Os Incríveis 2 perdem em charme mas ganham em coração | JUDAO.com.br

Continuação não tem mais aquele sabor de novidade, ainda mais depois de TANTOS filmes com super-heróis lançados nestes últimos 14 anos, mas aposta no tempero de doçura certinho pra garantir a diversão de qualidade

Os 14 anos entre o lançamento do primeiro filme d’Os Incríveis, criação suprema de Brad Bird e um dos filmes mais icônicos da Pixar desde então, e a chegada aos cinemas desta continuação talvez tenham ajudado a tirar um pouco o brilho deste número 2. Pudera: de lá pra cá, tramas com super-heróis, não importa se animados ou não, deixaram de ser novidade com a enxurrada de filmes da Marvel e alguns poucos da DC que tivemos ao longo do caminho. E a deliciosa história da família de heróis que respira Watchmen e entrega o melhor Quarteto Fantástico dos cinemas até hoje acaba inevitavelmente um pouco de força.

Só que, obviamente, Bird e sua trupe são bem espertos e aparentemente já previam isso. E justamente por isso, a trama de Os Incríveis 2 foi lá e pesou bem mais a mão no aspecto “família” da coisa toda, desenhando com humor e ternura quem está por baixo das máscaras enquanto as cenas de ação acabam ficando ainda mais em segundo plano do que no filme anterior. O resultado, ainda que com um efeito um pouco menos charmoso e cheio de estilo do que o primeiro justamente por perder em ineditismo, ainda tem excelentes sacadas, arranca ótimas risadas e, principalmente, te faz sair da sessão com o coração aquecido.

A história começa RIGOROSAMENTE onde a outra terminou, quase que minutos depois, no estacionamento da escola de Flecha e Violeta, com o aparecimento do Escavador — que, não por acaso, é claramente uma versão do Toupeira, inimigo clássico do Quarteto Fantástico.

Eles derrotam o vilão, mas o custo é enorme: um rastro de destruição que em nada ajuda a opinião pública a respeito dos heróis, que continuam proibidos. Sem casa, sem grana e sem a ajuda do programa secreto do governo, agora suspenso, a família Pêra começa a se questionar se não é a hora de voltarem a ter aqueles empreguinhos mequetrefes... Até que aparece um ricaço cheio de nostalgia sobre a época de ouro dos heróis e que, ao lado da irmã genial, quer bancar uma campanha pra limpar a barra dos justiceiros mascarados.

Só que, conforme os trailers já entregam, ele quer fazer com que a garota-propaganda dos heróis seja a Mulher-Elástica. Até porque, de acordo com os relatórios do seguro, ela causa muito menos estragos do que o Senhor Incrível.

Alguma grande novidade aqui? Honestamente, não. É praticamente uma releitura da principal linha de história do filme anterior, aliás, mas infelizmente sem um antagonista REALMENTE interessante como o Síndrome. A história do vilão aqui faz total sentido? Faz, assim como sua motivação. Mas não é como se você não sacasse quase DE IMEDIATO quem é o tal do Hipnotizador. Só que, cá entre nós, este é aquele tipo de segredo que não faz a menor diferença saber ou não. Porque a história não o usa como muleta narrativa.

Tá legal, as cenas de ação com a Mulher-Elástica em plena missão são foda? Ah, isso são sim. Ainda mais porque, conforme o empregador dela já disse, dependem muito menos de força bruta, pancadaria, soco na cara e destruição e mais de inteligência, destreza, habilidade. A sequência em que ela persegue um trem modernoso totalmente desgovernado em sua moto, desbravando a cidade, é ANIMAL — e misturar isso com a certeira trilha retrô/cool do Michael Giacchino, bem James Bond, é de encher os olhos. Aliás, mesmo quando a história toda se desvenda e a família se reúne mais uma vez pra lutar junta, é a Elástica que salva o dia. Foda demais.

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Os Incríveis 2 ganha em escala MESMO é no tamanho da ausência da personagem em sua casa. Porque, no primeiro filme, quando o Incrível tava fora brincando de ser herói pra massagear o ego, a esposa segurou a bronca com os três filhos. Mas agora ele tem que engolir o ciúmes e aprender a cuidar da família porque é ela quem está lá fora, combatendo o crime e, desta vez, por uma causa BEM mais nobre.

A grande diferença é que a Helena não tá mentindo. E o Beto sabe disso e entende que os motivos dela são justos. E é isso que mexe com a cabeça do maridão, agora tendo que se virar como dono de casa. Bingo. Aí tá o grande trunfo de Os Incríveis 2: é o Beto descobrindo que ser pai é ainda mais importante do que ser super-herói.

Tem um bando de novos heróis que aparecem pra lutar ao lado da Mulher-Elástica? Ah, tem sim. Uma delas, a Void, até que é interessante (isso sem falar no velhinho que cospe lava e é dublado, SEM SACANAGEM, pelo Raul Gil, perceba). Mas tamos falando de meros coadjuvantes de luxo, que meio que só servem de escada. A grande “nova” estrela aqui é mesmo o Zezé, que era apenas “o bebê bonitinho” na primeira aventura e que agora começa a manifestar de fato os seus poderes, para alegria da plateia e desespero do Senhor Incrível. “Que amorzinho” e “que demônio” são dois comentários que certamente vão se alternar na sua cabeça. E o grande embate entre o moleque e um guaxinim é, de longe, um dos pontos altos do filme. Valeria demais a pena só por estes 10, 15 minutos. :)

De resto, o que a gente já esperava, quando Edna Moda aparece é por pouco tempo mas, óbvio, a estilista rouba a cena de novo. E o Gelado ENFIM aparece um pouquinho mais e prova que, se tivesse um tantinho mais de espaço, ia ter um monte de gente pedindo um filme só dele.

Na exibição pra imprensa, claro, tinha um monte de saudosistas pirando com as referências e depois com a aparição direta e reta de Jonny Quest, na tela de TV das crianças. Os mesmos saudosistas, claro, que saíram “ah, mas porque o primeiro era melhor, era mais filme de super-herói”. Se você é destes, bom, a sugestão é passar longe. Mas se você tá procurando uma aventura leve, descontraída e com o coração no lugar certo, tá aí exatamente o que o Brad Bird fez: um conto de família em tempos de Marvel.

Cá entre nós, no fim das contas, ao entender ainda mais profundamente este aspecto, o diretor/roteirista faz com que os Incríveis CONTINUEM sendo o melhor Quarteto Fantástico dos cinemas EVER. E em 2019, quando a Disney colocar a Fox no bolso, talvez seja MESMO o caso de chamar este simpático americano de 60 anos pra ter uma conversinha a respeito de uma nova propriedade que a Marvel vai ter ganhado de volta...