Os dois lados do trailer do filme do Queen | Judão

O resultado final deste primeiro vídeo de uma produção repleta de problemas é incrível — em especial pela utilização das músicas. Só que tem um pequeno “mas”. Preocupante. E que está na sua cara, ali na sinopse.

Existe uma espécie de regra não-escrita no cinema que diz “se um filme tem uma música do Queen na trilha sonora, é impossível que ele seja ruim”. Tá bom, a parte do “impossível” é meio que um exagero, mas que a obra fonográfica da icônica banda inglesa dá uma baita ajuda e pode, inclusive, chegar a se tornar o grande destaque de uma produção nas telonas, ah, isso é verdade. De Highlander a Flash Gordon, passando por Quanto Mais Idiota Melhor e Todo Mundo Quase Morto, as faixas do Queen se tornam praticamente protagonistas junto com o restante dos personagens.

Então, imagina aí um filme no qual vai tocar só Queen praticamente do início ao fim. Tem tudo pra dar certo, né? Era o que se esperava de Bohemian Rhapsody, a cinebiografia do quarteto com foco especial na trajetória de Freddie Mercury — e cujo primeiro trailer foi liberado nesta terça-feira (15).

Como fã devotado da banda, a minha favorita desde sempre, eu confesso que tava preparado para ODIAR este filme. Não por nada, mas os muitos problemas da produção, da saída tempestuosa de Sacha Baron Cohen do papel de protagonista à demissão do diretor Bryan Singer em meio a tretas no set de filmagens com Rami Malek (Mr.Robot), que interpreta Freddie, me davam a percepção que a possibilidade de sair merda daí era grande. Mas então assisti ao vídeo. E pirei.

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Claro, é só um trailer. E posso estar sendo redondamente enganado por um de muitos trailers muito bem editados e produzidos, em especial no caso DESTE, que conecta de maneira inteligente diversas canções dos caras. Hollywood é especialista na magia de embalar direitinho e vender bem qualquer porcaria, já sabemos bem. Mas o aspecto FÃ falou mais alto aqui. Junte as músicas às discussões de bastidores sobre a duração do single que dá nome ao filme, fora dos padrões para a época, em meio a uma gravação cheia de excentricidades e milionária, o que transformou A Night at the Opera em um dos discos mais caros da história... Me pegou.

Só que então... 24h depois, existe um “mas”, relacionado a uma palavra-chave chamada EMPATIA, que a gente acha fundamental praticar aqui, na cultura pop, na vida. E que eu TIVE que praticar, passado o momento inicial de empolgação.

Dá o play aí embaixo. E aí a gente te explica porque é importante ir além de um vídeo incrível.

Perceba que existe apenas uma ÚNICA cena, de relance, na qual um outro aspecto da sexualidade do Freddie é minimamente sugerido. Porque, caso não tenha ficado claro ainda para ALGUÉM NESTA GALÁXIA, não, Freddie NÃO era hetero, ainda que existam divergências entre biógrafos sobre ele ser gay ou bissexual, já que o músico teve diversos casos com mulheres também. De qualquer maneira, o único resquício sequer de envolvimento com um outro homem neste vídeo é quando um cara que fisicamente lembra bastante Jim Hutton, o último namorado do cantor, se aproxima dele ao lado do piano. No restante, a edição pesa mais a mão no seu relacionamento com Mary Austin, aqui vivida por Lucy Boynton (a loira com quem ele flerta na plateia e que, segundos depois, está com ele no palco).

Sim, sim, estamos falando da mulher com quem ele teve um longo relacionamento, mesmo depois que enfim se encontrou e se revelou para ela, a companheira que os principais biógrafos chamam de “o grande amor da vida de Freddie” (Love of My Life foi dedicada a ela, por exemplo), a herdeira de sua fortuna quando o astro partiu. Tudo isso faz parte da biografia dele, não dá pra negar. Mas é tudo uma questão de entender a narrativa, né, minha gente. Não é O QUE é contado mas sim O JEITO que é contado.

E claro que isso gerou uma série de críticas, ABSOLUTAMENTE JUSTIFICADAS, sobre um medo de que a trama final siga demais por este caminho e acabe por decidir “apagar” a homossexualidade ou bissexualidade de Freddie, justamente em busca da tal história mais “família” que Brian May e Roger Taylor, respectivamente guitarrista e baterista do Queen, além de produtores da bagaça, queriam para o filme, em detrimento do aspecto um pouco mais “selvagem” que pretendia Cohen, o Borat.

Em entrevista ao programa do radialista Howard Stern, aliás, Cohen afirmou que a ideia dos dois foi justamente tirar um pouco o foco do estilo de vida reconhecidamente HEDONISTA de Mercury, trazendo mais o foco para eles enquanto BANDA, para proteger então o seu “legado”. O que, obviamente, é uma cagada sem tamanho, porque a reação que ainda causam as músicas deste trailer são a principal prova de que o legado do Queen tá muito bem protegido, valeu, galera.

Segundo Cohen, a ideia original seria mostrar a morte de Freddie no MEIO do filme, retratando então como a banda reuniu forças para seguir em frente depois disso. “Eu disse que ninguém iria ver este filme no qual o protagonista morre de AIDS no meio da história”. E ainda completa: “Brian May é um ótimo músico, mas não um produtor de cinema lá muito bom”.

PORRA BRIAN MAY. PORRA ROGER TAYLOR.

Que bom, aliás, que o ator falou de AIDS. Porque então aí vem outro MAS. Se, depois de assistir ao trailer, você se der ao trabalho de LER a sinopse OFICIAL que está logo abaixo, no YouTube, vai então sacar uma OUTRA cagada. A gente facilita pra você:

Bohemian Rhapsody é uma celebração exuberante do Queen, sua música e seu extraordinário cantor principal Freddie Mercury, que desafiou estereótipos e quebrou convenções para se tornar um dos artistas mais amados do planeta. O filme mostra o sucesso meteórico da banda através de suas canções icônicas e som revolucionário, a quase implosão quando o estilo de vida de Mercury sai do controle e o reencontro triunfal na véspera do Live Aid, onde Mercury, agora enfrentando uma doença fatal, comanda a banda em uma das maiores apresentações da história do rock. Durante esse processo, foi consolidado o legado da banda que sempre foi mais como uma família, e que continua a inspirar desajustados, sonhadores e amantes de música até os dias de hoje.

Esta é a versão em português. Porque a versão da sinopse em inglês ainda fala de “influências sombrias” que levaram o Freddie para uma carreira solo — e quem manja um tantinho da trajetória da banda sabe que a história não é beeeeem essa aí. Mas, por agora, vamos nos focar em “uma doença fatal”, que tem nome. Ela chama Síndrome da Imunodeficiência Adquirida, a AIDS. Por que ter medo de falar assim, tão abertamente? Pode tornar o filme menos “família”? Menos “vendável”? SÉRIO, GENTE?

Um dos primeiros a levantar a bola foi o produtor Bryan Fuller, de séries como Hannibal, American Gods e Star Trek: Discovery. Assumidamente homossexual, ele mandou este tweet que ajuda a explicar exatamente o que estamos querendo dizer aqui.

A hashtag #HETWASHING, inclusive, é uma variação do termo whitewashing — trocando o “branco que apaga outras representações étnicas” pelo “hetero que apaga outras representações sexuais”.

Um grande amigo meu, gay, me disse hoje pela manhã uma frase que resume bem o sentimento: “amei o trailer porque amo o Queen, as músicas são incríveis. Mas fiquei com esta pulga atrás da orelha. E espero de verdade que um ícone LGBT como o Freddie Mercury não seja retratado como apenas e tão somente um rock star excêntrico e a gente perca mais uma chance de se ver na cultura pop”.

Representatividade, cara. PORRA FOX!