Os (não tão) absurdos de Chewing Gum, uma série que você já deveria ter assistido | Judão

Diversidade, risadas e situações quase inacreditáveis pra dar e vender: taí a fórmula duma das melhores séries de humor da atualidade

Pais religiosos que mais parecem bispos de C E R T A S igrejas; desejos luxuriosos bizarros em meio ao marasmo da virgindade; tentativas grotescas de sedução do sexo oposto, sem a menor referência do que fazer; ménage à trois e outras oportunidades de realizar fantasias sexuais aparecendo (e desaparecendo) quando se menos espera; primos tarados por... primos.

Chewing Gum é uma série que compila todos esses absurdos aí em cima, que você pode ou não (mas provavelmente sim) ter vivido em algum dado momento da sua vida, no que especialistas chamam de DESPERTAR SEXUAL. E então os eleva a mais de 9 mil e coloca na perspectiva de uma jovem negra, residente de um conjunto habitacional na Zona Leste de Londres.

E é absolutamente, sensacionalmente, IRREFREAVELMENTE hilária. :D

Protagonizada pela brilhante Michaela Coel, a série conta a história da jovem Tracey. De ascendência africana (a série não especifica exatamente de onde), ela foi criada por sua mãe em um lar de fé cristã bastante tradicionalista. Virgem até os 24 anos, ela decide, meio que repentinamente, que #jádeu. E parte em busca daquela primeira ~furunfada da vida.

O grande problema é que ela, considerando suas origens BEM reprimidas nesse quesito, não tem a menor ideia do que fazer pra conseguir transar e, nessa de ir com muita sede ao pote, se mete em todo tipo de confusão bizarra – a maior delas, talvez, sendo uma descoberta bem desengonçada do amor. Ou algo próximo disso. ;)

Cheia de estranhezas e repleta de muito daquele humor britânico baseado na vergonha e desgraça alheia, Chewing Gum é daquelas produções super IDIOSSINCRÁTICAS, que realmente exigem um certo período de adaptação ao seu tom e ritmo. Mas uma vez alinhado à pegada da produção, você logo vai se ver mergulhado no universo de Tracey e sua forma de encarar questões pertinentes à sexualidade, indo de formas de masturbação à realidade de diferentes orientações sexuais, até mais voltadas à construção social, como o racismo. Tudo de forma orgânica, sem virar textão, mas sim servindo à história sendo contada ali.

Isso acontece porque Michaela não dá vida só à insana Tracey, a quem interpreta, mas também a todo o universo de Chewing Gum. Adaptada de uma peça produzida por ela em 2012, Chewing Gum Dreams, para o Channel 4 da TV da Rainha, a série é semiautobiográfica, incorporando elementos das origens ganesas de sua criadora, seu período de dedicação ao cristianismo pentecostal e, principalmente, suas origens na ZL londrina.

Com sua primeira, esquisitíssima e hilária primeira temporada, lançada em 2015, Chewing Gum faturou o coração de público e crítica, conferindo à Michaela dois cobiçados prêmios BAFTA por melhor performance feminina em comédia e revelação para TV. Com a segunda temporada, exibida na TV britânica em janeiro e fevereiro de 2017 e recém-chegada ao Netflix, eu diria que podemos esperar algo nas mesmas tintas. Ou até mais. :D

Em seu segundo ano, Chewing Gum foge de ficar insistindo no mesmo conflito por temporadas a fio e realmente progride a jornada de amadurecimento não só de Tracey, como também dos personagens à sua volta (com destaque para sua irmã Cynthia, vivida brilhantemente por Susie Wokoma). Mas não antes, claro, de brindar o público com mais alguns absurdos de rachar o bico em um milhão de pedacinhos – duma balada-orgia a um episódio mais que catastrófico de sexo casual, passando por um personagem racista no melhor naipe “tenho até amigos negros”.

Só que, mais do que isso, a série se consolida como um verdadeiro BASTIÃO da diversidade e do seu poder enquanto portal para boas histórias. O coração dos conflitos enfrentados por Tracey, sua família e seus amigos é universal – mas vê-los sob a ótica de uma mulher negra, numa série que abraça personagens negros, latinos, brancos; héteros, gays; magros, gordos, considerados bonitos ou feios pelos padrões tão restritivos de um meio como a televisão, é foda.

Nesse mundo de 2017, aliás, chega a ser um absurdo o quanto. Mas que bom que não é. ;)