Os Meyerowitz: venha por Sandler, fique por Stiller e Hoffman | Judão

Nova dramédia de Noah Baumbach faz mesmo o que achávamos impossível e traz uma bela atuação de Adam Sandler – mas ela não é exatamente o ponto alto do filme

Quando foi exibido em Cannes, neste ano, Os Meyerowitz: Família Não se Escolhe (Histórias Novas e Selecionadas) – pausa para respirar – rendeu os mais inesperados elogios possíveis a ninguém menos que Adam Sandler. Louvado pela contida e emocional atuação, um verdadeiro UNICÓRNIO na sua carreira, Sandler foi logo alçado ao posto de forte candidato ao prêmio de Melhor Ator do festival. Não ganhou o troféu, mas faturou muita atenção e, principalmente, a boa vontade de muita gente que torce o nariz automaticamente para o cara.

Uma dessas pessoinhas, no caso, foi esta que vos escreve, que ansiosamente sentou-se à frente da telinha para acompanhar a estreia de Os Meyerowitz no Netflix. O filme, dirigido pelo mestre da DRAMÉDIA cotidiana Noah Baumbach, lança um olhar sobre as relações disfuncionais de três gerações duma família nova-iorquina de classe média. É um longa de pegada realista, sem pretensão de criar momentos épicos mas que pinça toques das relações humanas e os traz à luz de forma irônica, apontando detalhes do cotidiano que são humoristicamente bizarros mas que, com o tempo, passamos a não enxergar.

E que, sim, traz a melhor atuação de Adam Sandler nos pelo menos últimos 15 anos de sua carreira. :D

Na pele de Danny Meyerowitz, o eterno Zohan é o personagem mais próximo do público, que abre e encerra o filme, contando com o arco emocional mais bem trabalhado. Trata-se de um eterno garotão, não muito diferente dos papéis que estamos tão acostumados de ver na mão de Sandler, mas que aqui é interpretado de forma sutil, realista e até melancólica pelo cara, cujo rosto envelhecido empresta peso a cada linha de diálogo.

A história de Danny não é explicada de uma só vez, mas fica bem clara à medida que se desenrolam certos diálogos: apaixonado por música, ele nunca se formou numa universidade. Teve empreguinhos aqui e ali até que se casou, assumindo o papel de “dono de casa” e passando a criar sua filha, Eliza (de quem voltamos a falar em instantes). Agora, prestes a se divorciar e às vésperas de perder sua menina para a faculdade, ele se vê forçado a ir morar com o pai, com quem sua relação nunca foi lá essas coisas, e tentar dar um jeito na sua vida — tudo enquanto tenta repetir para si que não é o fracasso que ele mesmo e todo mundo pensa ser.

O problema é que, por mais que a atuação de Sandler seja incrível para seus próprios padrões, ela é só boa, de uma forma geral. Uma boa atuação que serve o filme competentemente ou até mais que isso, claro, mas que perde força e destaque diante de outros dois grandes nomes do elenco: Dustin Hoffman e Ben Stiller.

O primeiro dispensa apresentações. Aos 80 anos de idade, Hoffman é um dos maiores atores de todos os tempos ainda em atividade, plenamente capaz e no controle de toda essa enorme bagagem de vida, imediatamente transportada à tela. Ele vive, claro, o patriarca de toda a família Meyerowitz, Harold: um frustrado escultor que nunca foi “descoberto” pela alta sociedade da arte, sendo relegado a uma vida na esfera acadêmica que culminou numa agridoce aposentadoria. Mais um reflexo de sua vida de decepções, que inclui ainda dois casamentos fracassados e uma relação bizarra com seus três filhos: além de Danny, Jean e Matthew.

Embora não tenha tanto destaque quanto esse trio, Hoffman pega seu tempo de tela e simplesmente o engole, tomando conta de ao menos um terço do filme sem fazer muito esforço. Harold é estressado, arrogante, teimoso, mesquinho e mão de vaca — e, ainda assim, é impossível não gostar dele, igual a muitos senhores de idade que conhecemos na nossa vida, que podem ou não fazer parte de nossas famílias.

Já Stiller, na pele de Matthew, entrega a melhor atuação de todo o filme, mostrando que sua afinidade com Baumbach continua altíssima após o excelente Enquanto Somos Jovens. Seu personagem é o mais difícil e distante de todos: o filho caçula, favorito de Harold, fruto do segundo casamento e para quem tudo deu certo e que ganhou muito dinheiro; um cara moderno e empreendedor que se acha no direito de escolher o rumo para as vidas dos pais por ser o único “adulto” entre seus irmãos.

Inicialmente bem detestável, Matthew logo revela fragilidades e inseguranças inesperadas para o público e, enfim, para o restante de seus familiares (como, de uma forma ou de outra, todos os personagens acabam fazendo), o que culmina num monólogo impressionante, em que Stiller mostra dominar com facilidade a arte do choro cênico, diferente do que Trovão Tropical pode indicar. É realmente impressionante a qualidade da atuação do cara, que se sedimenta como um dos considerados comediantes que melhor tem envelhecido, profissionalmente falando.

Se compõem a trinca de ouro do filme, Stiller, Hoffman e Sandler (nessa ordem, mesmo) não estão lá tão à frente assim do restante do elenco, a começar pela Meyerowitz do meio, Jean. Vivida pela intérprete ideal para uma versão live action de Daria, Elizabeth Marvel, ela é uma séria e fria (porém surpreendentemente amorosa e sensível) mulher de meia-idade que ama sua família muito embora não saiba socializar da melhor forma possível. Suas interações com seus irmãos são sempre brilhantes, muito graças ao inigualável DRY HUMOUR que Marvel sempre traz às suas atuações.

Descartando a funcionalidade de Sandler, a grande surpresa do elenco fica por conta da jovem Grace Van Patten, que injeta muita energia e um bocado respeitável de esquisitices à mais jovem Meyerowitz que vemos em tela, a supracitada Eliza (há um primo ainda mais novo, filho de Matthew, mas que nunca realmente dá as caras). Estudante de cinema, ela representa o futuro da veia artística da família, mesmo que seus projetos se resumam a sexploitations de baixo orçamento com mensagens feministas bastante mal elaboradas – e que rendem ótimas risadas, ao menos para quem tá do lado de cá da TV. :D

Em matéria de elenco, a única decepção (ou quase isso) acaba sendo Emma Thompson, que tem sucesso demais interpretando a irritantemente relapsa Maureen, atual esposa de Harold. Alcoólatra em CONSTANTE recuperação, ela é uma confusão ambulante, jogando um toque de caos em cada cômodo que passa. Uma pena que destoe dos outros personagens, tão humanos e críveis, ao parecer mais uma caricatura de neo-hippie do que uma pessoa de verdade.

Um salve para as participações especiais de Adam Driver e Sigourney Weaver, além de Judd Hirsch como o artista contemporâneo e amigo de Harold, L.J. Shapiro.

Mais do que qualquer outro filme de Baumbach, Os Meyerowitz é um filme em que a história não é o mais importante quando você vai recomendá-lo. Trata-se do encontro, por um motivo ou outro, de todos esses curiosos e IDIOSSINCRÁTICOS personagens que, de uma forma ou de outra, representam a nós mesmos — tudo temperado com diálogos extremamente (num nível arrepiante) reais, mas que ainda assim não sacrificam o valor de entretenimento, se transformando em qualquer papo furado de elevador. Aqui, aliás, tudo isso vai além. Como o próprio diretor explicou numa bela entrevista ao The Hollywood Reporter, trata-se de um grande exercício narrativo que nos permite ver aos poucos que, numa grande família, todas as pessoas são variações de uma mesma personalidade.

“Você tem todos esses diagramas de Venn (aquele das pizzas que se cruzam :D) que se batem onde as pessoas são diferentes, onde são similares e é por isso que famílias têm sido usadas em grandes narrativas há tanto tempo”, ele detalha. E é isso mesmo. É fantástico, tendo isso em mente, ver como os personagens de Sandler, Stiller e Marvel refletem o de Hoffman. Um puta trabalho de construção de personagens AND execução, por parte de roteirista, diretor e atores.

Isso tudo quer dizer, então, que Os Meyerowitz é um PUTA filme?!

A resposta é: não. Por mais que esteja recheado de bons momentos e, em matéria de atuação, seja um prato cheio para os CINÉFILOS de plantão, o filme dá uma bela desandada em seu terceiro ato, com uma sucessão de fade ins e fade outs que conferem ao menos uns três desfechos à história numa pegada O Retorno do Rei em versão light. Isso para não falar no final-final mesmo, que não fosse apropriado tematicamente, mereceria um belo e sonoro “vai tomar no cu”.

Bem mais tematicamente raso e simples que trabalhos anteriores como A Lula e a Baleia ou Frances Ha, Os Meyerowitz: Família Não se Escolhe (Histórias Novas e Selecionadas) – eu precisava repetir nome e sobrenome ao menos mais uma vez nesta caralha – ainda é um filme de Noah Baumbach, forte naquilo que você sabe que pode esperar desse AUTEUR do cinema americano. Vale pelos diálogos, vale por Sandler, vale por Stiller e, principalmente, vale por Hoffman.

Como escrevi antes, NESTE CASO, a história é o de menos. ;)

PS: Sacrificando o lirismo de todo o texto, quero registrar que, por mais que o hype tenha sido exagerado, é lindo ver Sandler mostrando talento real que, sabemos ou deveríamos saber, ele tem. Que isso possa se repetir futuramente porque, olha, eu estou prontíssimo para a SANDLERSSAINCE.

PPS: Eu deveria, mas não mencionei quando falei do elenco, mas o poodle Bruno também entrega uma belíssima atuação como o cão de confiança dos Meyerowitz. Não à toa, faturou o Palm Dog em Cannes. P R I O R I D A D E S.