Paola Carosella, Mário Lago e o caminho do sucesso | Judão

“Vou ali no jardim regar utopias”

A notícia diz que os millennials estão desapegados de comprar casa própria ou carro. Uma amiga de 19 anos veio ver com a família um apartamento num predinho aqui na minha rua, dois quartos, 100 metros quadrados, o preço: um milhão de reais. Verdade verdadeira. Não que eu me importe tanto assim, mas quem nunca poderia comprar um apê já tem algo resolvido na vida, falo por experiência própria.

Todo mundo precisa de um lugar para chegar. Uma meta. Juntar dinheiro e viajar o mundo. Segundo aquele site com hype no nome, dá pra viajar o globo terrestre mesmo sendo uma pessoa sem grana alguma. Numa reportagem, leio que é suicídio profissional você largar tudo e passar um ano sabático, viajando sem fazer nenhum curso, só comendo curry, tomando cachaça de uva e transando com desconhecidos.

Suicídio profissional. Millennials desapegados. Todo mundo precisa chegar em algum lugar. Transar com desconhecidos. Repetir frases pra tentar entender onde você quer chegar com o texto. Que tremenda loucura. Quando eu tinha 20 e poucos, ninguém analisava se eu ia pra lá ou voltava, sei lá, talvez tivessem mais pudor ao nos classificar como categoria de consumo, de uma forma que eu nunca me importei tanto com planos profissionais, tava mais preocupado com o amor, a esbórnia e a justiça social.

Outro dia, após tentar dialogar com haters, a Paola Carosella resumiu a beleza da vida em um tweet: “Vou ali no jardim regar utopias”. Confesso que dei uma chorada, daquelas que a gente dá quando se sente menos trouxa e sozinho na roda gigante onde a gente nasce e de vez em quando enxerga longe, lá do alto, e outras vezes, só vê a fila da próxima turma que quer andar no brinquedo.

Mario Lago

No Canal Brasil, onde Maíra, minha marida, chegou na aventura do zapping, acabamos assistindo ao documentário Mário Lago – Homem do Século XX (2014), cujo título é auto-explicativo. Radialista, comunista, sindicalista, poeta, sambista, ator, diretor, roteirista, boêmio, pé na jaca total, casado de 74 a 98 com o grande amor da sua vida, Zeli, que encerrou o casamento porque inventou de ir embora dessa vida boa que tinha por aqui, nessa Terra que um dia há de comer cada um de nós.

Ali na cabeça raramente branca daquele cara que eu tenho impressão de ter sido sempre velho, só mensagens de companheirismo, de amor, de andar pra frente no sentido do dia a dia, não dos insuportáveis planos e metas que inventaram para nos prender em cubículos onde nos estabelecemos em busca de produzir bem e sempre, não importa o quanto a gente odeie aquilo tudo. Mas tudo bem, no fim do ano a gente faz uma viagenzinha besta e tudo faz sentido. Faz?