Os elfos de Dungeons & Dragons vão poder mudar de sexo. E aí... | Judão

Em Mordenkainen’s Tome of Foes, novo suplemento do RPG mais famoso do planeta, descobriremos que certos integrantes da raça das orelhas pontudas podem escolher ser machos ou fêmeas. E, claro, começaram as reclamações…

Era pra ser apenas mais um vídeo de Jeremy Crawford, designer-chefe de regras da quinta edição do Dungeons & Dragons — um dos muitos que ele tem gravado para dar mais detalhes sobre o suplemento Mordenkainen’s Tome of Foes, que chega às lojas no mês de maio.

O livro, escrito como se fosse uma coleção de textos desenvolvidos a partir do conhecimento ancestral de Mordenkainen, mago da ambientação de Greyhawk, é focado nos maiores conflitos do multiverso de D&D. “Em suas viagens para outros reinos e planos de existência, ele fez muitos amigos e arriscou a vida diversas vezes”, explica a descrição oficial do livro. “Além das anotações de Mordenkainen sobre os conflitos sem fim do multiverso, o livro traz ainda estatísticas sobre dezenas de monstros: diversos demônios e diabos, uma grande variedade de elfos e duergar [os anões cinzentos do subterrâneo], e uma vasta coleção de outras criaturas nos mais diversos planos de existência”.

Multiverso, diversos planos de existência — fala sério, tanto faz se é gibi da Marvel ou jogo de D&D, mas a gente gosta mesmo desta coisa de realidades alternativas, né?

ENFIM.

Muito mais focado em dar novos subsídios aos mestres, o Mordenkainen’s Tome of Foes, uma espécie de “irmão espiritual” do Volo’s Guide to Monsters (2016), vai apresentar mais detalhes sobre os archdevils/arquidemônios (comandantes dos Nove Infernos), sobre o Leviatã (o deus celestial das águas), os githyanki (poderosos humanoides psíquicos que habitam no Plano Astral), os githzerai (uma versão um pouco menos doentia dos githyanki), os eladrin (descendentes de elfos que vivem no Feywild, o mundo mágico de onde se originaram os Fey) e o Shadar-kai (uma raça humanoide que vive no Shadowfell, a contraparte maligna do Feywild, de onde vêm as energias dos necromantes) e, claro, teremos também mais detalhes a respeito dos conflitos ancestrais entre os elfos e os seus primos das profundezas, os elfos negros conhecidos como drow (a raça da qual faz parte o icônico Drizzt Do’ Urden). Pois bem. Era aí que eu tava querendo chegar.

Crawford fez um vídeo no qual fala sobre os drow. E enquanto analisa a sua relação com a traiçoeira deusa-aranha Lolth e seu distanciamento do deus criador dos elfos, Corellon Larethian, ele conta, de maneira absolutamente tranquila e corriqueira, o detalhe que fez uma parcela BEM ESPECÍFICA dos jogadores de RPG ameaçarem arrancar os cabelos ao longo da última semana: alguns elfos, aqueles realmente abençoados por Corellon, têm a habilidade de MUDAR DE SEXO.

Escute. Com atenção. Tá ouvindo? São as trombetas do apocalipse. E LÁ VAMOS NÓS DE NOVO.

“Estamos falando de uma sociedade altamente estratificada em gêneros — em contraste com os elfos da superfície, que vivem num mundo essencialmente patriarcal, os drow sempre foram uma sociedade matriarcal, na qual os machos vivem num papel subserviente, quase escravo”, relembra ele. “Justamente por isso que um personagem como o Drizzt tem tanto apelo, porque é bastante heroico quando alguém se coloca contra tudo que sua sociedade está fazendo de errado e diz ‘eu não serei parte disso’. Esta é a história dele e creio que poderia ser a história de um monte de jogadores que resolvessem interpretar um drow”.

E aí vem a grande mudança, a que pode criar um RACHA ainda maior entre os elfos da luz e os das sombras. “Uma das mudanças mais interessantes sobre as quais falamos no livro é esta noção de mudança, que é algo que discutimos um pouco no Player’s Handbook“, explica o autor, relembrando o aspecto andrógino que já é bastante comum aos elfos, justamente uma referência à própria imagem do líder de seu panteão sagrado.

Ele conta que Corellon, no entanto, teria uma sensação de desgosto com os elfos, todos eles, não apenas os drow, que viraram as costas para ele em tempos ancestrais, mas também com o restante de suas crias, todos traidores em potencial. Alguns tipos de elfos ele ainda amaria — e estas crianças especiais, abençoadas, têm como sinal de sua preferência a tal possibilidade de mudar de sexo.

“Então, quando esses elfos despertam do transe no final de um longo descanso, eles podem decidir se querem ser machos, fêmeas ou nenhum dos dois. A escolha é de cada um”, conta Crawford. “E esta benção de Corellon é considerada horrível para os drow. E se aparece justamente em um deles, pode ser considerado algo bastante subversivo, numa sociedade toda baseada na diferença clara entre os gêneros. Isso poderia ser uma forma poderosa de resistência e anarquia em potencial, porque os elfos que têm esta benção são geralmente aqueles heróis que buscarão a paz com todos os outros elfos. E apesar de toda a animosidade em torno dos drow, aqueles que manifestarem esta habilidade podem procurar abrigo nos templos de Corellon, porque os outros elfos jamais poderiam negar esta capacidade”.

Eu poderia dizer que os reclamões nitidamente não prestaram atenção em boa parte dos lançamentos da quinta edição de Dungeons & Dragons, já que discussões sobre noções não-binárias de gênero vem sendo frequentes no jogo desde 2015, pelo menos, tentando tirar de vez esta visão anos 80 de que mulheres, no jogo, estão quase que sempre seminuas, ainda que com uma espada ou machado na mão (procura “female elf + dungeons and dragons” no Google e depois me conta).

Eu também poderia, sabe, lembrar ao pessoal “ah, mas isso não faz sentido com a mitologia do jogo” que estamos falando de uma ambientação ficcional na qual temos raças fantasiosas como elfos, anões, orcs e até um olho-flutuante chamado Beholder — mas, claro, se falar de fluidez de gênero, uau, que absurdo.

Eu poderia falar tudo isso e, bom, sendo honesto, até já falei. Mas apenas porque é importante que você, querido leitor, também se lembre destes argumentos. E vamos além: se você é um narrador de RPG que prefere contar uma boa história ao invés de apenas e tão somente costurar cenas de batalha repletas de pancadaria (que são legais mas, NÉ), certeza que sacou o potencial de um conceito como este. E se você é um narrador e/ou jogador de RPG que tem um mínimo de noção do que tá acontecendo ao seu redor, vai sacar o valor destas pequenas coisas. Ainda mais NUM MUNDO COMO ESTE em que a gente vive. Um mundo em que todo dia é uma falha crítica diferente. E em que a gente tem que celebrar quando o número certo sai na rolagem dos dados, de vez em quando.