Os esqueletos no armário do Homem-Aranha | Judão

The Clone Conspiracy traz de volta um importante personagem do mundo dos mortos, mas erra ao não saber fazer isso de uma forma interessante

SPOILER! O que você faria se pudesse reviver quem já morreu? Dar uma nova vida, uma nova chance, para aqueles que você amava e que se foram? Se importaria com as consequências?

Lá no fundo, esse é o enredo principal da saga Dead no More: The Clone Conspiracy, uma minissérie do Homem-Aranha escrita pelo Dan Slott e desenhada por Jim Cheung e John Dell. Basicamente, a New U, uma empresa farmacêutica, descobriu uma nova droga que pode curar qualquer doença. No entanto, ela revela algo ruim quando pessoas começam a voltar do mundo dos mortos justamente por causa dessa droga.

O nosso Amigão da Vizinhança, claro, desconfia da treta toda, mas é na verdade o clone mal feito Kaine, que é o atual Aranha Escarlate, que efetivamente começa a descobrir as coisas, ao lado da Gwen Stacy que é a Mulher-Aranha da Terra-65 – ou, se preferir, a Spider-Gwen. É aí que ficamos sabendo que o Chacal, aquele mesmo dos clones, está por trás da New U, revivendo amigo e inimigos do passado do Aranha. E, bom, o que não falta é gente morta no passado do Aranha.

Até aí, a saga seguia o enredo de uma história normal do Homem-Aranha envolvendo clones. No entanto, as coisas começam a ficar estranhas quando descobrimos que não são, tecnicamente, clones, mas sim o que parece ser um avanço dessa tecnologia – que, efetivamente, REANIMA os corpos das pessoas que pereceram. Só que essas pessoas ficam do lado do Chacal, meio que numa lavagem cerebral causada pela droga.

Em meio a tudo isso, há algumas boas passagens — por exemplo, quando descobrimos que a Gwen estava consciente durante a luta do Aranha contra o Duende Verde na Ponte do Brooklyn, descobrindo que o amado dela era o responsável pela morte do pai.

Isso tudo JÁ aconteceu em outras Terras do Multiverso. Spider-Gwen e o Kaine descobriram que, toda vez que essa história rola, Peter Parker se alia ao Chacal. O que parecia ser lindo e maravilhoso vai pro saco, já que a tal droga da vez vem no PACOTE com o vírus Carrion, aquele mesmo que ataca e mata os clones. Só que essa nova versão da doença, mais elaborada, passa a se espalhar de forma mais fácil, transformando os “ex-mortos” em portadores do Carrion – que, nesse caso, se resumem a uma horda de zumbis assassinos.

Tem mais, afinal é uma CONSPIRAÇÃO, né? Por que o Professor Miles Warren retornaria pra reviver tanta gente do passado de Peter Parker? Ok, tá bem estabelecido que ele odeia o nosso herói pela morte da Gwen, essas coisas todas. Mas... É só isso? Hm, não.

Na edição de número 3, publicada na última semana, o Aranha finalmente confronta o Chacal. E é aí que ele descobre que a pessoa por debaixo da máscara não é Miles Warren. Na verdade, ele é Ben Reilly, o clone do Peter Parker que chegou a pensar que era o original durante a Saga do Clone dos anos 1990.

OPA!

Ben Reilly

Não que, bom, voltar com personagens assim seja tão ruim. Há uns anos voltaram com o Phil Urich, que era um Duende Verde bonzinho dos anos 90, como o maligno Duende Macabro. Funcionou. Já o Ben Reilly foi uma das melhores coisas da Saga do Clone e um retorno dele, mesmo que como ~vilão, poderia soar interessante.

A motivação até se justifica. Reilly divide toda a dor das perdas de Peter, já que eles compartilham as memórias até um certo ponto da vida. Além disso, eles são irmãos, então a BRODERÁGEM também encaixa. Agora, por que também reviver os vilões?

O problema não é voltar com um personagem querido que estava morto, mas saber contar isso de uma forma interessante.

Inclusive, tenho minhas dúvidas se o grande mentor dessa conspiração é o Ben Reilly – ele deixa claro que também foi revivido pela mesma droga que deu para os outros mortos. Então alguém elaborou isso ANTES dele estar por aí pra liderar esse ataque. Pode ser até o Norman Osborn, que sabemos que retornará após este arco sem a insanidade que vem com a fórmula que lhe dá poderes.

A grande questão aqui é mesmo a execução. No papel as coisas até poderiam funcionar, mas a forma como Slott toca a HQ é sofrível. Os eventos se atropelam ou não se encaixam, coisas e pessoas surgem do nada em um grande deus ex machina e por aí vai. “Ah, isso é explicado na edição XPTO...”. Não, amigo, a história precisa funcionar por si mesma.

Ainda tem mais duas edições para serem publicadas, fora os tie-ins, e, como uma boa conspiração, viradas no roteiro ainda podem ocorrer. Por enquanto, fica aquele gostinho de potencial desperdiçado.

É, colocar o Ben Reilly nem chega a ser um problema, mas o resto...