Os riffs imortais da alma do AC/DC | Judão

Neste sábado, aos 64 anos, perdemos o homem que ajudou a dar corpo a uma das maiores bandas de rock do universo

Quando a gente pensa no AC/DC, não dá pra deixar de pensar imediatamente em Angus Young. Com sua roupa de colegial, o músico escocês naturalizado australiano é uma verdadeira explosão de energia no palco, metralhando solos melódicos fodásticos alternados com um combo de pulinhos marotos e caretas divertidíssimas. Angus é o coração do AC/DC, seu principal porta-voz e garoto-propaganda.

Mas o lance é que a banda jamais existiria do jeito que é e tampouco teria a influência que teve para tantas outras não fosse a existência da ooooooutra metade. O yang discreto e contido para este yin exagerado de shortinho e boné. O outro irmão Young. Malcolm Mitchell Young, o mais velho, a guitarra rítmica, o cantor de apoio, o principal compositor.

Se Angus é o coração, definitivamente Malcolm sempre foi a alma do AC/DC. O músico que se foi, aos 64 anos, na manhã deste sábado (18).

Malcolm dedicou quatro décadas de sua vida ao grupo que fundou com o caçula Angus em 1973, na cidade de Sydney, quando tinha apenas 20 anos de idade. Mas desde 2014, estava afastado das atividades musicais pra tratar de um quadro grave de demência, que inclusive prejudicava sua memória imediata.

Justamente por isso, acabou nem participando das gravações de Rock or Bust, o mais recente disco de estúdio da banda. Para o seu lugar, tanto no álbum quanto na turnê, foi recrutado outro Young, Stevie, sobrinho de Malcolm e Angus e filho do mais velho dos irmãos, Stephen Young. Na verdade, Stevie já tinha tocado no AC/DC em 1998, quando Malcolm se internou para cuidar de problemas relativos ao álcool. Teve fã que nem sacou a mudança, graças à semelhança física entre tio e sobrinho.

“Ao lado de Angus, Malcolm era o fundador e criador do AC/DC”, diz o breve comunicado oficial do AC/DC. “Com grande dedicação e comprometimento, ele era a força por trás da banda. Como guitarrista, compositor e visionário ele foi perfeccionista e um homem único. Ele deixa um legado que vai viver para sempre”.

Olha, isso é a mais pura verdade. Não importa se você considera o AC/DC uma banda de hard rock, de heavy metal, de blues rock ou simplesmente de rock n’ roll. O trabalho do cara na chamada guitarra rítmica, também conhecida como guitarra base, era menos chamar atenção e mais ajudar no acompanhamento da canção, criando um “calço” harmônico fundamental ao lado da bateria e do baixo. Uma guitarra percussiva. Aliás, há quem diga que Malcolm era mestre na chamada técnica de “playing in the pocket”, meio que encaixando suas partes entre as batidas do batera. Nada de distorção. Seus riffs eram limpos, claros, econômicos... e icônicos.

“O Malcolm é realmente muito subestimado”, afirmou Angus, certa vez, em entrevista para a Guitar World. “Ele faz o som parecer mais completo e eu não poderia pedir por um guitarrista base melhor do que ele. Algumas vezes eu olho pro Malcolm quando ele tá tocando e fico completamente maravilhado com o poder bruto que ele tem. Ele tá fazendo algo bem mais único do que eu faço, com este som que é mais cru e natural. Não dá pra negar que caras como Eric Clapton e Eddie Van Halen influenciaram muita gente, mas pra mim esta coisa rítmica é mais impressionante e importante pra uma banda. Malcolm é uma grande inspiração pra mim”.

Angus explica ainda que, enquanto ele apenas “adiciona mais colorido” à cobertura das músicas, é Malcolm que assume o papel de fundação da história toda. “Ele é o mais puro e sólido rock e toca isso com o poder de uma máquina. Tudo que ele faz tem groove e ele sabe quando e o que tocar. Sua mão direita praticamente não pára em algumas vezes. É assustador”, brinca.

Para que o papel do irmão Young mais velho nesta engenharia precisa fique mais claro, a gente vai deixar aqui duas canções que servem como as maiores homenagens ao que o músico fez em sua história fonográfica e ao legado de riffs inesquecíveis que ele deixa. Ambas são composições de Malcolm. Nas duas performances, uma mais antiga e outra bem mais recente, basta um pouquinho de atenção para ver a parte que cabe ao Angus e a que cabe ao Malcolm. Tem o solo? Ô se tem. Mas tem uma parte furiosa, intensa e muscular que é a raiz do que se entende como AC/DC. E era ali que estava Malcolm, tranquilão, no fundo do palco, sem pressa.

A metade cool, sorriso discreto, calça jeans e camiseta do AC/DC se vai. We salute you, Malcolm. Our friends are gonna be there too.