Os crimes de JK Rowling | JUDAO.com.br

Os fãs podiam começar a separar os universos dos livros do universo dos filmes… Se JK Rowling conseguisse se separar dessa história, também.

Acho que nunca a Warner ficou tão feliz com um lançamento da Disney como ficou com esse teaser de Rei Leão. Foi tanta discussão, em sua maioria besta e desnecessária, que a galera desencanou de Animais Fantásticos: Crimes de Grindelwald e deu um tempo nas reclamações e questionamentos pra JK Rowling.

Animais Fantásticos: Crimes de Grindelwald é um filme ruim como cinema, mas talvez seja ainda pior como “segunda expansão” do Universo Harry Potter. Enquanto o primeiro filme surpreendia pela diversão, criando enormes possibilidades pro futuro da grande franquia da história da Warner, o segundo soou mais como uma tentativa de fazer uma PREQUÊNCIA de Harry Potter, apenas e tão somente. “Animais Fantásticos” fazem o que nesse título, se eles mal tem destaque no filme? Newt Scamander, que deveria ser o protagonista, é quase empurrado pra fora da história, com o foco ficando em Dumbledore, Grindelwald e um enorme monte de referências e easter eggs aos outros filmes e livros.

Eu nunca vou concordar com a ideia de que um filme “foi feito pra fã”, mas é bem verdade que é quase impossível entrar na onda dessa história escrita por JK Rowling (não vamos nos esquecer disso, ok?) se você não for o chamado Potterhead — o que, também, não alivia muito pros lados da Warner e JK Rowling.

Em um determinado momento do filme, num flashback, vemos a professora Minerva McGonagall — ou alguém com o mesmo sobrenome, pelo menos — cuidando dos alunos em Hogwarts. Isso acontece em 1910 o que, de acordo com o que JK Rowling escreveu anteriormente, a não ser que ela tenha usado um Vira-Tempo ou nem sequer fosse ela (teria de ser sua mãe, já que McGonagall é um sobrenome trouxa), seria realmente impossível de acontecer: ela nasceu em 1935.

Aparentemente essa data estava em uma versão inicial da sua biografia publicada no Pottermore, o que não rola mais. Mas, pelos livros — especialmente um diálogo com Dolores Umbridge, em Harry Potter e a Ordem da Fênix — é possível afirmar que não só ela nasceu nesse ano, como pisou em Hogwarts pela primeira vez em 1947, aos 11 anos e 11 meses.

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Tem muita gente chamando isso de “furo de roteiro”. Tem muita gente reclamando que isso é um daqueles “fan services” que aquela galera que se diz fã e quer service adora. Tem muita gente achando tudo um absurdo.

Olha, eu sinceramente não sei dizer quão diferentes os filmes são dos livros — tirando o quinto, cujo filme é INFINITAMENTE melhor que o livro. Mas, independente disso, não era o caso de, assim como QUALQUER outra adaptação, a gente separasse os universos? Permitisse que o dos filmes seja o dos filmes, deixando o dos livros nos livros?

Tá, sabemos que não há exatamente uma diferença de público CINEMA / LIVRO tão grande quanto existe, por exemplo, CINEMA + TV / QUADRINHOS, até pela quantidade de coisas que se precisa ler pra conhecer a história. Mas ela existe, assim como (e principalmente) a diferença entre as mídias. Duração, maneira de contar a história.

Harry Potter e a Pedra Filosofal é um filme MUITO ruim, justamente por tentar transcrever as páginas dos livros pro cinema. No caso específico de Animais Fantásticos, são histórias que foram escritas exclusivamente para os cinemas. Há, óbvio, uma base tanto nos livros quanto nos outros filmes; mas é uma história feita para o cinema. Porque não podemos, então, acompanhá-la como tal?

A resposta pode estar na própria JK Rowling, que se recusa a deixar a história existir por si, parecendo uma nova versão do George Lucas. Com o Pottermore e, agora, Animais Fantásticos, a escritora escocesa tem a chance de aumentar, diminuir e alterar a história em duas mídias que, ao contrário dos quadrinhos, não permitem ou aceitam isso tão facilmente.

Os hologramas dos mortos, homossexualidade, midchlorians, mulher que vira cobra, Johnny Depp... Tudo não passa de uma vontade, genuína até, de melhorar a história que foi contada anteriormente, mas que acaba esbarrando naqueles que, não sem razão, acreditam que a história pertence a eles: os fãs.

Não acredito que Harry Potter — a franquia como um todo — vá sofrer de fato com esse tipo de coisa. Mas corre o risco de acabar perdendo o interesse de quem a fez ser o que é hoje, e se tornar apenas uma piada por aí. Jar Jar Binks não me deixa mentir.