Os Cavaleiros que ficaram no meio do caminho do Santuário | JUDAO.com.br

A nova série animada do Netflix, que reinterpreta os bravos guerreiros da Deusa Atena, acerta em muitas coisas, mas soa sem tempero em tantas outras. Quem sabe o que vem pela frente depois destes seis episódios, né? ¯\_(ツ)_/¯

Quando o Netflix anunciou que faria uma nova versão dos Cavaleiros do Zodíaco começando do zero, desde as já clássicas origens dos personagens e indo em direção à icônica Saga do Santuário, hmmmm... Não veio na boca aquele gosto amargo que ficou graças ao pavoroso longa Os Cavaleiros do Zodíaco: A Lenda do Santuário, de 2014?

Ó, vamos lá, sem exageros aqui: a intenção de modernização do gigante do streaming foi realmente sincera. Diferente do bizarro filme com os bravos guerreiros de Atena computadorizados, grande parte da atualização aqui parece um tanto mais ~natural, menos forçada, menos “Hello Fellow Kids”. A dublagem funcionou na mosca, com as vozes originais incorporando expressões e trejeitos atuais de maneira solta, leve, sutil.

Além disso, a atualização da mitologia também funcionou — tanto na parte em que o tal COSMO é tratado como um superpoder inerente, que nasce com a gente, tipo uma manifestação mutante, e menos como uma coisa meio hipster-astrológica-pasteurizada sem grande explicação que a gente desenvolve meio na base da meditação, quanto na ambientação.

Vivemos num mundo de tecnologia avançadíssima ao nosso redor, então nada mais justo do que contrapor a magia e o misticismo a um universo de celulares, GPS, implantes cibernéticos e vídeos que viralizam no YouTube. A ambição do homem, aqui cristalizada na figura do personagem inédito Vander Guraad, um general que quer dominar o poder das armaduras de ouro, faz os Cavaleiros questionarem suas rígidas regras de conduta e mesmo umas tais profecias ancestrais em prol do que é certo — taí uma coisa bem legal de ver, que acrescenta uma bem-vinda camada de complexidade à hierarquizada sociedade dos cavaleiros de ouro, prata, bronze, etc.

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Isso sem falar no timing, né? Claro que a gente entende que existe uma diferença clara entre o tipo de narrativa tipicamente ocidental e aquele dos mangás/animes, mas quem viu a série original sabe bem que Cavaleiros disputava com Dragon Ball Z o título de maior duração de uma batalha em número de episódios. Por vezes um único quebra-pau durava tipo três capítulos, o que definitivamente tirava um pouco do impacto e do tesão da coisa toda, ficava chaaaaaaaato de acompanhar os muitos olhares arregalados e trocas de “o quê?” e “como disse?”.

Aqui, eles souberam equilibrar bem os treinamentos, a disputa da Guerra Galáctica, a aparição do Ikki/Cavaleiro de Fênix e os Cavaleiros Negros num fluxo bem temperado e coerente.

Isso tudo são bons acertos. Mas não dá pra negar que estes novos Cavaleiros do Zodíaco também erram. E os deslizes são grandes e incômodos o suficiente pra você não ter muita certeza se eles valem a pena os acertos.

É, a gente precisa MESMO começar falando da Shun, tá? Por um lado, legal, fica claro desde o começo que existe espaço para as mulheres que querem ser cavaleiros e/ou amazonas — e toda a história do apagamento do passado das mulheres por trás das máscaras não é uma regra, haja vista que a Shina não usa máscara enquanto Marin ainda a tem no rosto por motivos CLARÍSSIMOS de “ela é a irmã do Seiya e não quer ser reconhecida de imediato”. Muito mais Ômega, muito mais Yuna de Águia. Gosto.

Só que... duas coisas aqui. A primeira é que, AH, VEJAM VOCÊS, de que adianta fazer esta mudança muito da bem-vinda se a Shun é a ÚNICA cavaleiro/amazona de bronze que aparece ao longo dos seis episódios? Sério. Fora Marin e Shina, que não usam armaduras propriamente ditas, não tem uma única mina nem de coadjuvante nos treinamentos ou mesmo no torneio? Tem algo errado, não?

Mas aí rola a segunda cagada. Tá, a Shun funciona como o Shun funcionava para a dinâmica do quinteto. Mas é aí que mora o problema. Ela continua sendo a personagem frágil, delicada, que não quer saber de confusão, que é especialista na arte da defesa e não no ataque. A gente falou sobre isso aqui assim que saiu o primeiro trailer e descobrimos a mudança de sexo e mantenho o que disse na época: “mudança certa só que do jeito errado”. Dava TRANQUILAMENTE para ser o Hyoga de Cisne, por exemplo, que aqui é o cara mais complexo, chato, provocativo, arrogante. Ou mesmo o Shiryu de Dragão. Era preciso ousar mais, ainda que fosse incomodar mais.

E, vamos ser francos, é impossível ignorar a questão da animação, tecnicamente falando. Tem algo que não funciona ali. A movimentação dos personagens é bastante dura, engessada, parecendo demais um videogame que SE PARECE com um videogame. Falta uma fluidez que fique bastante evidente principalmente durante as lutas. Além disso, as expressões faciais fazem falta. Falta contração nos olhos, falta tremedeira na boca, pra expressar raiva, tristeza, surpresa. A rigidez do olhar da Saori, por exemplo, chega a ser assustadora. Ela realmente parece uma boneca, o que está longe de ser uma boa notícia. No máximo, um dos únicos que ainda traz um tantinho de profundidade no rosto é o Ikki — e mesmo assim, com muita boa vontade de quem está assistindo.

Pra completar, sim, é MUITO legal ver o Aiolia de Leão aparecendo majestoso na frente de um Seiya ainda criança e mostrando a extensão de seu poder ao bloquear os tiros de um helicóptero com o próprio corpo e ainda derrubar a aeronave do ar com um movimento das mãos. Mas, alguns episódios adiante, quando temos o Cavaleiro de Pégaso e seus três novos parceiros defendendo Atena no meio do deserto diante de um exército, o recurso dos raios de energia sendo disparados pelos guerreiros contra aviões e tanques é usado repetidamente até que se desgasta, perde o impacto. E o que era pra ser um dos grandes momentos da série vira só mais uma terça-feira, com meteoros, cóleras e pós de diamante sendo gritados quase como numa metralhadora.

E não para ali: talvez numa tentativa de agradar os fãs ~das antigas, os golpes principais de cada um dos cinco são repetidos e berrados à exaustão, tirando a característica especial de cada um destes momentos. Quando o Shiryu preparava a sua Cólera do Dragão, era um momento único, o ápice do episódio do dia, a catarse suprema de energia. Jogado assim, vira mais um soco no queixo numa batalha genérica. O que é especial precisa ter o seu espaço pra ser REALMENTE especial.

Não tenho lá muita dúvida de que estes Cavaleiros vão retornar numa nova leva de episódios, partindo para o Santuário, onde redimirão Ikki, descobrirão a conspiração para eliminar Atena, vão se deparar com os Cavaleiros de Prata, serão apresentados ao Mestre e suas duas faces e então vão iniciar a subida pelas Doze Casas para as lutas épicas com os Cavaleiros de Ouro. Isso pra não dizer que tanto Poseidon quanto Hades já foram devidamente mencionados previamente. As chances de evolução são ótimas. O que o time de produção vai fazer com elas é que o problema verdadeiro. Aguardando ANSIOSAMENTE por Máscara da Morte vs Shiryu e Camus de Aquário vs Hyoga pra ver o que vai ser feito aí...

PS: Eu poderia ser esta pessoa que reclama da abertura ser cantada em inglês, quando temos uma já lendária tradução de Pegasus Fantasy interpretada lindamente por diversos cantores locais? Poderia sim. E até fui, na verdade. Mas confesso que me acostumei e, ao descobrir que tinham sido os ingleses do Struts, uma lindíssima e recomendadíssima banda contemporânea que tinha que ser ouvida por muito mais gente no mundo, os responsáveis tanto pela abertura e pelo encerramento, passei a gostar bem. Vale assistir sem recorrer ao botão de “pular”. <3