Os anos sombrios da Mulher-Maravilha | Judão

Sem saber o que fazer com a personagem, a DC trouxe elementos das artes marciais e da série britânica The Avengers – só que não deu certo

A Mulher-Maravilha é um dos pilares da DC, isso você já sabe. O que talvez você não saiba é que, por algum tempo, a personagem patinou em sua popularidade. E quase tudo deu errado entre o final dos anos 1960 e o começo dos 1970, quando ela abriu mão de seus poderes, investiu nas artes marciais e se tornou uma cópia da Emma Peel, a personagem da série britânica The Avengers.

Tudo isso começou com a morte de William Moulton Marston, o criador da personagem. Era final dos anos 1940 e a popularidade dos super-heróis dos quadrinhos, em geral, estava em baixa após o final da Segunda Guerra Mundial. Pouco depois, Harry G. Peter, o artista original, também deixou a heroína. Ainda assim, a então National Periodical Publications, que hoje atende pelo nome de DC Comics, manteve o gibi da personagem ao lado de Superman e Batman.

Foi aí que, em 1956, Robert Kanigher e Carmine Infantino recriaram o Flash utilizando diversos conceitos da ficção científica, que era uma verdadeira febre na época. Em pouco tempo, os heróis coloridos foram recriados a partir daquela fórmula e voltaram a fazer sucesso, iniciando a Era de Prata dos Quadrinhos.

Uma delas foi justamente a Mulher-Maravilha que, em Wonder Woman #105 (de 1959, justamente com roteiros de Kanigher e com arte de Ross Andru), ganhou uma nova origem. Nessa versão, descobrimos que a bebê Diana havia recebido a beleza de Afrodite e a sabedoria de Atena, que Mercúrio ficou surpreso com a rapidez da menina e que Hércules estava ABISMADO com a força dela. Anos depois, a garota assumiria o nome de Moça-Maravilha (tal qual a fase Superboy do Superman) e, mais velha, se tornaria a Mulher-Maravilha – mas sem nunca ter lutado na Segunda Guerra Mundial.

A Mulher-Maravilha no começo da Era de Prata

Por diversos motivos, a nova fase não colou como a dos outros heróis da DC e até por isso a publicação da personagem se tornou bimestral. Em 1960, de acordo com números do Comichron, Superman vendia uma média de 810 mil exemplares por edição, enquanto o Batman estava na casa dos 502 mil. Títulos secundários deles também vendiam bem, como Superman’s Pal Jimmy Olsen (498 mil), Action Comics (458 mil) e Detective Comics (314 mil).

Isso enquanto Wonder Woman, o único e solitário título da Maravilhosa, tinha 213 mil gibis de média. Era uma Trindade bem desequilibrada, como você pode perceber.

Os anos foram passando e a situação era praticamente estável – em 1965, Superman era o mais vendido, com uma média de 823 mil exemplares por edição, isso enquanto Wonder Woman estava na casa dos 209 mil, ocupando a 64º posição na tabela.

Foi aí que surgiu a ideia de recriar a personagem. Não com uma atualização de sua origem, como havia sido feito nos anos 1950, mas introduzindo conceitos que a editora acreditava serem mais “atuais”. Foi aí que, em 1968, a dupla Denny O’Neil e Mike Sekowsky recriou a personagem a partir da edição 178 de Wonder Woman.

Nessa fase, é revelado que as amazonas precisam ir para outra dimensão para reestabelecer seus poderes após um período de 10 mil anos na Terra. Diana teria que seguir com elas, mas, com o amado Steve Trevor no meio de uma enorme treta e sendo chamado de traidor pelo governo, ela resolve ficar. Assim, Hipólita, a mãe da heroína, retira os poderes e o uniforme da Mulher-Maravilha. Sem saída, Diana encontra um mestre das artes marciais AND cego chamado I-Ching, que a treina em artes marciais como o karatê.

A transição acabou na edição 180, quando Steve Trevor foi morto e Diana Prince se tornou, definitivamente, um novo tipo de personagem. Essa fase, chamada de The New Wonder Woman, trazia inspirações comuns na época, como o próprio uso das artes marciais, além de passar a operar mais como uma detetive. Ainda assim, a DC não conseguia fazer da Mulher-Maravilha um sucesso, trocando o seu uniforme diversas vezes e colocando quatro roteiristas diferentes para escrever a revista num período de apenas 25 edições.

O resultado é bem claro: em 1969 as venda média da publicação – que continuava bimestral – havia caído para 171 mil exemplares.

Em 1972, o fundo do poço: Wonder Woman começou a ter republicações, basicamente de HQs do final dos anos 1960, já da fase do I-Ching. Dennis O’Neil reassumiu os roteiros logo em seguida, trazendo elementos do universo do vilão Ra’s Al Ghul (que ele co-criou) e uma atmosfera mais sombria. Junto, vieram mais páginas e a troca do título na capa para Diana Prince: Wonder Woman. Talvez, hoje, o clima funcionasse com uma revista segmentada da Vertigo ou algo assim, mas, naqueles tempos das bancas de jornal, também não deu certo.

A última cartada da DC foi convocar o escritor Samuel R. Delany, já consagrado pelo livro Babel-17, que escreveu duas edições e ficou por ali. Era hora de acabar com tudo isso.

Edição já do final dessa fase, quando o título era ‘Diana Prince: Wonder Woman’

Naquela época, surgiu um movimento pelo retorno da boa e velha Mulher-Maravilha, pedindo que encerrassem o ciclo no qual a principal heroína dos quadrinhos estava privada de seus poderes. Gloria Steinem, feminista e editora da Ms., não só colocou a personagem com o visual clássico na capa da primeira edição da revista, como também fazia uma campanha para que a heroína fosse a presidente dos EUA – numa eleição que, depois, seria vencida por Richard Nixon.

Wonder Woman #204, publicada no finalzinho daquele ano, marcou o retorno do roteirista Robert Kanigher, que não só matou I-Ching rapidamente como fez com que Diana retornasse para a Ilha Paraíso para recuperar seus clássicos poderes e uniforme. Pra fechar, ela arranjou um emprego de tradutora nas Nações Unidas, formalmente encerrando a fase ao estilo de Emma Peel.

Aqueles já eram os anos 1970, com toda uma nova geração e, claramente, com um maior apelo da Mulher-Maravilha entre os leitores de quadrinhos. Para ajudar, a personagem passou a ser mais conhecida por conta do desenho animado dos Superamigos, da Hanna-Barbera. Poucos anos depois veio a série de TV, estrelada pela Lynda Carter, colocando-a oficialmente no panteão da cultura pop.

A partir de 1977, Wonder Woman voltou a ser mensal. A má fase havia passado e a Trindade da DC estava, de vez, estabelecida. Hoje o mercado é completamente diferente, mas Wonder Woman vende tanto quanto o Superman. Deu tudo certo. ;)