HQ pela Marvel, uma minissérie em quatro partes desenhada por ninguém menos que Steve Ditko, o co-criador do Homem-Aranha. É, os dois pais do Homem-Aranha já passaram pelo herói. ;)

Em 1996 estreou nos cinemas o primeiro longa-metragem do personagem, chamado simplesmente de O Fantasma, e que trazia Billy Zane como protagonista. O filme é, em diversos momentos, bem fiel aos quadrinhos, apesar de trazer uma origem diferente para a caveira que o herói carrega em seu dedo. Só que O Fantasma sofreu com atuações fracas, o roteiro simplista e o fato dos super-heróis não serem, na época, os queridinhos de Hollywood e do público fizeram o filme naufragar. Com um orçamento de US$ 45 milhões, o filme arrecadou apenas US$ 17,3 milhões nos EUA.

Depois veio mais um hiato e, tirando algumas graphic novels, a única forma de encontrar histórias inéditas do Fantasma periodicamente era por meio das tiras nos jornais. Isso foi quebrado em 2009, quando o canal Syfy lançou a minissérie The Phantom, composta por dois episódios de 90 minutos e com um protagonista usando um uniforme modernoso.

A ideia era que a minissérie funcionasse como piloto de uma nova série de TV, estrelada pelo 22º Fantasma, mas não deu certo e o projeto foi pro limbo em seguida.

O Fantasma do Syfy

O Fantasma do Syfy

Como um legítimo Espírito Que Anda, ele ainda vive em diversos boatos e rumores sobre um novo filme. No final da década passada se falava sobre The Phantom: Legacy, um reboot da história do personagem que teve o roteiro escrito pelo australiano Tim Boyle (diretor de Fink). Ninguém disse nada, mas o projeto de Boyle deve ter indo pro limbo em algum momento.

Em 2014 surgiu um novo rumor, que colocava o produtor Mark Gordon (de Criminal Minds) em um projeto relacionado ao personagem. Depois de quase dois anos e nenhuma nova informação, é difícil imaginar que algo ainda vá sair do papel.

Quem veio primeiro?

Uma das grandes polêmicas envolvendo o Fantasma é, claro, aquela velha história: qual é o primeiro super-herói dos quadrinhos?

Há quem defenda que esse posto cabe à outra cria de Lee Falk, o Mandrake. Afinal, o mágico das tiras de jornal já possuía poderes de outro mundo e combatia o crime. Por outro lado, faltam elementos clássicos dos super-heróis modernos, como um alter-ego, o uso de uma máscara e um uniforme coladinho no corpo.

Se você pensar bem, o Fantasma preenche esses últimos requisitos. Além disso, este foi o primeiro herói a ter os olhos “brancos”, sem as pupilas desenhadas, quando estava de máscara. Falk havia se inspirado nas estátuas dos deuses gregos, acreditando que a falta de pupilas dava um ar mais divino e poderoso para eles — só que ele não sabia que os antigos gregos, na realidade, retratavam esse detalhe em suas estátuas, com todas as cores, ridiculamente vibrantes, sumindo com o passar do tempo.

Por outro lado, o Fantasma não possui superpoderes, sendo apenas um cara normal com um ótimo treinamento. Dessa forma, ele não seria candidato ao adjetivo “super”. Mas... O Batman não tem superpoderes e é um super-herói, certo? Então!

Fantasma

A questão dos superpoderes é a principal argumento de quem coloca o Superman como o primeiro “super-herói” – por outro lado, o Homem de Aço não usa máscara para combater o crime, apenas para ser o pacato Clark Kent (sim, eu estou me referindo aos óculos). Outro detalhe é que os defensores desse argumento ainda dizem que o Fantasma surgiu nas tiras de jornal, o que “tecnicamente” não se enquadraria na categoria de histórias em quadrinhos.

Uma grande besteira, claro. Na época, na década de 1930, as revistas em quadrinhos eram uma novidade e o dinheiro estava nos jornais. Tanto é que Jerry Siegel e Joe Shuster, os criadores do Superman, não demoraram para se empenhar mais nas tiras do que nos gibis que publicavam pela DC.

O fato é que personagens como o Zorro e o Sombra foram as bases para o ARQUÉTIPO dos super-heróis, com caras como Siegel, Shuster e Falk apenas levando essas ideias para uma outra mídia de massa, que em pouco tempo se tornou totalmente identificada com esse tipo de personagem.

O importante não é saber quem veio primeiro, mas celebrar que eles estão aí. E, no caso do Fantasma, são 80 pra celebrar. ;)

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