RESENHA! Shazam!

Muitas risadas e diversão sem compromisso você já sabia que este filme traria, isso era fato. Mas ele também tem uma dose deliciosa de coração, se tornando mais um daquela categoria “filme para aquecer o coração depois de um dia bem merda”.

Que o filme do Shazam! ia ser pop, mas assim pop pra caralho, pop até dizer chega, isso já tava claro pra quem viu pelo menos um dos trailers da produção. Pop como a melhor música pop, aquela com o refrão grudento que te pega pelos cabelos, que você cantarola pra sempre, um chicletão que toca sem parar nas rádios, cujo clipe bomba no YouTube e domina as paradas de sucesso. Shazam! é pop jovem, moderno, leve, descontraído, colorido, bem-humorado, pra todas as idades.

Isso tudo tava escancarado nos materiais de divulgação e o filme, sem exagero algum, eleva isso à enésima potência, sem necessidade alguma de se levar à sério, com referências aos montes espalhadas por todos os lados (repare, por exemplo, nas inúmeras menções à tigres, para homenagear o icônico felino Senhor Malhado). Mas o grande segredo do filme, aquilo que a Warner guardou sabiamente para o momento da experiência na sala de cinema, é o aspecto CORAÇÃO. Shazam! também é um filme doce, fofo, que sabe usar o seu lado “família” de um jeito certeiro, que acrescenta uma busca adicional ao personagem principal que lhe acresce também uma camada extra de significado, indo além do “moleque travesso que quer ser grande porque é legal”. Tem mais recheio neste bolo.

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Comparar Shazam! com os outros filmes da DC que deram certo, Mulher-Maravilha e Aquaman, é uma sacanagem tremenda, porque o tom é muito diferente de ambos. A gente podia, então, entrar na onda de quem diz que este filme é a DC tentando ser Marvel? Olha, até pode, se os filmes da Casa das Ideias com os quais você vai comparar forem Homem-Aranha: De Volta ao Lar, por toda a questão escolar/juvenil, ou então um Guardiões da Galáxia da vida, bem solto, bem livre, que sabe usar o clima retrô (no caso de Shazam!, beeeem anos 80) de uma maneira que não soa velha, datada, saudosista.

Sabe aquela parada que a gente chama de comfort movie? A versão cinematográfica daquela comida que te lembra os finais de semana na casa da sua avó, que você come e se sente tipo o crítico gastronômico do Ratatouille, viajando de volta a um mundo de sensações da sua infância? Pois é. Shazam! tem o maior jeitão de comfort movie. Do tipo que você vai ver quando estiver se sentindo tendo aquele dia bem merda.

Para quem tem mais de 30, dá pra dizer que, mais do que um filme de/com super-herói, a história de Billy Batson é uma Sessão de Tarde QUINTESSENCIAL.

A trama, na real, é uma história de origem bastante simples: o Mago Shazam busca, com certa dificuldade, o escolhido para ser o protetor da Terra, já que o perigo das entidades ancestrais conhecidas como Sete Pecados Mortais e seu próprio campeão cresce a cada dia. Numa trama quase que integralmente inspirada na reinterpretação de Geoff Johns para o personagem, pós-Novos 52, o jovem rebelde Billy Batson, órfão que vem pulando de casa em casa há anos, sem nunca aceitar nenhuma família como sua, acaba sendo a opção que resta ao ser místico — justamente no momento em que o garoto vai parar em mais um lar, desta vez repleto de outras crianças adotadas, em plena Filadélfia do Rocky Balboa (fique com isso em mente, acredite, vai fazer sentido).

Mark Strong, que já tinha roubado a cena como o Sinestro naquele desastre de trem conhecido como “filme do Lanterna Verde”, é um Doutor Silvana bastante convincente, canastrão na medida certa (embora igualmente assustador numa determinada sequência quando se reúne com papai e o mano mais velho para um “acerto de contas”). Só que, sejamos honestos aqui, a treta entre ele e o Capitão Mar...quer dizer, o Shazam, acaba ficando demais em segundo plano.

Porque a trama principal se desenrola é no momento dos aprendizados de Billy Batson, que enquanto justiceiro fantasiado precisa aprender o que é ser um herói além das selfies e com muita responsabilidade (cof cof) e enquanto criança vai aprender o VERDADEIRO significado da palavra família.

É injusto não dar ao Zachary Levi os créditos devidos, porque ele parece estar genuinamente se divertindo em cena, sendo exageradamente careteiro e carregando nos trejeitos do peito estufado e da mão na cintura do jeito que bem se imaginaria de um moleque de 15 anos alçado ao status de galã bombado de meia-idade. Mas é no núcleo dos irmãos adotivos de Batson que estão duas figuras que roubam a cena. A começar pela maravilhosa Faithe Herman, a caçula da turma, Darla. Que menina incrível, que sorriso cativante, que olhar cheio de meiguice. Se você é adulto, você sai do cinema querendo que ela seja sua filha, sua irmã, sua sobrinha, sei lá. É muito amor na forma daquela pequena pessoa.

E o outro dono do filme é Jack Dylan Grazer, que vive o Freddy, o menino deficiente que é a sombra do Shazam, seu sidekick oficial. Além de ser responsável por algumas das cenas mais delicadas e emocionantes da história, ele também é, bom, a gente representado na tela. O especialista em super-heróis, leitor de gibis, consultor para efeito de testes de superpoderes, Freddy é o fã, em sua forma mais inocente e BEM menos tóxica, ali divinamente incorporado enquanto protagoniza uma gloriosa cena ao som de Don’t Stop Me Now, a feel good song definitiva pra qualquer ocasião.

Shazam! é filme com gosto de tutti-frutti. Pra deixar de ser ranzinza e curtir junto com a molecada numa sessão daquelas bem agitadas e barulhentas. Pra deixar o seu lado Billy Batson aflorar. Pra deixar os boletos estacionados na porta do cinema e voltar a ser criança só um pouquinho, por duas horas que seja. Pra ter vontade de gritar a palavra mágica e sair voando por aí.

Valeu a pena esperar.

Um aviso final: temos duas cenas pós-créditos aqui, uma diretamente relacionada à história do filme, e que já entrega uma ideia, daquelas que todo fã das antigas vai vibrar ao sacar, de uma potencial continuação. E uma outra que é a prova suprema de que estamos diante de uma DC que aprendeu a rir de si mesma. Não são poucos os momentos em que o filme se permite falar do Superman, do Batman, da galera toda da Liga da Justiça, colocando Billy no mesmo universo mas ao mesmo tempo se desobrigando de qualquer questão com cronologia.

Mas a cena derradeira, quando os créditos se encerram, parece ser a linha que faltava riscar na areia nesta nova fase dos DC Filmes. Aquela que diz: “valeu, Zack Snyder, mas daqui você não passa mais. Até mais, parça”. E eu adiciono: não sentiremos a sua falta, cara.