Pain of Salvation: quando a morte se torna uma celebração da vida | Judão

In The Passing Light of Day, novo disco da banda sueca, é intenso e bastante pessoal, cheio de novas referências musicais e remetendo a uma experiência quase fatal pela qual passou o vocalista Daniel Gildenlöw

Estamos em 2017, caso vocês não tenham notado ainda. E eu fico realmente espantado quando as pessoas AINDA reclamam que não existem boas bandas novas, nada revolucionário, que o rock morreu, entre outras LENGAS-LENGAS.

Talvez seja porque não conhecem, por exemplo, o Pain of Salvation, banda originária da Suécia mas com um integrante islandês e um francês. Como soa tal mistura? Um acerto daqueles, que nos proporciona o que será, com certeza, um dos melhores lançamentos de 2017. Estou soando precipitado? Não. Jogo todas as minhas fichas que chegaremos ao final desse ano e pouca coisa será melhor do que In The Passing Light of Day, lançado há duas semanas.

Mais conhecidos por fazerem um som progressivo dentro do metal, nos últimos dez anos eles flertaram com outras experimentações e também com um som mais regado a influências setentistas e grunges – nota-se tons de Led Zeppelin, The Who, Soundgarden, entre outros. Tudo bem diferente do som pelo qual fizeram seu nome dentro do nicho metálico.

Claro, mudanças de formação ao longo desses últimos doze ou treze anos influenciaram também neste novo direcionamento, não tenhamos dúvidas. Porém, finalmente a formação estabilizou desde então e o que temos é o primeiro álbum deste novo line-up, aparentemente muito bem integrado.

O Pain of Salvation, liderado pelo vocalista e multi instrumentista Daniel Gildenlöw (que cuida dos conceitos e ideias dos discos, além de ser responsável pelas letras e composições) costuma apresentar trabalhos que variam do muito pessoal até análises filosóficas, sociológicas, antropológicas e teológicas, em um caldeirão de críticas bem ácido.

Este In The Passing Light of Day rivaliza com o clássico e ótimo Remedy Lane justamente no âmbito pessoal: trata-se do reflexo de uma experiência de quase morte pela qual Gildenlöw passou no início de 2014.

Embora isso possa soar sobrenatural, esqueça os túneis de luz ou encontros com anjos. O que rolou é que Gildenlöw quase morreu porque uma bactéria devoradora de carne (sério) alojou-se em suas costas e CARCOMIA seu dorso em uma velocidade aterrorizante. Teve que ser operado imediatamente e, quando teve alta, alguns fãs até falaram para ele fazer um álbum sobre a experiência. Dito e feito: In The Passing Light of Day é pesada, soturna, depressiva e perturbadoramente pessoal.

Não se trata de uma audição fácil nem mesmo para o ouvinte mais tradicional da banda – e arrisco dizer que a coisa pega ainda mais caso você tenha passado pela experiência de perder uma pessoa querida recentemente. Se é o seu caso, a bolacha ganha dimensões e camadas ainda mais profundas. Ainda assim, o resultado é um discaço daqueles que qualquer apreciador de boa música deve ter em sua coleção, fã de heavy metal ou não.

O álbum abre com On A Tuesday, sobre o dia em que ele foi hospitalizado. Se liga neste trecho: “I was born in this building / It was the first tuesday I’d ever seen / And if I live to see tomorrow / It will be my tuesday number 2,119”. A irônica ligação do dia em que nasceu – um terça-feira – ser o mesmo dia em que foi hospitalizado, além de ter sido internado no mesmo hospital em que veio ao mundo, é o gancho perfeito para mostrar sobre o que será o álbum: uma experiência opressivamente densa que permeia da primeira à última nota.

Com um groove pesado calcado nas poderosas linhas do baixo de Gustaf Hielm e na bateria precisa de Leo Margarit, além das melodias do piano de Daniel Karlsson dando a sensação orquestral na medida certa, a faixa inicial possui ainda narrações ao longo da letra, que é um recurso dominante em todo o projeto, o que dá ainda mais a sensação pessoal que o trabalho propõe.

Mas, como o próprio título sugere, a positividade ainda consegue espaço no clima do disco, uma leve sensação de esperança, de que as coisas melhorem, de força renovada e de que no fim do túnel há sempre uma luz sem ser outro trem vindo no caminho contrário.

“God loves a jester / God loves a joke”, diz a letra de Tongue of God, disparada uma das melhores do disco, na qual o baixo de Hielm merece todo o crédito pelo clima, ajudando a lembrar dos sons dos primórdios da carreira dos suecos. No início, parece uma balada, mas engana qualquer um assim que o peso explode. Sabe aquelas músicas que você coloca no repeat e esquece de tirar? É uma dessas.

A terceira composição, Meaningless, o primeiro single lançado pelo grupo, traz um refrão grudento e com o qual qualquer pessoa poderia se identificar facilmente: “How the hell / Am I supposed to keep myself / When you are so damn far away / And everything feels meaningless / And I am not mine?”. Confesso que essa me atingiu em cheio e foi aqui que as lágrimas vieram. Esta trinca inicial, aliás, já é o suficiente para chacoalhar qualquer ouvinte e abalar a sensibilidade do mais frio coração que possa haver por aí.

A diversidade musical se espalha ao longo das faixas a seguir. Em Full Throttle Tribe, ODE de puro amor sobre a própria banda e o que ela significa na vida de Gildenlöw, seu legado, sua bandeira, há mais elementos eletrônicos, mas sem exageros, servindo perfeitamente ao objetivo da canção e seu ritmo sincopado.

Na melancólica If This Is The End, bem difícil de absorver, tome uma pegada que lembra trilhas de filmes de velho oeste com pitadas a la Johnny Cash. E o que dizer do segundo single, Reasons, que realmente tem uma cara mais comercial e lembra até algumas coisas do Foo Fighters em algumas passagens? Para o que o Pain of Salvation representa, tornou-se algo de fato surpreendente.

Nada, no entanto, surpreende mais do que The Taming of A Beast. Vemos um lado mais primitivo e REPTLIANO nessa canção, uma pessoa despida da forma mais crua possível. É como se o Mr. Hyde vencesse o Dr. Jekyll. O trabalho fônico da letra, aliado à interpretação vocal do frontman, cria um clássico instantâneo e pegajoso que você sente vontade de cantar (ou BERRAR, caso queira liberar o seu lado mais selvagem) junto.

Quando você chega em Angels of Broken Things, que fala do momento mais crítico e dramático da recuperação do cantor com um ritmo quase hipnótico e que remete aos sons de hospitais e seus aparelhos, eis que então saca que chega também o primeiro solo do disco. Pois é, eles praticamente não existem em In The Passing Light of Day, tornando a obra muito mais focada em riffs com mesclas de sons repetitivos para recriar a claustrofobia da bizarra situação que ele passou. Você sente falta? Mas nem um pouco.

Fechando este estupendo trabalho, a longa faixa-título é algo inclassificável. Mezzo-Pink Floyd, mezzo-Porcupine Tree, é simplesmente uma das coisas mais tocantes criadas pelo grupo na mais pura forma de amor declarado para a esposa de Gildenlöw, Johanna. É daquelas que, ao vivo, com certeza será cantada com o público como numa só voz, por maior que seja. Além disso, ainda referencia diretamente Remedy Lane, com quinze minutos de emoções frágeis que alternam momentos de quietude e introspecção e um peso que foge do óbvio, deixando-nos como perfeitas testemunhas de uma alma em um momento pra lá de delicado.

Levando em conta o tema do disco, dá pra dizer claramente que o retorno do grupo a passagens mais pesadas, acentuadas com raiva, frustração e desespero foi uma decisão acertada para este lançamento. Sabe a ideia de “menos é mais”? É o que dita In The Passing Light of Day: embora eles tragam de volta vários dos elementos que os consagraram, conseguem não soar mais do mesmo e sim como música renovada e cheia de...vida. Pois é. Um disco sobre quase-morte que acaba celebrando a vida. Irônico?

Temos aqui um disco que jogou a barra de qualidade lá em cima e, arrisco, que poucos músicos ou bandas vão conseguir alcançar até dezembro. As apostas estão lançadas. :D