Os DC Filmes finalmente começaram a abraçar o poder do seu passado | Judão

E foram necessários só um Danny Elfman e um John Williams pra conseguir ;)

Enquanto a Marvel foi ter sua primeira adaptação cinematográfica de sucesso lá no final dos anos 1990, com Blade, a DC vem deixando sua marca de forma relevante na história do cinema desde ao menos 3 décadas antes, com filmes memoráveis do Superman, do Batman... E do Superman e do Batman. :D

Se a GALHOFA do Cavaleiro das Trevas sessentista, absolutamente pastelão pros padrões atuais (e até mesmo da sua época, pra ser sincero) é lembrada mais por saudosistas e gente tirando sarro, é inegável que as INCURSÕES de Tim Burton com o personagem, em 1989 e 1992, vieram a fortalecer a base para que, anos mais tarde, filmes com super-herói se tornasse corriqueiros nos cinemas.

Esses, por outro lado, dificilmente teriam existido sem os brilhantes filmes do Superman de Richard Donner (e estou contando o II aqui também, mesmo com a mudança de direção repentina). Por mais DATADOS que possam parecer, hoje, os dois primeiros longas do azulão na virada dos anos 1970 para os 1980 não são só o FILME DE HERÓI original, como até hoje funcionam perfeitamente como manual para grandes histórias desse ~gênero, vide Mulher-Maravilha.

Ao longo dessas décadas, portanto, a DC construiu, nos cinemas, uma identidade repleta de elementos marcantes que ressoam com o público — sejam eles uma trilha sonora composta por John Williams ou Danny Elfman, uma frase de efeito característica como um “I’m Batman” da vida, ou uma determinada assinatura visual, como é com o Superman correndo em direção a um beco e estourando os botões pra revelar seu “S”.

Quando a máquina de filmes da Marvel finalmente engrenou, lá em 2008 com o fenomenal Homem de Ferro, os DC Filmes estavam no meio de um projeto autoral: a trilogia Cavaleiro das Trevas, de Christopher Nolan. Em se tratando de uma interpretação própria do MYTHOS do Batman, fazia sentido que aqueles filmes, à sua forma e maneira, existissem num vácuo em relação aos seus antecessores (até porque os mais imediatos, bem, pergunte ao Joel Schumacher). Só que, uma vez encerrada, não era realmente essencial que essa fórmula fosse transformada em regra para toda e qualquer produção do “selo”. Só que aí…

Tanto pelo sucesso comercial da trilogia de Nolan, quanto pelo fracasso de Superman: O Retorno anos antes (esse sim, um filme que abraçava de corpo e alma o passado, mas errava feio justamente no que tentava criar de novo), decidiu-se que o ideal seria buscar novas direções, meio que esquecendo, meio que renegando mesmo (dentro do possível), tudo aquilo que havia sido feito antes.

Entra O Homem de Aço. Eu não quero argumentar, aqui, se esse é ou não um bom filme (é), muito menos se é um bom filme do Superman (não é), mas o fato é que, independente dessas duas questões, você há de concordar com uma coisa: ao se distanciar tanto do que grandes filmes, antes, definiram como sendo primordial a esse personagem, esse filme o descaracterizou, comprometendo um impacto emocional que poderia ser muito maior. E eu dou dois exemplos.

Flashback. Um Clark Kent INFANTE é sofrendo bullying no ônibus escolar quando, de repente, o motorista perde o controle do veículo, que viajava por uma ponte. Ele cai rio abaixo e, por um breve momento, parece que todos dentro dele sofrerão uma morte lenta e certa. Então, após alguns momentos de silêncio, o amarelão emerge das águas, empurrado por ninguém menos que o franzino Clark. A música que toca é de autoria de Hans Zimmer, parte da trilha original do longa, mas imagina o poder, a iconografia dessa passagem por muitos esquecido, se ouvíssemos a uma nova versão do tema clássico de John Williams? Ou até se isso acontecesse nos minutos finais do filme, quando Jonathan Kent observa um jovem Clark brincar com uma toalha vermelha em suas costas?

Com Batman VS. Superman: A Origem da Justiça, a parada só piorou, já que na “modernização” de Snyder, Kal-El passou mais longe ainda de ter uma Fortaleza da solidão, além de ter abandonado a desculpa da inexperiência para suas idiossincrasias. Enquanto isso, o Batman, além de genocida, sequer vivia na Mansão Wayne e, por algum motivo, passou a operar o batsinal que, teoricamente, deveria ficar no topo do prédio da polícia. Mas ok, nada nesse filme faz sentido.

Na tentativa de se diferenciar da Marvel, ao mesmo tempo em que tentava seguir os passos de uma franquia que funcionou como algo pontual (e por ter uma visão clara do que queria fazer), os DC Filmes abriram mão de usar um dos grandes trunfos que, desde o princípio, sempre tiveram na “briga” contra a Casa das Ideias: seu legado. Só agora, após quase 10 anos de um universo cinematográfico coeso, a Marvel passou a se autoreferenciar, autoparodiar e até auto-homenagear (três coisas feitas constantemente no brilhante Thor: Ragnarok). Mas a DC SEMPRE pôde fazer isso. Não fez porque foi trouxa.

Só que isso pode estar mudando. :D

Depois que Zack Snyder anunciou seu afastamento da pós-produção de Liga da Justiça e Joss Whedon assumiu a responsabilidades pelas refilmagens e finalização, não levou lá muito tempo para que a troca fizesse algumas vítimas, com Hans Zimmer AND Junkie XL sendo defenestrados da trilha sonora e ninguém mais, ninguém menos que Danny Elfman assumisse o posto. Veteraníssimo no cinema de FANTASIA, o cara chegou com aparente carta branca nas composições e, olha, fez um trabalho bastante do competente. E o melhor, sem medo não só de mergulhar no passado para buscar boas pérolas, como também de bater no peito e dizer: É ISSO AQUI QUE FUNCIONA, PORRA!

“As pessoas na DC estão começando a entender que nós temos esses pedaços icônicos de passado e isso é parte de nós, parte da nossa herança — nós não devemos fugir disso”, explicou o HOMEM ELFO em papo com a Billboard. “O pensamento contemporâneo é, toda vez que se faz um reboot, você começar do zero – o que, claro, o público vai dizer de novo e de novo, que é besteira. Porque o tema musical mais longevo e amado do mundo é de Star Wars, que eles tiveram o bom senso de nunca abandonar. E sempre que ele toca, todos vão à loucura”. Santa boa noção, Batman! Que gênio!

Levando isso bem a sério, Elfman optou não só por incorporar à sua trilha para Liga da Justiça o tema original de Superman, do John Williams, como “o único tema do Batman”, segundo ele mesmo: o seu, de 1989. O resultado é exatamente esse link emocional imediato com todos que se lembram e guardam no coração essas melodias icônicas. Ver o Superman socar aquela aberração escrota de CGI chamada Lobo da Estepe é maravilhoso. Mas vê-lo fazer isso ao som de sua grande música, puta que pariu, quase compensa pelo bigode mal apagado da cara do Henry Cavill. Quase.

Mas não é só isso que deixa claro o fim dessa fobia com seu próprio legado nos DC Filmes. De longe o melhor longa-metragem do Batman dos últimos (quase) 10 anos, LEGO Batman: O Filme arrancou muitas de suas risadas com inteligentes DIGRESSÕES ao passo dos longas inspirados na editora. E o próprio Liga da Justiça, em seus momentos finais, deixa claro que, daqui para frente, podemos esperar muito mais “acenos” para os acertos de outrora nos filmes – seja por uma breve visita a uma certa mansão, ou pela queda duns botões de camisa no chão.

E quanto ao Sr. Elfman, que me parece importantíssimo para lembrar periodicamente a galera da CAIXA D’ÁGUA de tudo isso, bom, ele tá mais que a fim de retornar quando necessário. E pra “qualquer personagem deles. São todos ótimos”, o cara falou ao CBR. E eu digo: por favor. :D

O futuro do DCEU nunca pareceu tão animador. E muito disso vem de seu passado.